A escassez de mão de obra no Brasil é um problema estrutural que deve permanecer nos próximos anos, na avaliação do professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC), Bruno Carazza. Segundo ele, a mudança no perfil dos trabalhadores, marcada também pelo avanço do empreendedorismo e do trabalho por conta própria, exige novas estratégias de gestão de pessoas por parte das organizações. Palestrante do 11º Fórum de Médias Empresas da FDC, o especialista mostrou os números que explicam a falta de profissionais.

O próprio crescimento da economia é um dos motores, uma vez que a quantidade de trabalhadores do setor privado com carteira assinada saltou de 32 milhões, em 2020, para 38,9 milhões em 2024, a maior variação observada por Carazza.

O segundo maior aumento foi o número de pessoas que trabalham por conta própria, que saltou de 21,7 milhões para 26,1 milhões, no mesmo período. A informalidade também mostrou um incremento importante, com 4 milhões de pessoas a mais empregadas no setor privado, mas sem carteira assinada, chegando a 13,8 milhões em 2024.

Tabela que mostra as mudanças projetadas nos tipos de emprego e na mão de obra no Brasil de 2020 a 2025, com aumentos ou reduções nos setores privado, público, autônomo e de trabalho doméstico, medidos em milhões.
Informações fornecidas por Bruno Carazza

Quatro fatores explicam a escassez de trabalhadores

  • Demanda formal: nos últimos anos pós-pandemia, o crescimento contínuo da economia brasileira elevou significativamente a demanda por trabalhadores, resultando na criação de 7 milhões de novos empregos formais com carteira assinada.
  • Forte desejo de empreendedorismo: houve um aumento de 10% no número de pessoas que decidiram abrir o próprio negócio nos últimos cinco anos, um acréscimo de meio milhão de trabalhadores. Esses novos empreendimentos passaram a empregar pelo menos mais um colaborador nessa movimentação, retirando essa força de trabalho do mercado de contratação tradicional.
  • Avanço do trabalho por conta própria: cerca de 4,5 milhões de pessoas migraram para o trabalho autônomo nos últimos cinco anos, seja no formato de microempreendedor (MEI) ou de pessoa jurídica (PJ). Essa mudança foi impulsionada globalmente pelo avanço de plataformas digitais, como Uber e iFood e, localmente, pela reforma trabalhista de 2017, que estimulou a terceirização. Muitas pessoas agora preferem atuar como MEIs ou PJs, prestando serviços flexíveis para múltiplas empresas e não se vinculando a uma só.
  • Expansão de benefícios sociais e opção pelo trabalho informal: segundo Carazza, programas como o Bolsa Família alteraram a relação de parte da população de baixa renda com o mercado de trabalho. Nesse cenário, trabalhadores podem combinar benefícios com atividades informais e esporádicas, como faxinas e diárias na construção civil, em busca de maior flexibilidade.

Inadimplência alta é ameaça para médias empresas

Embora a empregabilidade tenha aumentado, Carazza faz algumas ressalvas, entre elas o cenário de inadimplência de pessoas físicas e jurídicas.

O especialista lembra que as taxas de juros elevadas, atualmente em 14%, uma das maiores do mundo, têm um efeito colateral direto, levando ao endividamento das pessoas físicas. De acordo com ele, 51% dos CPFs brasileiros estão negativados no Serasa, o que equivale a praticamente 84 milhões de pessoas com restrição de crédito.

Esse contingente cresceu de forma constante, saltando de 71,5 milhões, em 2023, para 72,5 milhões em 2024, chegando a 78 milhões em 2025, e escalando para o patamar atual de 84 milhões.

Segundo Carazza, o peso das dívidas leva muitos consumidores a fazer uma espécie de “rodízio de pagamentos”: deixam de quitar o cartão em um mês para pagar a conta de luz e, no mês seguinte, priorizam outra dívida, o que indiretamente drena o faturamento das companhias.

Um homem de terno está sentado em uma cadeira branca, falando ao microfone durante uma conferência. Ele usa um crachá e gesticula com a mão esquerda enquanto discute questões relacionadas à mão de obra. Ao fundo, há uma tela grande exibindo trechos de texto e imagens.
Bruno Carazza, professor associado da FDC (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

O problema também atinge as organizações: o volume de recuperação judicial e extrajudicial no Brasil subiu mais de 50% desde 2023, saltando de cerca de 4 mil processos para um patamar de 6,5 mil, em 2026.

O quadro desenhado por Carazza levanta um alerta para as médias empresas, e o primeiro ponto de atenção é a necessidade de reformular a gestão de pessoas.

“Diante da escassez estrutural de mão de obra, as decisões de alta performance exigem que as médias empresas repensem completamente suas estratégias de recursos humanos. É fundamental adotar uma gestão de pessoas ativa, criativa e alinhada aos desejos e sonhos dos trabalhadores para conseguir atrair e reter talentos”.

Bruno Carazza, professor associado da FDC

Carazza igualmente alerta para a obrigatoriedade de monitorar as carteiras de clientes e estruturar mecanismos proativos de cobrança e renegociação, de forma a proteger o faturamento e evitar perdas.

Com o aumento das recuperações judiciais, a crise financeira de um grande cliente ou de um fornecedor essencial pode arrastar a própria média empresa. “É indispensável mapear esses riscos na cadeia de suprimentos e adotar uma postura cautelosa para evitar que crises de terceiros afetem a operação própria”, aconselhou.

No comércio exterior, entretanto, Carazza identifica um movimento de compensação. Apesar do aumento de tarifas ter reduzido em US$ 5 bilhões as vendas brasileiras aos Estados Unidos, as exportações para a China cresceram US$ 16 bilhões, enquanto as destinadas a outros mercados avançaram quase US$ 20 bilhões.

Desaceleração chinesa pode aumentar pressão sobre empresas brasileiras

Contêineres estão empilhados em um movimentado porto industrial com guindastes, silos e uma grande torre de linha de alta tensão, onde uma mão de obra qualificada garante que as operações ocorram sem contratempos. Um navio de carga está atracado ao fundo, sob um céu parcialmente nublado.
Imagem gerada digitalmente

Esse quadro, porém, pode sofrer mudanças. As tensões externas, como os conflitos no Oriente Médio, geram alta volatilidade no preço do petróleo, refletindo-se no Brasil em aumento de combustíveis, passagens aéreas, frete marítimo e fertilizantes. As empresas brasileiras, especialmente as ligadas ao agronegócio ou altamente dependentes de frete, devem exercer um controle rígido de custos para mitigar esses impactos externos.

A desaceleração interna da China é um caso em especial. O país registrou um crescimento de 5% em 2025, mas a composição desse crescimento revela desafios que mudam sua dinâmica global. Dentre eles, estão a crise imobiliária (os investimentos em imóveis na China caíram 17%, devido ao estouro da bolha imobiliária) e a saturação de infraestrutura, com queda de investimentos de 2%, já que o país atingiu o patamar de nação desenvolvida, possuindo redes completas de transporte e saneamento, que agora demandam apenas manutenção ou expansões marginais.

Outras questões que também interferem na economia chinesa são o consumo interno fraco e a maior dependência de exportações. Como o crescimento não vem mais de investimentos imobiliários, de infraestrutura ou do consumo interno, a China depende cada vez mais de suas exportações para sustentar seu ritmo de crescimento no cenário internacional.

Esse último ponto é um paradoxo para as empresas brasileiras, na avaliação do especialista. Há o desafio da concorrência chinesa, que pode afetar muitas companhias, mas em alguns casos, a maior penetração dos produtos do país asiático pode significar redução de custos, caso de insumos para o mercado de construção civil. As empresas de alto desempenho, de acordo com ele, saberão tirar melhor proveito dessa situação.