- Fabrício Bloisi afirma que empreendedores podem alcançar sucesso maior nos próximos cinco anos do que nos últimos 15, pois a velocidade de transformação digital e tecnológica intensificou-se exponencialmente.
- A combinação de cultura forte com execução disciplinada, aliada à capacidade de reinvenção constante, transformou o iFood em um dos três maiores players globais de delivery e modelo replicável em portfólios internacionais.
- A Prosus integra inteligência artificial em 22 empresas com 5 mil agentes executando 4 milhões de tarefas mensais, consolidando ecossistemas de tecnologia fora do Vale do Silício que competem globalmente com disciplina e inovação.
Da incubadora de Campinas (SP) ao comando de uma das maiores empresas globais de tecnologia, a trajetória de Fabrício Bloisi acompanha e, em muitos momentos, antecipa, as transformações do ambiente digital nas últimas décadas. Fundador da Movile, investidor e CEO do iFood e hoje CEO da Prosus, o executivo construiu sua carreira em ciclos sucessivos de crescimento, reinvenção e expansão internacional, mantendo como eixo a capacidade de adaptar modelos de negócio a contextos em rápida transformação.
Na leitura de Bloisi, esse movimento se intensificou a ponto de redefinir o próprio horizonte estratégico das empresas. “A velocidade de mudança é gigante. Parece um momento arriscado, e é arriscado, mas é um momento de enormes oportunidades. Os empreendedores que conseguirem resolver como vai ser o mundo daqui a cinco anos podem ter um nível de sucesso maior do que nos últimos 15 anos, porque tudo está mudando ainda mais rápido”, disse ele, exclusivamente, ao Seja Relevante.
Esta entrevista revisita a trajetória e detalha os aprendizados de Fabrício Bloisi na construção de plataformas como o iFood. Ele também revela como tecnologia, dados e inteligência artificial estão moldando a próxima geração de negócios globais. “Estamos apenas começando”, afirma. Para ele, pensar grande e ter otimismo e disciplina são diferenciais para que empreendedores possam se destacar globalmente. Afinal, “nada de complexo de vira-lata: cada região do mundo tem suas qualidades e defeitos”, destaca.
Confira a entrevista na íntegra.
O início da sua trajetória empreendedora está ligado à Compera e ao ecossistema de inovação de Campinas, no final dos anos 1990. O que havia naquele ambiente que ajudou a formar sua mentalidade empreendedora e sua visão de tecnologia?
Eu saí de Salvador aos 18 anos e sempre tive o sonho de criar uma grande empresa global de tecnologia. Entrei na Unicamp para estudar ciência da computação e desde o início o meu objetivo era construir algo grande.
A Unicamp foi fundamental, porque me estimulava a ser ambidestro: ser bom em exatas, mas também em humanas, ter a cabeça aberta para estudar coisas diferentes. Comecei na empresa júnior de computação, a Conpec, e foi ali que tive o primeiro contato com o mundo dos negócios. Depois fomos para uma salinha na incubadora de Campinas, a Ciatec.
A empresa começou com duas pessoas. A gente tinha um sonho gigante, mas não havia dinheiro. Além disso, nem sabíamos exatamente o que fazer e, nos primeiros dez anos, quase quebramos umas cinco vezes.
O ambiente da Unicamp e da incubadora permitiu que a gente errasse, aprendesse e continuasse tentando. E foi exatamente isso que moldou minha mentalidade empreendedora e me ensinou que é possível criar algo grande mesmo começando com nada.
É preciso deixar de lado o complexo de vira-lata. Cada região do mundo tem suas qualidades e defeitos
A Movile nasceu da integração entre a Compera e a NTime, em um movimento de M&A que acabou aproximando a empresa da Naspers. Que aprendizados estratégicos essa fase trouxe sobre construir valor, integrar negócios e preparar uma empresa para escalar globalmente?

Essa fase me ensinou que construir uma grande empresa não é só ter uma boa ideia – você precisa se reinventar constantemente. Fundimos a Compera com a NTime, depois criamos a Movile e investimos no iFood quando era uma empresa de dez pessoas. E cada uma dessas transições exigiu algo diferente.
O grande aprendizado é que cada fase de crescimento demanda características diferentes. No início, precisamos de empreendedores criativos, que têm ideias novas e fazem tudo diferente. Na fase de crescimento, é necessário marketing, dinheiro, consolidação. Na maturidade, disciplina e lucratividade são diferenciais. E, depois, ou você declina ou se reinventa.
Estudei muito isso no meu mestrado – como startups nos Estados Unidos conseguem crescer e passar por tais fases. O segredo não é um só, mas sim saber o que cada etapa exige e estar disposto a desaprender o que te trouxe até aquele ponto, para aprender o que vai te levar ao próximo nível.
Ser empreendedor é crescer, mas também desapegar e focar no que você precisa aprender de novo para manter a empresa crescendo.
O crescimento do iFood se tornou um dos casos mais emblemáticos de plataformas digitais na América Latina. Que decisões estratégicas foram determinantes para transformar uma startup de delivery em um ecossistema capaz de gerar dados, serviços financeiros e novas oportunidades de negócio?

São duas coisas: cultura e modelo de gestão. A cultura faz a empresa funcionar e dar certo. Pessoas acreditando no mesmo propósito, nos mesmos valores, sabendo para onde a empresa está indo – e trabalhando juntas para isso. Se todos trabalham na mesma direção, você cria uma empresa de sucesso.
O modelo de gestão traz a disciplina com planejamento estratégico, responsabilidades claras para cada pessoa, rotina de acompanhamento e um foco em resultados na empresa inteira.

É essa combinação – cultura forte com execução disciplinada – que transformou o iFood no que é hoje. E é exatamente isso o que eu trouxe para a Prosus e para todas as empresas do nosso ecossistema.
Ao assumir a liderança da Prosus, você passou de fundador e operador de startups para CEO de uma das maiores holdings de tecnologia do mundo. O que muda na forma de pensar estratégia quando o desafio deixa de ser criar uma empresa e passa a ser orquestrar um portfólio global de negócios?
O que muda é a escala, mas o princípio é exatamente o mesmo. Seja numa startup com duas pessoas ou numa empresa com presença internacional, a gente tem que sonhar grande, executar com velocidade e com gente muito boa ao seu lado.
Quando você está começando, pensa muito no produto, no mercado, em sobreviver. Em uma empresa que vale bilhões, você passa a pensar em como colocar múltiplos negócios, em diferentes países, culturas e estágios, olhando para a mesma direção. E, embora isso seja muito mais complexo, os mesmos princípios se aplicam.
A Prosus não é uma holding de investimentos, é uma empresa de tecnologia, um operador de um ecossistema de tecnologia global. O nosso objetivo, hoje, é ajudar as empresas do nosso portfólio a crescerem mais rapidamente, usando inovação, inteligência artificial (IA), talento e troca de conhecimento entre elas.
Para mim, a mudança foi sair de “construir uma empresa” para construir um ecossistema onde várias empresas conseguem crescer juntas. E quanto maior a empresa, maior o risco de criar silos, ficar devagar e perder o espírito empreendedor. Por isso, mantemos a mentalidade de startup dentro de todas as empresas, mesmo grandes, com autonomia, velocidade, testar rápido, errar rápido.
Temos 5 mil agentes de IA trabalhando diariamente em 22 empresas da Prosus
Você costuma dizer que a próxima geração de grandes empresas de tecnologia surgirá “em outro lugar”, fora do eixo tradicional do Vale do Silício. Como essa tese se conecta com a sua própria trajetória – de um empreendedor brasileiro a líder mundial de tecnologia?

Eu acredito nisso completamente, porque estou vivendo justamente esse momento. Estamos operando em uma nova ordem mundial hoje, dado o clima geopolítico atual, e isso cria oportunidades nas regiões onde a Prosus atua, todas fora do Vale do Silício. Hoje, a Prosus é uma empresa com negócios na Europa, Índia, América Latina e África do Sul.
Em um mundo que muda tanto, a capacidade do brasileiro de se ajustar faz muita diferença. Nossa habilidade de criar, de testar coisas novas, de comunicar, de sonhar, de contar uma história – isso é um diferencial gigante.
Meu convite é: larguem o complexo de vira-lata. Cada região do mundo tem suas qualidades e defeitos. Os americanos têm muitos, os europeus têm outros, os asiáticos igualmente. O ponto é focar nas nossas qualidades. Já estamos criando grandes empresas – iFood é um dos três maiores players de delivery do mundo, por exemplo. Temos alguns outros cases brasileiros, mas eu acho que a gente pode ter mais de 30. E qual é o próximo? É justamente isso que a gente precisa criar.
A mentalidade é: pensar grande, otimismo, disciplina de resultados, capacidade de se reinventar constantemente e acreditar que você pode competir com qualquer um no mundo. Porque pode. Estamos apenas começando
Ainda no início da carreira, você mencionava a ambição de construir empresas capazes de impactar 1 bilhão de pessoas. Hoje, com o alcance da Prosus, essa meta já foi superada. Qual passa a ser a próxima fronteira de impacto?
O nosso objetivo é transformar a Prosus em uma das principais empresas de tecnologia do mundo. Estamos construindo os principais ecossistemas de lifestyle na América Latina, Europa e Índia, que irão impulsionar a economia do dia a dia. A cada dia, estamos mais perto de tornar isso uma realidade.
O foco agora é 100% na execução, eficiência, crescimento e lucratividade das empresas que já temos. Temos um portfólio incrível e estamos desenvolvendo e integrando tudo isso de forma ativa com IA no centro.
A inteligência artificial é, hoje, a chave para multiplicar o valor da Prosus. E aqui está o motivo: atualmente, temos 1 bilhão de clientes ao redor do mundo, 5 milhões de parceiros e 500 milhões de interações diárias em nossos ecossistemas. Esse conjunto único de dados comportamentais treina nossos modelos e nos ajuda a criar agentes e assistentes pessoais que conectam nossos negócios aos consumidores e parceiros. Por meio de nossos produtos baseados em agentes, estamos unindo nossas marcas globais em delivery, finanças, transições de vida e experiências em um único ecossistema impulsionado por IA. Ninguém está fazendo isso como a Prosus.
Temos alguns exemplos concretos do impacto que estamos tendo: nossos Large Commerce Models, treinados em bilhões de interações reais – pedidos, buscas, cliques – aumentaram as conversões na home page do iFood, reduziram o custo de conversão de anúncios e aumentaram a convergência de notificações. Estamos expandindo isso para todo o portfólio, começando com Despegar (Decolar, no Brasil) e JET.
Temos 5 mil agentes de IA trabalhando todos os dias em 22 empresas da Prosus. Eles completam aproximadamente 4 milhões de tarefas por mês, com um impacto equivalente a mais de 1.000 funcionários em tempo integral. Criamos 40 mil agentes internamente – essa transformação de cultura e habilidades é fundamental para incorporar IA em tudo que fazemos.
E nossos agentes não estão apenas melhorando a vida dos nossos colaboradores. Temos mais de 20 assistentes de lifestyle na Índia, América Latina e Europa — são agentes que realmente fazem a diferença, ajudando nossos clientes.
Então a próxima fronteira é essa: crescer com IA e inovação, com disciplina e eficiência, e provar que dá para construir uma gigante de tecnologia na Europa, América Latina e Índia.

Sua história mostra que é possível sair de um ecossistema regional e chegar à liderança de uma organização global. Que tipo de visão, disciplina ou mentalidade um empreendedor brasileiro precisa desenvolver, hoje, para competir e liderar no cenário internacional?
Primeiro: pense grande e acredite. Jogue fora o complexo de vira-lata e pense “dá para fazer, e eu vou fazer”. Assuma riscos. Você não vai criar uma empresa grande ou história que muda o país se você não se arriscar.
Segundo: pense em inovar para ser um líder global. O mundo está mudando tanto – todas as grandes empresas que você está vendo hoje, talvez mudem nos próximos dois, três, quatro anos. A inteligência artificial está mudando como tudo funciona, como você interage com um computador, como as empresas operam. Mas, não é só a IA – energia vai mudar, espaço, educação, transporte, sustentabilidade… Enfim, a ordem mundial está mudando.
A velocidade de mudança é gigante. Parece um momento arriscado (e é arriscado), mas também é uma ocasião que traz enormes oportunidades. Os empreendedores que conseguirem resolver como vai ser o mundo daqui a cinco anos, podem ter um nível de sucesso maior do que nos últimos 15 anos, porque tudo está mudando ainda mais rápido.
As pessoas que vão criar as melhores tecnologias dos próximos anos estão começando agora, porque isso não existe hoje. Mas vai existir muito em breve, e pode ser você!
Então, a mentalidade é essa: pensar grande, otimismo, disciplina de resultados, capacidade de se reinventar constantemente e acreditar que você pode competir com qualquer um no mundo. Porque pode. Estamos apenas começando.