• A Geração Z está substituindo o individualismo pela "vantagem da aldeia", um modelo hipercomunitário que prioriza a colaboração em vida financeira, profissional e pessoal.
  • Dados do SXSW 2026 mostram que 62% da Geração Z compartilham senhas de streaming e 40% dividem compras em atacado, refletindo práticas colaborativas para reduzir custos.
  • Setores público e privado devem criar produtos digitais, focar no "coordenador da aldeia" e ajustar preços para atender a essa geração que valoriza o compartilhamento e a economia coletiva.
Resumo supervisionado por jornalista.

A Geração Z está reescrevendo as regras da sobrevivência e a principal estratégia é o estabelecimento da chamada “vantagem da aldeia” ou village advantage, como o conceito está sendo conhecido em inglês. Trata-se de uma transição do individualismo para um modelo de vida, trabalho e consumo que se apresenta como hipercomunitário.

A discussão esteve no palco do South by Southwest (SXSW) este ano, conhecido por antecipar tendências e debater temas em alta sobre inovação, tecnologia, comportamento e etc. No caso do village advantage, o que aparece no radar é a ampliação da cultura de compartilhamento para a vida financeira, profissional e pessoal. A aldeia, no caso, é moderna e digitalizada, onde o peso da sobrevivência econômica é distribuído e torna-se uma ferramenta contra a precariedade.

Compartilhamento

Compartilhamento de login em websites, com foco em senhas.
Foto: Eakrin Rasadonyindee / Shutterstock / Modificada com IA

Na prática, o compartilhamento de custos acontece de várias formas. Uma delas é a normalização da permanência prolongada em planos de telefonia familiar e o compartilhamento de senhas de serviços de streaming. Nesse último caso, os dados divulgados no SXSW mostram que 62% da geração divide suas senhas, apesar das recentes restrições e taxações impostas pelas gigantes do entretenimento.

O setor de transporte também passa por essa lógica hipercolaborativa. O uso estratégico de categorias de veículos de maior porte para locomoção de grupos inteiros, e a constante solicitação de caronas a amigos, são comportamentos que avançam naturalmente pela vida adulta como medidas inteligentes e coordenadas de redução de custos de mobilidade.

No comércio varejista, a logística das compras diárias reflete exatamente a mesma mentalidade. A aquisição em atacado (bulk buying) deixou de ser exclusividade de famílias numerosas e tradicionais. Hoje em dia, quatro em cada dez consumidores com idades entre 25 e 34 anos dividem rotineiramente grandes compras em redes de atacado com amigos, colegas de quarto e vizinhos.

Um ponto interessante do movimento é que o ecossistema de startups de tecnologia tem corrido para acompanhar essa demanda com aplicativos de rateio cada vez mais sofisticados.

Entram nessa lista aplicativos como o “Fizz”, que permite que organizadores de eventos e jantares criem carrinhos de compras coletivos. Dessa forma, os convidados de um encontro podem adicionar e pagar instantaneamente apenas pelos itens específicos que vão consumir, eliminando o desconforto das cobranças individuais feitas no dia seguinte.

Village advantage no mundo corporativo

O compartilhamento também acontece no mundo corporativo por meio da transparência de informações. A iniciativa vem sendo apontada como um instrumento de negociação e quebra um tabu histórico de manter o sigilo sobre o valor do salário. Essa transparência desmontaria a estrutura de cláusulas de confidencialidade rigorosas e um pacto de silêncio social que perpetua a assimetria de informação e favorece os empregadores.

Os números comprovam a mudança: quatro entre dez jovens da Geração Z discutem abertamente seus rendimentos com colegas, amigos e até desconhecidos na internet. O objetivo da prática é nivelar o campo de conhecimento para garantir maior alavancagem em revisões anuais de desempenho e na mesa de negociação de novas contratações.

O ecossistema digital, nesse caso, atua como um grande megafone e facilitador dessa revolução trabalhista. Os exemplos incluem as tendências virais no TikTok, onde usuários expõem detalhadamente suas rotinas de “dia de pagamento” e seus holerites. Outro meio de compartilhamento envolve o uso de plataformas de avaliação corporativa como o Glassdoor, que democratizam em tempo real os valores de remuneração de funções específicas.

A mentalidade colaborativa também se estende aos que decidem abrir o próprio negócio. O clássico mito do empreendedor solo está sendo rapidamente substituído por uma visão de negócios embasada no puro coletivismo. Explicando: cerca de 60% dos jovens empreendedores da Geração Z dependem de forma direta de amigos e familiares para executar tarefas operacionais fundamentais de suas empresas.

O mercado imobiliário é um dos maiores exemplos da mudança, uma vez que o custo da habitação é o maior peso no orçamento mensal dessa geração. O resultado é a ascensão da chamada “Geração Boomerang”. Hoje, 65% da Geração Z consideram absolutamente normal retornar à casa dos pais na idade adulta, um salto muito expressivo em relação aos 50% registrados na faixa etária de 18 a 29 anos antes da eclosão da pandemia global.

As causas para esse massivo êxodo de volta ao ninho familiar são estritamente práticas e financeiras: 35% apontam o preço exorbitante e inacessível dos aluguéis, 20% culpam outras pressões financeiras esmagadoras e 12% atribuem o retorno forçado ao fato de estarem desempregados.

Diferente de gerações passadas nos Estados Unidos, esta convivência multigeracional prolongada não é vista como um estigma de fracasso pessoal, mas sim como uma rede de segurança social indispensável, capaz de transformar despesas, que variam de mil a três mil dólares mensais, em uma economia imediata.

Coordenador “da aldeia” é figura-chave no novo modelo

Para aqueles que buscam sair de casa, as estratégias de emancipação tornaram-se coletivas. Com o adiamento cada vez maior de casamentos e parcerias românticas tradicionais, a compra de imóveis entre grupos de amigos, prática conhecida como co-buying, firmou-se como a terceira forma mais comum considerada por esses jovens para conseguir tornar a habitação acessível.

Simultaneamente, observa-se o crescimento de modelos estruturados de coliving. Nesses espaços, quartos individuais são alugados dentro de casas ou apartamentos muito maiores, permitindo escalar os custos de moradia e, ao mesmo tempo, promover um senso de comunidade.

A consolidação do village advantage exige uma resposta dos setores público e privado, mas desprovida de corporativismo. Os especialistas sugerem três considerações para quem quer negociar com esse novo público. A primeira é criar ferramentas digitais e produtos físicos que facilitem nativamente a divisão de custos e o compartilhamento de usos.

Em segundo lugar, as agências de publicidade e campanhas de marketing precisam redirecionar seus canhões de conversão para identificar e focar na figura-chave do “coordenador da aldeia”, membro que centraliza as senhas e gerencia as assinaturas, entre outras ações.

A terceira iniciativa importante é a adaptação de preço e embalagem: o design dos produtos e as estratégias de precificação oferecidas pelo mercado devem ser recalibrados para refletir essa nova realidade dos orçamentos compartilhados e das compras focadas na coletividade.

Em outras palavras: para os jovens que liderarão as próximas décadas, colaborar, compartilhar e dividir são as ferramentas mais afiadas e eficientes de sobrevivência econômica que existem. A aldeia voltou, e ela é mais digital, conectada e financeiramente consciente do que nunca.

Silvia Martins, gerente de programas abertos da Fundação Dom Cabral (FDC), presente no SXSW 2026.
Silvia Martins, gerente de programas abertos da Fundação Dom Cabral (Foto: Arquivo Pessoal)

*Com informações de Silvia Martins, gerente de programas abertos da Fundação Dom Cabral (FDC), presente no SXSW 2026.

Dúvidas mais comuns

A "vantagem da aldeia" é um conceito que representa a transição da Geração Z do individualismo para um modelo de vida hipercomunitário, onde a colaboração e o compartilhamento são centrais na vida financeira, profissional e pessoal, distribuindo o peso da sobrevivência econômica entre os membros da comunidade.

A Geração Z compartilha custos em diversas áreas, como planos de telefonia familiar, senhas de serviços de streaming, caronas e compras em atacado divididas entre amigos e vizinhos. Essa mentalidade colaborativa ajuda a reduzir despesas e torna o consumo mais acessível e eficiente.

Quatro em cada dez jovens da Geração Z discutem abertamente seus salários para nivelar o conhecimento e fortalecer sua posição em negociações e revisões de desempenho. Plataformas digitais como TikTok e Glassdoor facilitam essa transparência, quebrando tabus e promovendo maior equidade no mercado de trabalho.

A Geração Z substitui o mito do empreendedor solo por uma visão coletiva, onde cerca de 60% dos jovens empreendedores dependem diretamente de amigos e familiares para executar tarefas operacionais, valorizando o trabalho em equipe e o apoio mútuo para o sucesso dos negócios.

Cerca de 65% da Geração Z considera normal voltar à casa dos pais na idade adulta devido a fatores financeiros como altos preços de aluguel e desemprego. Essa convivência multigeracional é vista como uma rede de segurança social que permite economizar e compartilhar recursos, reforçando a mentalidade colaborativa.

O "coordenador da aldeia" é a figura-chave que centraliza a gestão das assinaturas, senhas e divisão de custos em grupos colaborativos. Essa pessoa facilita a organização e o funcionamento eficiente das práticas de compartilhamento, sendo essencial para o sucesso do modelo de colaboração.

Empresas devem criar ferramentas digitais e produtos que facilitem a divisão de custos, focar em campanhas de marketing que identifiquem e envolvam o "coordenador da aldeia" e adaptar preços e embalagens para refletir orçamentos compartilhados, alinhando-se à mentalidade colaborativa da Geração Z.