- A formação acadêmica em gestão pública promove decisões baseadas em evidências, substituindo práticas intuitivas por soluções técnicas para desafios sociais complexos.
- A experiência em Salvador mostrou que a colaboração entre pesquisadores, servidores públicos e gestores acadêmicos permitiu ações inovadoras e embasadas para enfrentar crises e melhorar políticas públicas.
- A integração entre teoria acadêmica e prática na gestão pública é essencial para promover equidade, justiça social e transformar a vida dos cidadãos, envolvendo também profissionais do terceiro setor e empreendedores sociais.
A aproximação entre academia e gestão pública pode trazer um ganho mútuo, a exemplo de um caso real ocorrido em Salvador, que enfrentou uma chuva intensa e a morte de 26 pessoas em 2022. Diante da crise, em vez de se restringir a medidas convencionais, a prefeitura criou outras ações, dentre elas, acionou uma turma de pesquisadores, entre eles alguns servidores públicos, para entender melhor o incidente.
Parte desse público eram mestrandos e o plano teve como objetivo estudar o fenômeno a fundo e trazer um olhar embasado e técnico para a situação extrema. A ação serviu, ainda, para aplicar o conhecimento acadêmico diretamente na resolução de um problema social grave, segundo Ana Paula Matos, vice-prefeita da capital baiana.
De acordo com ela, a iniciativa também ajudou a modificar a forma como a questão social passou a ser trabalhada no município.
Além do cargo citado, Ana lidera a Secretaria de Cultura e Turismo e é gestora do escritório de cooperação internacional de Salvador. Sua experiência na academia, igualmente, é relevante: advogada e funcionária de carreira da Petrobras, ela é pós-graduada em finanças, mestre em administração e doutoranda pela Fundação Dom Cabral (FDC).
A especialista compartilhou sua experiência no podcast que reuniu Gabriel Lara Rodrigues, servidor público de Minas Gerais, professor da Fundação João Pinheiro e doutorando na FDC, e Mariana Campolina, gerente dos programas de mestrado, doutorado e pós-doutorado da FDC.
Melhoria de qualidade de vida dos cidadãos
Os três especialistas foram convidados por Mariana Portela, diretora acadêmica da graduação da FDC, a contar suas experiências em juntar a teoria do mundo acadêmico com a prática da gestão pública.
Entre os pontos em comum destacados por eles está avaliação de que o estudo continuado permite uma gestão pública baseada em evidências, superando decisões intuitivas para focar em resultados que promovam a equidade e a justiça social.
Eles ressaltaram que o estudo é fundamental para não confundir a vontade pessoal com a responsabilidade do cargo. Outro consenso é que o aprendizado acadêmico igualmente evita a repetição de fórmulas do passado, que não servem mais para um mundo em mudança constante. A passagem pelas universidades e centros de pesquisa também aposenta os “achismos”.
“A união entre teoria acadêmica e prática é a única forma real de inovar diante de crises, promover a equidade, lidar com a máquina pública e garantir que o objetivo de melhorar a vida das pessoas com justiça social seja alcançado”, argumentou Ana.
Gabriel ressaltou um ponto importante: quando o setor público tenta traduzir teorias da administração privada é necessário que haja uma adequação cuidadosa. “O esforço da pesquisa acadêmica só faz sentido se trouxer aplicabilidade prática, como facilitar o atendimento ao cidadão comum, deixando claro que o estudo é uma ferramenta de responsabilidade social”, disse.
Formação também pode envolver setor privado
Um dos exemplos de aplicabilidade é o projeto Salvador Capital Afro, que recebeu bilhões de reais em investimento para revitalização da cidade. Segundo Ana, vários estudos acadêmicos ajudaram os executores do programa a remodelar a capital baiana.
Mariana Campolina complementou a avaliação dos dois outros especialistas, ao lembrar que a gestão pública é tratada como a peça-chave para lidar com os maiores desafios sociais, como desigualdades e desastres naturais, problemas que não possuem uma solução simples.
“O gestor público trabalha com um viés gigante de propósito, sabendo que não está apenas exercendo uma atividade, mas sendo parte de uma engrenagem capaz de transformar a vida de milhões de pessoas”, ressalta. Para ela, é impossível alavancar qualquer transformação estrutural profunda no país sem a participação direta da gestão pública.
Mariana destacou ainda que o público-alvo da formação acadêmica em gestão pública não se restringe aos servidores tradicionais, mas envolve também profissionais do terceiro setor e quem atua com a gestão pública, além de empreendedores buscando impacto na sociedade. “Quanto mais diversidade se trouxer, mais impacto a gente consegue gerar”, finalizou.