“Envelhecer, para as mulheres, não é uma coisa fácil”, diz a cantora Madonna, de 66 anos, que se manifesta com um discurso poderoso sobre como enfrentou – e continua enfrentando – inúmeras barreiras para chegar e se manter onde está. O discurso da artista não é assunto corrente no ambiente corporativo, mas ela resume bem os preconceitos que as mulheres sofrem no mundo do trabalho devido à idade. A verdade é que as empresas, ao menos no Brasil, não têm investido na gestão de gênero e idade, deixando as mulheres mais velhas com baixas taxas de empregabilidade e raras oportunidades de crescimento.
Este raciocínio é exposto pela colunista do Valor Econômico Maria José Tonelli, doutora em psicologia social e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças, em artigo. A longevidade no Brasil, tanto para homens quanto para mulheres, vem aumentando. Em 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontava que a expectativa de vida no país era de 72 anos para homens e 79 para mulheres.
É difícil superar preconceitos
Mas o mercado de trabalho não segue o compasso do aumento da expectativa de vida e da experiência de envelhecer. Considerando homens e mulheres, um terço da população economicamente ativa no país tem mais de 45 anos e apenas 10% têm mais de 65 anos. Falta mão de obra jovem nas plantas industriais, ao mesmo tempo em que trabalhadores 60+ são excluídos da força de trabalho, em geral por preconceito. Movimentos que trazem o debate sobre envelhecer e a situação da mulher têm se espalhado mundialmente, mas preconceitos são difíceis de serem superados e exigem mudanças pessoais e sociais profundas.
Maria José Tonelli destaca que, independentemente do gênero, as empresas não têm investido na gestão da idade e questões sobre o etarismo, apesar das múltiplas gerações presentes nas corporações, desde os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964), geração X (entre 1965 e 1980), Y (entre 1981 e 1996) e Z (entre 1995 e 2010). Muitos estereótipos cercam todas essas gerações.
“Muitas empresas acham que boomers não entendem de tecnologia e a geração Z não se compromete no trabalho, o que não é verdade, pois jovens e velhos entendem de tecnologia e a geração Z trabalha”, argumenta a colunista.
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Não há idade certa no mercado de trabalho
E as mulheres? Na intersecção de gênero e idade, as mulheres continuam perdendo e “nunca estão na idade certa” no mercado de trabalho, afirma Tonelli. Quando jovens, são consideradas jovens demais, e o que fala mais alto é a aparência. Aos 30 anos, podem ter filhos, mas a maternidade ainda não é muito bem vista no ambiente corporativo. E acredita-se que as mulheres próximas dos 50 já perderam seu encanto – que dirá as 60+.
Não é só Maddona que chama a atenção para o envelhecimento feminino. Pesquisas mostram que, com base em estereótipos, os homens mais velhos são vistos como “sábios”, têm experiência acumulada, conhecimento de vida. Mas as mulheres com mais idade são só “velhas”, diz Tonelli. Para a mulher, a questão da aparência no processo de envelhecer agrava a questão.
O preconceito contra a idade se evidencia no mercado de cosméticos e cirurgias plásticas, no qual o Brasil é um dos campeões. A busca pela juventude eterna e pela beleza movimenta muita expectativa, além de bilhões de reais.
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“Os homens podem”. As mulheres não
Nas relações afetivas entre homens e mulheres, “os homens podem”, afirma Tonelli, no que diz respeito a diferenças de idade entre casais. Já as mulheres “não podem”, preconceito visível em hostilidades contra casais nos quais a mulher é mais velha, como acontece com a apresentadora Fátima Bernardes, de 62 anos. Após um casamento de 26 anos com o apresentador William Bonner, Fátima ainda é alvo de curiosidade e estranhamento ao assumir seu namoro com o deputado federal (Rede) Túlio Gadelha, de 37 anos.
Matéria veiculada no site Meio&Mensagem também analisa o etarismo, que faz mais vítimas entre as mulheres, mas também atinge os homens. No geral, para homens e mulheres, os desafios no espaço de trabalho começam muito antes dos 65 anos. Um estudo feito pela EY Brasil e pela Maturi, empresa que conecta empregadores a profissionais maduros, mostra que a maior parte das 191 companhias ouvidas têm apenas entre 6% e 10% de pessoas com mais de 50 anos em seu quadro de colaboradores.
O peso da aparência

No mundo corporativo, as mulheres perdem status mesmo quando estão em posições de topo. Uma possível razão para a menor presença feminina na alta liderança é justamente a questão da idade, uma vez que mulheres mais velhas têm chances menores na concorrência com homens mais velhos.
“No mercado de trabalho, no processo de envelhecer, temos menos chance tanto antes de se aposentar quanto depois. Na nossa cultura, vinda do século passado, todo o universo profissional foi feito para o homem. Portanto, mesmo que ele seja afetado, fica em uma posição mais confortável”, afirma Rita Almeida, head de Estratégia da AlmapBBDO, agência de publicidade e comunicação.
Cabelos grisalhos só para homens
Defensora do combate ao etarismo, Rita Almeida também cita a estética como um dos desafios enfrentados no envelhecimento feminino. A transição para os cabelos grisalhos, por exemplo, é comumente mais aceita em homens, sob a premissa do “charme” e valorização da maturidade. Já entre as mulheres, cabelos brancos são em geral remetidos à velhice, falta de cuidado e limitações. As questões hormonais, que culminam no climatério e na menopausa, também vêm à tona no reforço ao preconceito, uma vez que os temas ainda são tratados como tabu.
O etarismo contra as mulheres também tem sido alvo de movimentos organizados. A matéria do Meio&Mensagem traz o exemplo de Carla Leirner, uma protagonista do ativismo da maturidade, que mergulhou no empreendedorismo. Sua carreira voltada ao jornalismo, com experiências corporativas, contribuiu para a criação do projeto “Minha idade não me define”. A iniciativa visa contribuir para o empoderamento da jornada do envelhecimento, tratando de temas como longevidade, educação financeira, autoestima, sexo e transição de carreira. O movimento foi lançado no Dia Internacional da Mulher de 2021 e, hoje, já conta com 194 mil seguidores no Instagram. Seu público-alvo são mulheres a partir dos 50 anos.