As organizações nunca tiveram tanto acesso a conhecimento quanto hoje. Inteligência artificial, plataformas de aprendizagem e conteúdos especializados tornaram a informação abundante e disponível em escala. Mesmo assim, enquanto escola de negócios inserida nas maiores empresas do país, seguimos vendo líderes com dificuldade para converter diagnósticos precisos em resultados concretos. Isso acontece porque o excesso de conhecimento não acabou com a escassez de ação.

Durante décadas, empresas competiram pela capacidade de reunir dados, análises e conhecimento especializado, mas essa lógica mudou com a popularização da IA generativa. Agora, tarefas como sintetizar informações, comparar práticas de mercado ou construir cenários preliminares já são acessíveis a organizações de qualquer porte.

Isso não significa, claro, que o conhecimento perdeu relevância. Ele “só” mudou seu valor relativo. O acesso à informação deixou de ser privilégio e passou a ser commodity. Nesse novo cenário, a pergunta estratégica não é mais quem sabe mais, e sim quem consegue transformar conhecimento em decisão, e decisão em resultado.

O desafio ganha peso porque as organizações vivem transformações simultâneas. Mudanças tecnológicas, novas dinâmicas competitivas e expectativas geracionais distintas remodelam mercados e exigem respostas rápidas. Aí, ter clareza sobre o que precisa ser feito já não é suficiente, porque a execução é hoje o principal campo de disputa.

O gargalo continua sendo humano

A crença de que a tecnologia resolveria sozinha os problemas de desempenho organizacional esbarra em uma realidade que todo executivo conhece: mudança estrutural depende de comportamento humano.

Empresas produzem excelentes diagnósticos estratégicos, mas, ainda assim, encontram dificuldade para alinhar lideranças, sustentar novas práticas e consolidar avanços ao longo do tempo. O problema raramente está na falta de informação, mas na capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma direção comum.

É aqui que entram competências que dificilmente serão automatizadas: julgamento, capacidade de adaptação, leitura de contexto e tomada de decisão sob pressão.

Em cenários de incerteza, nenhum algoritmo substitui a responsabilidade da liderança de interpretar sinais, definir prioridades e gerar engajamento.

Como costumamos dizer na FDC: o mundo não está pronto, está em construção. E é a liderança (não a tecnologia) quem decide a direção dessa construção. O professor Mozart Pereira, presidente do Conselho Curador da FDC, compartilha um modelo de desenvolvimento organizacional que eu acredito muito. Segundo ele, o desenvolvimento de uma organização ocorre quando três condições coexistem: patrocínio da liderança, massa crítica de pessoas adotando novos comportamentos e consistência ao longo do tempo (Desenvolvimento Organizacional = Liderança × Massa Crítica × Tempo). 

Consumir conteúdo e não saber o que fazer com ele é perder tempo

O modelo baseado predominantemente na transmissão de conteúdo já mostra seus limites. Cursos, materiais e certificações continuam importantes, mas não garantem, sozinhos, transformação organizacional. O foco é/ precisa ser a ativação do conhecimento: a capacidade de converter aprendizado em novas formas de pensar, decidir e agir.

É o mesmo movimento que ouvimos de líderes de aprendizagem corporativa em conferências internacionais como a UNICON: o valor migrou do conteúdo para a ativação, do fornecedor para o parceiro, da técnica para a mudança de mentalidade. Como resumiu Mikala Larsen, Head  de Corporate Learning na Nestlé na última conferência, tudo o que é puramente factual já não desperta interesse – a IA resolveu essa parte. O que interessa agora é como ativar esses fatos.

E o mercado brasileiro está percebendo esse movimento. Vemos empresas buscando educação executiva frente a outras opções, como consultoria, porque querem ir além de resolver um problema pontual, mas sim desenvolver a capacidade de a própria organização resolver seus próximos problemas, de forma contínua.

Assim, vejo que o verdadeiro diferencial competitivo da próxima década está menos na coleta e análise de informações e mais na capacidade de ativá-las em ação. Em um mundo onde a informação está disponível para todos, a vantagem pertence a quem transforma entendimento em movimento.

André Proença em uma biblioteca, em pé entre estantes de livros, sorrindo e apontando para uma das prateleiras, associado ao conhecimento.
André Proença (Foto: Carol Reis / Divulgação)

* Por André Proença, VP de Educação Executiva da Fundação Dom Cabral (FDC)