- A falta de preparo técnico em campanhas eleitorais é um problema estrutural da política brasileira, não apenas falhas individuais de candidatos, consolidando um modelo baseado em improviso e informalidade.
- Candidatos que aprendem gestão pública apenas na prática aumentam exponencialmente riscos e custos, perpetuando erros recorrentes que deveriam ser exceção e transferindo ineficiência das campanhas para os mandatos.
- O despreparo eleitoral gera políticas mal estruturadas, desperdício de recursos e serviços ineficientes, custando à sociedade brasileira, enquanto a ausência de consequências práticas reduz incentivos para mudança comportamental da classe política.
No Brasil, o período eleitoral expõe uma ferida aberta na nossa democracia: a falta de preparo técnico daqueles que se apresentam para gerir o futuro do país. Historicamente, o despreparo na gestão de campanhas eleitorais costuma ser tratado, equivocadamente, apenas como uma falha individual de um ou outro candidato. Só que a raiz desse problema é estrutural, na avaliação de Marcela Trópia, professora convidada da Fundação Dom Cabral (FDC).
A cultura política brasileira acabou por naturalizar um modelo pautado pela informalidade, no qual campanhas inteiras são conduzidas com um altíssimo grau de improviso e pouquíssima formação específica, resume Marcela.
“Sem o devido preparo técnico e sem equipes qualificadas para o trabalho, o erro eleitoral, que deveria ser a exceção, passa a ser uma regra recorrente”, completa.
A crença de que a gestão pública se aprende “fazendo” é um dos maiores equívocos do nosso sistema. Marcela defende o contrário e explica que dominar noções básicas de prestação de contas, compliance eleitoral e comunicação política deveriam compor a base da formação de qualquer pessoa que aspira ocupar um cargo público. “Não é razoável que se dispute uma eleição sem o domínio mínimo destas regras”, argumenta.
De acordo com Marcela, quando os candidatos optam por aprender a lidar com a máquina estatal apenas na prática, eles aumentam exponencialmente os riscos e os custos de todo o processo. Ela argumenta que é possível reverter esse quadro, inclusive com formações específicas na área de gestão pública, onde questões como método, organização e previsibilidade sejam estudadas por candidatos, tornando o meio político mais profissional.
O impacto do amadorismo da fase de campanha, infelizmente, não se encerra quando as urnas são fechadas. Na avaliação da professora convidada da FDC, ele é direto e se estende para o mandato. Segundo ela, existe uma lógica evidenciada na prática: quem não consegue estruturar e organizar minimamente uma campanha, dificilmente terá a capacidade necessária para conduzir um mandato de sucesso.
Reféns do improviso
A consequência é trágica, pois a falta de planejamento, a dificuldade de execução e as constantes falhas de transparência que marcam as campanhas tendem a se repetir no governo, transformando o despreparo eleitoral em ineficiência crônica na gestão pública.
“Se analisarmos esse fenômeno sob a óptica da governança, o pilar ‘G’ do ESG, o abismo torna-se ainda mais evidente. No setor privado, a boa governança e a transparência impactam diretamente o valor e a sustentabilidade do negócio”, explica. “Na política, porém, essa régua é aplicada de forma incrivelmente tímida, com baixa cobrança e pouca consequência prática”, completa.
A especialista destaca que a ausência de efeitos imediatos, pela falta de transparência, reduz o incentivo para que a classe política mude seu comportamento. Como resultado, o legislativo brasileiro convive com um número assustador de mandatários sem nenhum preparo ou experiência em gestão, consolidando-se como um grave problema institucional.
Como as decisões públicas são complexas e exigem rigor técnico, quando isso falta, o Estado produz políticas mal estruturadas, gera desperdício de recursos e entrega serviços de baixa eficiência. O custo, quem paga, é a sociedade como um todo.
Marcela lembra que campanhas e governos desconectados da população tendem ao fracasso.
O caminho de reversão, além da educação em gestão pública, envolve a adoção da escuta ativa com disciplina e método
o que significa criar canais estruturados, organizar informações e transformá-las em decisões reais, em vez de manter propósitos vazios apenas no discurso.
Ela explica que as pesquisas sobre o tema confirmam que os melhores candidatos formam melhores políticos, que constroem melhores instituições. O problema do Brasil reside nisso: falta tratar a formação política como uma prioridade institucional de fato. A solução inclui a criação de uma cultura que valorize a gestão qualificada e amplie o repertório e a representatividade dos quadros, garantindo maior eficiência nas políticas públicas. “Sem esse compromisso estrutural, continuaremos reféns do improviso”, finaliza a professora.