Em um encontro que trocou os tradicionais painéis por diálogos guiados por perguntas do público, representantes da indústria, do sistema financeiro, do governo e de organizações sociais analisaram os dilemas e as urgências da transição energética, para apontar prioridades nas discussões na COP 30. Promovido por Scatec, CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e Fundação Dom Cabral (FDC), o encontro COP 30 – Dilemas da Transição Energética reuniu especialistas que apontaram a maturidade tecnológica e científica do setor pouco dias antes do evento de Belém, mas também as defasagens na execução e na governança das medidas necessárias.

Segundo Paulo Guerra, gerente de negócios e soluções da área de Gestão Pública da Fundação Dom Cabral, não há combate à mudança climática sem governança e sem gestão. “É justamente aí que a Fundação Dom Cabral pode contribuir conectando o setor público, o setor privado e o terceiro setor”, afirma. A presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias) e enviada especial do governo brasileiro para o setor de energia na COP 30, Elbia Gannoum, destacou que o desafio é mais institucional do que técnico.

Júlio Meirelles, diretor executivo do Santander, e Holger Rothenbusch, diretor do British International Investment, enfatizaram, durante o encontro, realizado no campus da FDC em São Paulo, a importância da previsibilidade e da coordenação global para viabilizar investimentos. A CEO da Impact Coalition, Juliana Schürmann, encerrou o debate com uma provocação sobre a distância entre o conhecimento e a ação, reflexão que norteou as respostas finais de Elbia sobre o papel da governança e da liderança coletiva.

Um teatro para a transição

Blocos de madeira com ícones representando energia renovável e transição energética, incluindo turbina eólica, painel solar, plug de energia limpa e alvo de eficiência.
Foto: Sutthiphong Chandaeng/ Shutterstock

Com uma dinâmica inédita, o encontro realizado no campus da FDC em São Paulo substituiu painéis expositivos por uma encenação interativa, na qual os jovens da plateia formularam as perguntas que conduziram o diálogo entre especialistas. A metodologia foi conduzida por Pedro Lins, consultor de ESG da Fundação Dom Cabral, que atuou como um “diretor teatral” para provocar interações entre representantes da indústria, do sistema financeiro, do governo e de organizações sociais.

Inspirada em práticas de teatro espontâneo, a proposta buscou romper hierarquias tradicionais de debate e estimular a troca direta entre diferentes perspectivas. O estilo de apresentação ilustrou como a transição energética exige não apenas inovação tecnológica, mas também novas formas de cooperação e diálogo.

O gerente de negócios da Fundação Dom Cabral, Mark Paladino, destacou o papel da educação executiva na criação de lideranças capazes de promover transformações sustentáveis. “A educação é uma das ferramentas mais poderosas para gerar futuros positivos — especialmente quando conecta conhecimento, propósito e ação coletiva”, afirmou.

Da maturidade técnica à urgência de execução

Elbia Gannoum destacou que os principais entraves da transição energética não são mais tecnológicos ou financeiros, mas institucionais. “Falamos de tecnologia, falamos de recursos financeiros, mas sinceramente não acho que esses dois fatores sejam dilemas. O limite está na nossa capacidade de nos organizarmos para alcançar os objetivos”, defendeu.

A presidente da Abeeólica ressaltou que, apesar da existência de instrumentos de incentivo e mecanismos de precificação, eles ainda não são utilizados de forma efetiva. “Desde o fogo, o ser humano age de acordo com seus incentivos e suas necessidades. Se houver políticas adequadas e governança efetiva, a transição acontece. O setor privado tem dinheiro e tecnologia, o que falta são mecanismos adequados”, completou.

Para a especialista, que representará o Brasil nas negociações internacionais, o papel do Estado é essencial para coordenar esforços e assegurar que a sociedade avance em direção a metas comuns. “Governança é o que vai permitir que os recursos e as pessoas caminhem na mesma direção”, afirmou.

Previsibilidade e cooperação internacional

O diretor executivo do Santander, Júlio Meirelles, reforçou a necessidade de estabilidade regulatória e previsibilidade como condições para a ampliação dos investimentos em energia limpa. “Transição energética não é uma empreitada barata nem fácil. Depende de volumes de capital muito grandes na largada e de estabilidade suficiente para que os investimentos sejam repagos”, destacou.

Segundo Meirelles, o maior desafio é convencer os detentores de capital a direcionar recursos para projetos de longo prazo em um ambiente de incertezas. “O dilema é encontrar previsibilidade de demanda, preço, segurança jurídica e regulatória. Essa previsibilidade é o que determina se o capital será alocado aqui ou em outros mercados. É uma questão de organização e de tempo de resposta”, afirmou.

A perspectiva internacional foi complementada por Holger Rothenbusch, diretor do British International Investment, que exemplificou como a regulação pode acelerar ou travar o processo de transição. “Na Índia, políticas e regras claras geraram um ambiente vibrante para investimentos privados em energia e transmissão. Já em boa parte da África, onde ainda não há marcos regulatórios adequados, o investimento simplesmente não acontece. As finanças públicas estão exauridas e os recursos privados evaporam”, observou.

Dilemas sociais e o papel da colaboração

A CEO da Impact Coalition, Juliana Schürmann, trouxe ao debate uma reflexão sobre a inércia entre o conhecimento científico e a ação coletiva. “Do que adianta os cientistas serem capazes de fazer previsões se, no final, o ser humano só está disposto a esperar que o caso aconteça?”, citou, referindo-se à frase de um cientista da NASA que inspirou a criação de sua organização. A partir dessa inquietação, Juliana reuniu cientistas, ativistas, empresas e governos em projetos colaborativos de regeneração e engajamento comunitário.

Elbia Gannoum reconheceu a importância dessas iniciativas. “O que você está fazendo, Juliana, é governança. Talvez ainda não tenha o alcance global de que o planeta precisa, mas é exatamente essa organização que faz as pessoas chegarem aos objetivos. Temos recurso, temos tecnologia e temos gente em prol da transição energética. Falta coordenar tudo isso sob uma liderança capaz de mobilizar”, concluiu.