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– O Sistema Financeiro Digital (SFD), iniciativa de grandes instituições financeiras brasileiras com apoio do Banco Central, enfrenta desafios organizacionais que comprometem sua implementação, incluindo o equilíbrio entre descentralização e controle.

– A dificuldade em atrair novos membros além do grupo inicial de cinco instituições, devido à falta de incentivos e clareza nas regras de governança, se tornou um gargalo estrutural que limita a viabilidade do projeto.

– A interoperabilidade entre diferentes sistemas financeiros, essencial para a integração do SFD, revela-se complexa, transformando-se em uma questão de governança, ao exigir altos níveis de confiança e colaboração entre os participantes.

Resumo supervisionado por jornalista.

À medida que novas tecnologias são desenvolvidas, órgãos públicos e empresas privadas buscam formas mais eficientes de exercerem suas atividades. Em alguns casos, essa busca leva à formação de alianças estratégicas em torno de objetivos comuns, como ocorreu com o Sistema Financeiro Digital (SFD), iniciativa liderada por grandes instituições financeiras brasileiras e apoiada por entidades como o Banco Central. A proposta era utilizar a tecnologia blockchain para criar uma infraestrutura moderna de pagamentos instantâneos.

No entanto, o grupo de trabalho esbarrou em entraves que não eram técnicos, mas sim organizacionais. Em artigo, a vice-presidente executiva da Fundação Dom Cabral, Rosileia Milagres, e os professores da FDC, Marcus Lindgren, Douglas Wegner e Ana Burcharth, analisam o caso do SFD e destacam três aspectos:

  • 1 – o equilíbrio entre descentralização e controle,
  • 2 – a atração de novos membros
  • 3 – a interoperabilidade como principais responsáveis para a descontinuidade do projeto.

Segundo os autores, aspectos como a definição de protocolos demandam uma governança bem-estruturada do processo colaborativo.

“Se, do ponto de vista tecnológico, o blockchain promete facilitar a formação de redes com inúmeras organizações, pelo lado da governança dos múltiplos atores que precisam colaborar no desenvolvimento da rede, novos desafios tendem a surgir”, alertou Lindgren.

(Des)equilíbrio entre descentralização e controle

Um dos principais desafios enfrentados pelo SFD foi o desequilíbrio entre os princípios da descentralização, intrínsecos à tecnologia blockchain, e as estruturas centralizadas do setor financeiro tradicional. As instituições envolvidas no projeto estavam habituadas a operar em um ambiente hierárquico e regulado, o oposto da lógica distribuída que caracteriza as redes em blockchain.

A tensão ficou evidente quando os membros da rede precisaram definir regras coletivas de validação das transações e estabelecer mecanismos de tomada de decisão baseados no consenso, e não em autoridade formal. A proposta de dividir responsabilidades e distribuir o poder decisório entre todos os participantes gerou insegurança e resistência, especialmente entre os atores mais influentes do setor.

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Na avaliação dos especialistas, esse impasse expôs a dificuldade das instituições financeiras na adaptação a um modelo de governança horizontal. O esforço para equilibrar a inovação descentralizada com as exigências normativas e operacionais de um sistema financeiro ainda majoritariamente centralizado tornou-se um dos principais pontos de fricção do projeto.

Atração de novos membros

governança blockchain
Foto: Pixels Hunter/ Shutterstock

Outro obstáculo crítico para o sucesso do SFD foi a dificuldade de ampliar a base de participantes da rede. Embora o projeto tenha sido concebido com a intenção de criar uma infraestrutura aberta e inclusiva, ele falhou em atrair novos membros além do grupo inicial de cinco grandes instituições financeiras. Esse problema comprometeu o chamado efeito de rede, segundo o qual o valor da plataforma cresce conforme aumenta o número de usuários.

O artigo aponta que parte dessa dificuldade está relacionada à ausência de mecanismos claros de incentivo à adesão. O projeto não ofereceu garantias de equidade entre os participantes, tampouco construiu uma narrativa de benefícios compartilhados capaz de sensibilizar instituições menores ou mais conservadoras. Além disso, “a falta de clareza sobre as regras de governança da rede no estágio de operação pode ter sido um importante inibidor da expansão da rede”.

Nesse contexto, a atração de novos membros deixou de ser um objetivo estratégico para se tornar um gargalo estrutural. Sem expansão, o SFD não conseguia atingir as organizações, o que limitava sua viabilidade operacional e dificultava o amadurecimento do modelo. Para os professores da FDC, tratar a entrada de novos atores como elemento central do desenho institucional é indispensável para o sucesso de iniciativas colaborativas em blockchain.

Interoperabilidade

Por fim, a questão da interoperabilidade – a capacidade de diferentes sistemas se comunicarem entre si – também foi apontada como desafio na implementação do SFD. Embora o projeto tivesse ambição de conectar múltiplas instituições financeiras por meio de uma infraestrutura comum, a integração técnica com os sistemas legados de cada banco revelou-se complexa.

Cada participante da rede trazia consigo seus próprios sistemas legados, bases de dados e protocolos tecnológicos. A tentativa de conectá-los à nova estrutura baseada em blockchain exigia altos níveis de cooperação técnica e confiança mútua. Nesse sentido, a abertura necessária para viabilizar essa integração esbarrava em um dilema: quanto mais uma instituição se abre para colaborar, maior o risco de expor ativos estratégicos.

Na prática, a interoperabilidade deixou de ser um problema exclusivamente técnico e se tornou uma questão de governança. Sem uma estrutura capaz de coordenar interesses e garantir proteção mútua entre os membros, a colaboração esvaziou-se.