- O Relatório de Riscos Globais 2026 do WEF prevê extrema volatilidade, fragmentação social e falência de mecanismos cooperativos nos próximos anos, impactando o mundo corporativo e do trabalho.
- Pesquisa com 804 líderes globais revela que 50% esperam um cenário turbulento nos próximos dois anos, com crises geopolíticas, tecnológicas e sociais dominando o curto prazo e ameaças ambientais e de IA no longo prazo.
- Empresas e governos precisarão requalificar a força de trabalho, combater a desinformação e adotar estratégias colaborativas para mitigar riscos de hipercompetição geopolítica, automação e instabilidade financeira.
O mundo entrou oficialmente na segunda metade de uma década turbulenta, segundo o Relatório de Riscos Globais 2026, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF). A edição de 2026 conta novamente com o apoio da Fundação Dom Cabral, em especial do Núcleo de Inovação e Inteligência Artificial, e destaca as percepções de mais de 900 especialistas de todo o mundo.
De acordo com o documento, o cenário global desenhado para os próximos anos é de extrema volatilidade e será marcado pela fragmentação das sociedades, pela falência dos mecanismos cooperativos e pela militarização do comércio, das finanças e da tecnologia. Essa avaliação está baseada na pesquisa com 804 líderes empresariais globais em 92 países, incluindo 105 CEOs, 316 diretores de segurança da informação e 123 outros executivos de alto escalão, nas áreas de tecnologia e de risco.
Segundo o WEF, o pessimismo entre esses líderes globais é palpável e crescente: 50% dos entrevistados antecipam um universo global “turbulento” ou “tempestuoso”, inclusive com risco de catástrofes globais para os próximos dois anos. Quando a pesquisa considera um tempo maior, até 2036, esse percentual de pessimismo sobe para 57%.
Em tempo: apenas 1% dos líderes prevê um futuro “calmo” em ambos os horizontes temporais.
No curto prazo, até 2028, o relatório indica um mundo dominado por crises imediatas de natureza geopolítica, tecnológica e social. Na próxima década, aparecem com maior destaque as ameaças existenciais relacionadas ao meio ambiente e ao avanço descontrolado de inteligências artificiais, dois assuntos que assumem o centro das preocupações.
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A percepção de risco é dividida em três horizontes temporais, revelando uma mudança nas prioridades imediatas em relação às preocupações sistêmicas de longo prazo.
| Ranking | Curto Prazo (2 anos) | Longo Prazo (10 anos) |
| 1º | Confronto geoeconômico | Eventos climáticos extremos |
| 2º | Desinformação e má informação | Perda de biodiversidade e colapso do ecossistema |
| 3º | Polarização societal | Mudanças críticas nos sistemas terrestres |
| 4º | Eventos climáticos extremos | Desinformação e má informação |
| 5º | Conflito armado entre Estados | Resultados adversos das tecnologias de IA |
Ainda de acordo com o documento, a resiliência demonstrada pela economia global nos últimos anos está ameaçada pela convergência de choques estruturais, que combinam hipercompetição geopolítica, desinformação, inação climática em curto prazo e a automação não governada.
Esses fatores, juntos, formam uma combinação perigosa que promete remodelar agressivamente como vivemos e trabalhamos. Embora não existam saídas simples para crises de dimensões tão colossais, o relatório salienta que abordagens colaborativas continuam sendo a ferramenta mais realista.
Outra sinalização importante do documento é que as organizações e estados precisarão coordenar uma requalificação urgente da força de trabalho, proteger a sociedade do caos da desinformação e repensar estratégias empresariais não apenas visando lucro, mas como salvaguardas da própria infraestrutura civilizatória.
Mundo do trabalho

Para empresas e trabalhadores, os próximos anos exigirão adaptações drásticas frente a uma reestruturação econômica impulsionada pela geopolítica fragmentada, pela instabilidade financeira e pela hiperautomação.
O universo corporativo enfrentará o que o relatório chama de um “acerto de contas econômico”. Veja a seguir os principais pontos.
Tensões geoeconômicas: as empresas estão sendo forçadas a repensar a globalização, com o risco crescente da interrupção de cadeias de suprimentos, à medida que governos impõem controles de exportação, restrições a investimentos e proibições em setores estratégicos como IA, biotecnologia e minerais críticos. O comércio global pode sofrer contrações substanciais, caso haja a imposição de tarifas generalizadas entre blocos rivais.
Endividamento: além das pressões geopolíticas, o mercado lida com a bomba-relógio das dívidas. Cerca de 45% da dívida soberana de países da OCDE precisarão ser refinanciados entre 2025 e 2027. No setor privado, um terço da dívida corporativa global também demandará refinanciamento no mesmo período, com taxas de juros mantendo-se relativamente altas em níveis históricos recentes.
Estouro de bolhas: as corporações também enfrentam o espectro do estouro de bolhas de ativos, especialmente atreladas ao frenesi da IA. O investimento global em capital (capex) para IA deverá ultrapassar US$ 525 bilhões até 2032, apenas nos Estados Unidos. Contudo, se os retornos financeiros não se materializarem, o processo pode resultar na destruição maciça de riqueza e impacto na confiança global, de forma semelhante ou pior que a bolha das pontocom nos anos 2000.
Dilema corporativo: as empresas enfrentam também um dilema moral e reputacional, ao precisarem navegar em sociedades profundamente polarizadas, onde cada decisão corporativa sobre inclusão social, metas ambientais (ESG) ou escolhas operacionais em países autocráticos pode gerar boicotes, retaliações de governos e crise de imagem.
IA é um caso à parte

A automação impulsionada pela IA provocará perturbações no mercado de trabalho em uma escala histórica na próxima década, aponta o relatório do WEF. Ao contrário das revoluções industriais anteriores, a transição atual apresenta o risco de criar um cenário no qual ganhos exponenciais de produtividade corporativa coexistam com altas taxas de desemprego estrutural.
O impacto não afetará apenas as funções manuais ou rotineiras. Estima-se que a IA possa eliminar até 50% dos empregos administrativos de nível básico de colarinho branco nos Estados Unidos nos próximos cinco anos.
Isso ameaça corroer rapidamente a classe média, criando o que o relatório chama de um “cinturão de ferrugem de colarinho branco” (white-collar rust belt) concentrado em cidades que hoje são centros de conhecimento e serviços.
Na prática, jovens altamente educados podem ser empurrados para o trabalho intermitente para sobreviver, enquanto suas habilidades correm o risco de se tornarem obsoletas frente ao rápido avanço algorítmico.
Essas dinâmicas acentuam o risco das chamadas “economias em forma de K”, um cenário no qual uma elite corporativa e de trabalhadores altamente digitalizados acumula a maior parte da riqueza, lucros e salários, enquanto a base da pirâmide e a classe média convencional enfrentam estagnação salarial e falta de mobilidade social.
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Soluções possíveis

Embora o Relatório de Riscos Globais 2026 reconheça que não existe uma solução única e simples para o complexo cenário atual, o documento dedica várias de suas seções para propor caminhos de redução de impactos e preparação para os próximos dez anos.
Os especialistas do WEF apontam que as soluções exigirão uma combinação de novos arranjos diplomáticos, inovações financeiras, adaptação tecnológica profunda e um foco renovado no capital humano. Veja as propostas.
Novas estratégias geopolíticas: como os mecanismos multilaterais amplos, caso da ONU e da OMC, estão enfraquecidos ou paralisados, o relatório sugere pragmatismo internacional. Entre os exemplos estão as coalizões regionais para avançar em acordos específicos de livre comércio, investimento ou segurança.
Letramento digital: a solução para o choque de percepções, polarização extrema e perigos da IA passa por reconquistar a confiança no ecossistema da informação. É o caso da necessidade de campanhas agressivas de letramento digital e a inserção nos currículos escolares de habilidades de pensamento crítico, ensinando as populações a entenderem como algoritmos e deepfakes moldam suas experiências.
Padrões tecnológicos de autenticidade: criação e adoção de legislações apoiadas por soluções técnicas, como marcas d’água digitais obrigatórias, registro de histórico de conteúdo e gestão de direitos via blockchain, para que a sociedade saiba de onde veio cada vídeo, áudio ou texto.
Proteção do trabalho: para lidar com a automação brutal que a IA e outras tecnologias causarão na próxima década, organizações e estados precisam ser muito rápidos e requalificar a mão de obra em larga escala. Isso inclui incentivar novas funções e focar na população de alto risco, como jovens, trabalhadores administrativos e pessoas mais velhas.
Engenharia financeira inovadora: contra a “bomba-relógio” das dívidas globais, soluções ortodoxas e não-ortodoxas serão necessárias, além de iniciativas como as conversões financeiras, onde dívidas soberanas pesadas são trocadas estruturalmente por investimentos obrigatórios em setores críticos locais de países em desenvolvimento.
Design adaptativo: com os climas extremos prejudicando as matrizes de energia, portos e trânsito de modo inédito, as obras públicas precisam mudar. Novas construções precisam focar em materiais resilientes contra incêndios e inundações drásticas. Como pontes, redes elétricas e represas agora são digitais e vitais para o mundo físico, as instalações de hardware/software precisarão receber graus de proteção iguais a segredos de estado.
Agilidade criptográfica: diante do salto dos computadores quânticos que poderão decifrar e expor arquivos bancários, senhas e infraestruturas secretas inteiras, as empresas não devem esperar, iniciando imediatamente avaliações de vulnerabilidade de suas defesas e implementando redes híbridas já resistentes a quebras quânticas de criptografia.