• A geopolítica global evoluiu para um cenário multipolar com sete grandes atores assimétricos, incluindo EUA, União Europeia, China, Índia, Brasil, Rússia e Japão, gerando riscos e oportunidades para o Brasil.
  • A competição atual envolve uma corrida tecnológica focada em resolver a escassez de recursos naturais e mão de obra, impulsionando energias diversificadas e automação, áreas em que o Brasil possui vantagens estratégicas.
  • Empresas brasileiras devem se posicionar estrategicamente em marketing, inovação e gestão de riscos para prosperar neste ambiente dinâmico e complexo de múltiplos polos de poder.
Resumo supervisionado por jornalista.

A situação geopolítica global se alterou fortemente nos últimos anos. Não só entramos em uma guerra fria, depois de 30 anos de relativa paz, como também deixamos um mundo de disputa bipolar (EUA x China) para uma situação de múltiplos polos de poder.

Esta disputa está gerando, ao mesmo tempo, riscos e oportunidade, e o Brasil pode vir a se beneficiar direta e indiretamente, embora em uma situação muito dinâmica, a qual pode mudar com facilidade.

Múltiplos jogadores

A situação que se configurou nos últimos anos reflete um jogo de sete jogadores com poderes assimétricos. Quatro deles são mais fortes: EUA, União Européia, China e Índia. Os outro três são um pouco mais fracos, mas ainda poderosos: Brasil, Rússia e Japão.

As disputas e alianças entre eles irá definir o resultado final, e estamos muito distantes de saber como tudo isso irá se desenrolar completamente. 

Uma metáfora importante é que saímos de um “Jogo de xadrez” (dois jogadores), para um “Jogo de Chaturaji” (jogo indiano de quatro jogadores), ou mesmo um “Jogo de War” (Jogo de seis jogadores baseado no Risk americano). 

Outro paralelo relevante é a semelhança das próximas décadas com o período Neocolonial (1870-1914), quando o Reino Unido ainda era hegemônico, mas novos centros de poder começavam a se fortalecer, como França, Alemanha, EUA, Japão, Itália, e Rússia. Ao mesmo tempo, algumas potências passadas estavam em decadência, tais como Império Austro-Húngaro, Império Otomano, China e Holanda.

Se este paralelo estiver correto, nas próximas décadas veremos três efeito importantes: uma corrida tecnológica, disputa acirrada por recursos naturais e a formação de novas alianças. 

Entretanto, existem diferenças importantes entre o século XIX e XXI. A população, hoje, está encolhendo, exceto na África e Sul da Ásia, e as disputas territoriais devem se estender para além da Terra numa corrida espacial.

As oportunidades

Nesse contexto, aparecem diversas oportunidades, tanto em termos de novas tecnologias, que estão surgindo em decorrência da corrida tecnológica, quanto em função da posição relativamente privilegiada do Brasil, por estar fora dos eixos de conflito principais.

As tecnologias que estão surgindo vêm tentar resolver dois problemas-chave: a escassez de recursos naturais e a escassez de mão de obra.

A primeira implica que saímos de “transição energética” para uma “adição energética”, onde todas as formas de energia serão usadas, incluindo combustíveis fósseis, mas também novas fontes de energia tais como hidrogênio verde, gasolina sintética, energia solar no espaço e fusão nuclear. Para viabilizar esta tendência, uma nova mineração será necessária, incluindo elementos de terras-raras (ETRs). 

A segunda, implica em termos de buscar automação e uma longevidade maior, a um custo mais baixo de manutenção de uma força de trabalho. Aqui os eixos tecnológicos são a indústria 4.0, transformação digital e melhoria humana. Potencialmente, a expectativa de vida ao nascer deva se elevar até 120 anos.

O Brasil tem a vantagem de ficar fora dos eixos de conflito, e poder se proteger em um jogo de múltiplos jogadores. Aqui temos um “porto seguro” de investimentos para o longo prazo. 

Adicionalmente, a população brasileira ainda cresce, e temos grande quantidade de recursos naturais, tanto em minérios quanto em alimentos e energia. 

A preparação

Num mundo dinâmico de riscos e oportunidades, é necessário entender o contexto e estudar como sua organização irá se posicionar estrategicamente, integrando marketing estratégico, gestão comercial, inovação, cultura, gestão de riscos, liderança e antifragilidade.

Este ambiente futuro será extremamente desafiador e nem todas as organizações irão prosperar, mas aquelas que souberem navegar este mar revolto podem se beneficiar fortemente.

* Paulo Vicente dos Santos Alves é professor da Fundação Dom Cabral, doutor em administração pela FGV, diretor acadêmico do PGA (FDC-INSEAD), Colunista do Diário do Comércio e conselheiro consultivo da ABIMDE.

Dúvidas mais comuns

A multipolaridade geopolítica, também chamada de Nova Ordem Mundial, é um período histórico-econômico pós-Guerra Fria caracterizado pela existência de vários polos de poder no cenário mundial, ao contrário da predominância de apenas duas superpotências.

O mundo bipolar, típico da Guerra Fria, era dominado por duas superpotências (EUA e URSS) com ideologias opostas, enquanto o mundo multipolar atual possui múltiplos polos de poder, como EUA, China, União Europeia, Rússia e Índia, com uma dinâmica de cooperação e competição baseada em interesses econômicos e tecnológicos, sem uma divisão ideológica tão clara.

Os principais polos de poder no mundo multipolar atual são os Estados Unidos, União Europeia, China, Índia, Brasil, Rússia e Japão, com poderes assimétricos e influências variadas que definem as disputas e alianças globais.

O Brasil pode se beneficiar por estar fora dos eixos principais de conflito, oferecendo um ambiente relativamente seguro para investimentos de longo prazo. Além disso, sua população crescente e abundância de recursos naturais, como minérios, alimentos e energia, posicionam o país favoravelmente para aproveitar a corrida tecnológica e a demanda por novos recursos.

A corrida tecnológica é um dos efeitos importantes da geopolítica multipolar, impulsionando o desenvolvimento de novas fontes de energia, como hidrogênio verde e fusão nuclear, além de automação e melhorias na longevidade humana. Essas inovações buscam resolver problemas de escassez de recursos naturais e mão de obra, impactando a economia e a estratégia global.

As organizações enfrentam um ambiente dinâmico e desafiador, que exige posicionamento estratégico integrado, envolvendo marketing, gestão comercial, inovação, cultura, gestão de riscos, liderança e antifragilidade. Nem todas as organizações prosperarão, mas aquelas que souberem navegar esse cenário complexo poderão se beneficiar significativamente.

O mundo tornou-se multipolar no início da década de 1990, após o fim da Guerra Fria, quando várias potências econômicas emergiram, equilibrando as relações de poder entre as superpotências em diferentes áreas de influência global.