O agronegócio brasileiro vive um momento no qual produzir mais já não garante melhores resultados. Apesar do crescimento das exportações e da consolidação do país como um dos principais fornecedores globais de alimentos, produtores e empresas enfrentam pressão sobre margens, custos elevados, restrições de liquidez e um ambiente internacional marcado por disputas comerciais e mudanças nas cadeias globais de valor.

Nesse contexto, diversificação de mercados e produtos, inteligência comercial, agregação de valor, sustentabilidade e gestão de riscos passam a ocupar espaço tão importante quanto a produtividade dentro da porteira.

Esse foi um dos eixos do webinar Geopolítica da Alimentação: o futuro das cadeias globais e do agro em um mundo em transformação, promovido pela Academia Global do Agro, da Fundação Dom Cabral (FDC), com participação dos professores da FDC Lígia Dutra e Guilherme Raucci.

Ao analisar o cenário recente do comércio internacional, os especialistas destacaram um paradoxo que ajuda a explicar os desafios atuais do setor. Embora o Brasil tenha ampliado sua presença nos mercados globais e mantido desempenho expressivo nas exportações agropecuárias, produtores e empresas convivem com custos elevados, volatilidade de preços e rentabilidade pressionada em diversas cadeias.

Em 2025, o agronegócio respondeu por cerca de US$ 169 bilhões das exportações brasileiras, equivalente a aproximadamente 48% das vendas externas do país. A pauta continua concentrada em produtos como soja, milho, carnes, açúcar, algodão, café e suco de laranja. Mas, segundo os professores, o bom desempenho das exportações não elimina a necessidade de repensar estratégias diante de um ambiente mais complexo e competitivo.

Para Guilherme Raucci, a próxima etapa da evolução do agronegócio brasileiro passa pela ampliação do olhar sobre todos os fatores que influenciam o resultado econômico da atividade. “O produtor costuma focar só na produção e na parte de manejo agronômico, que já é supercomplexo. Mas não olha bem como compra e vende. Esse é um dos grandes gargalos, em que se pode melhorar bastante por meio dos sistemas, das plataformas, da transparência da informação”, avaliou.

Segundo o professor, a profissionalização dos processos comerciais tornou-se tão relevante quanto os ganhos de produtividade. Em um ambiente de margens mais apertadas, a capacidade de comprar melhor, vender melhor e antecipar riscos pode ser decisiva para a rentabilidade.

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Diversificação como estratégia de resiliência

As transformações geopolíticas em curso estão alterando fluxos comerciais, cadeias de suprimento e relações entre países. Para Lígia Dutra, esse cenário reforça a necessidade de ampliar mercados e construir uma pauta exportadora cada vez mais diversificada.

A professora destacou que a China continuará ocupando posição central para o agronegócio brasileiro, mas alertou para a importância de desenvolver novas oportunidades comerciais e ampliar o número de produtos exportados.

“Temos que diversificar e abrir nossa pauta de exportação para a China com novos produtos, como o Ministério da Agricultura vem trabalhando. Um caso recente, por exemplo, é o Gergelim, que apareceu na pauta de exportação de 2025, em virtude de um trabalho de abertura que foi feito antes, o que beneficiou produtores brasileiros”, mencionou.

Segundo a professora, uma pauta diversificada oferece maior capacidade de adaptação diante de crises, mudanças regulatórias ou oscilações econômicas. “Essa é a grande vantagem de se ter uma pauta exportadora bastante diversificada, porque pode haver uma parceria consolidada com um país, mas em um momento de crise ou diante de um problema não previsto, se consegue também buscar outros parceiros comerciais. Mas essa transferência não é imediata”, ponderou.

Lígia observou que as tensões comerciais recentes e o avanço de medidas tarifárias em diferentes regiões do mundo aumentaram a percepção sobre a importância de construir relacionamentos mais amplos.

“Essa instabilidade geopolítica também gera oportunidades para quem consegue navegar com mais clareza. Por isso temos que tirar um pouco do barulho e olhar mais os dados econômicos, para as tendências de negócio, para parceria que já desenvolvemos com os países e com isso tentar buscar as melhores oportunidades mesmo num ambiente instável”

Lígia Dutra

Ao mesmo tempo em que podem abrir oportunidades para exportadores brasileiros, os conflitos comerciais também exigem atenção aos efeitos indiretos sobre fertilizantes, defensivos e outros insumos estratégicos para a produção agropecuária.

A professora também destacou o papel dos acordos comerciais na ampliação da competitividade brasileira. “Os acordos comerciais são importantíssimos. O Brasil é um país muito pouco conectado com o restante do mundo. Apesar de sermos um grande exportador do agro, temos uma rede de acordos muito pequena comparando a nossos competidores”, observou.

Na avaliação da especialista, iniciativas como o acordo entre Mercosul e União Europeia podem ampliar oportunidades para produtos de maior valor agregado e fortalecer a inserção internacional do país em um momento de reorganização das cadeias globais.

Valor agregado é o que consumidor paga

Outro tema central do debate foi a necessidade de ampliar a visão sobre agregação de valor. Segundo Lígia Dutra, a discussão não pode ser reduzida apenas à industrialização dos produtos. Em muitos mercados, o valor está associado à qualidade, à diferenciação, à rastreabilidade, à sustentabilidade e à capacidade de atender demandas específicas.

Um dos exemplos apresentados foi o café verde. Embora o Brasil continue exportando majoritariamente o grão sem industrialização, cresce a participação dos cafés especiais e diferenciados dentro dessa mesma categoria. Além da qualidade do produto em si, compradores internacionais valorizam atributos como rastreabilidade, certificações, práticas de menor impacto ambiental e responsabilidade social ao longo da cadeia produtiva.

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“Poderíamos estar industrializando; fazendo as cápsulas. Mas estamos agregando valor. À medida que entregamos qualidade, o valor do produto no mercado internacional é diferenciado”, exemplificou. A professora lembrou ainda que os itens industrializados, como as cápsulas, são sujeitos a alíquotas, enquanto o produto sustentável in natura tem maior receptividade em vários mercados. “Posso agregar valor em um produto, mas o consumidor não querer comprar. Nesse caso, não agregaria valor; destruiria o valor. Valor é aquilo que o consumidor está disposto a pagar”, resumiu a docente.

Outro exemplo citado foi a soja. A escala alcançada pela produção brasileira permitiu que aproximadamente um terço da safra permanecesse no país para processamento industrial, criando novas oportunidades de geração de valor. “O biocombustível é o principal driver hoje de agregação de valor no Brasil para grãos”, afirmou.

Segundo Lígia, a transformação de soja e milho em biodiesel e etanol tornou-se uma das principais estratégias de industrialização do agronegócio brasileiro. O movimento é impulsionado pela Lei do Combustível do Futuro e pelas discussões sobre a ampliação gradual dos teores de biocombustíveis adicionados aos produtos de origem fóssil (gasolina, que ao ser comercializada ao consumidor recebe atualmente 30% de etanol anidro, e diesel, com teor de 15% de biodiesel).

Além de gerar empregos qualificados e investimentos industriais no interior do país, a produção de biocombustíveis amplia a captura de valor dentro das cadeias produtivas, fortalece a segurança energética e reduz a dependência de combustíveis fósseis.

A especialista ressaltou ainda que agregar valor nem sempre significa vender produtos mais sofisticados.

“Agregação de valor não é ter produto mais caro. Muitas vezes se agrega valor quando melhorando a gestão da propriedade e baixando os custos, o que torna o produto mais competitivo”

Descarbonização transforma propriedades em ativos de geração de receita

Vista aérea de um trator trabalhando entre fileiras bem alinhadas de plantações verdes em uma grande fazenda de agronegócio ensolarada, cercada por colinas onduladas e árvores.
Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock

A agenda climática apareceu no webinar não apenas como exigência regulatória ou reputacional, mas como uma nova fronteira de geração de valor para o agronegócio.

Segundo Guilherme Raucci, o setor começa a transformar ativos ambientais em oportunidades concretas de negócios, ampliando o conceito tradicional de produção agropecuária. “É importante também enxergar não só a agregação de valor na commodity ou no produto final, mas na propriedade como um todo também, até porque isso vai impactar o acesso a crédito e outras oportunidades”, notou.

O professor destacou que o Brasil reúne algumas das maiores oportunidades globais para geração de créditos de carbono associados ao solo e à agricultura regenerativa. Projetos atualmente em processo de certificação devem permitir a entrada em escala desses ativos no mercado voluntário.

Ao mesmo tempo, ganha força o conceito de insetting, modelo em que empresas financiam iniciativas de redução de emissões dentro de suas próprias cadeias de fornecimento. “Hoje trabalho com empresas que vêm aqui porque precisam reduzir impactos dentro da própria cadeia de fornecimento, o que chamamos de insetting”, explicou

Segundo Raucci, multinacionais dos setores de alimentos, bens de consumo e tecnologia já compram créditos ambientais ou remuneram práticas sustentáveis associadas à produção agropecuária para cumprir metas de descarbonização.

Nesse cenário, áreas preservadas, manejo regenerativo, recuperação de vegetação nativa e conservação do solo passam a integrar a estratégia econômica das propriedades rurais. A floresta preservada e a saúde do solo deixam de representar apenas requisitos ambientais e passam a constituir ativos capazes de gerar receita, facilitar acesso a crédito e ampliar a competitividade das cadeias produtivas.

Credibilidade é ativo estratégico e responsabilidade de todos

A manutenção da reputação sanitária e ambiental do agronegócio brasileiro foi apontada como um dos principais fatores para sustentar a expansão das exportações nos próximos anos. Contudo, Lígia Dutra advertiu que a credibilidade construída pelo país ao longo das últimas décadas exige vigilância permanente.

“Temos produtores que cuidam da sustentabilidade todos os dias. Mas basta um caso de alguém que não faz isso para se perder a credibilidade internacional. Então, precisamos ter cada vez sistemas públicos que sejam transversais e para todos, para garantir a aplicação da lei”, afirmou.

Para a professora, políticas públicas de fiscalização e monitoramento continuam sendo essenciais para assegurar que irregularidades pontuais não comprometam a imagem de todo o setor.

Raucci observou que os avanços tecnológicos estão ampliando significativamente a transparência das cadeias produtivas. “Se alguém quer esconder alguma coisa, vai ficar cada vez mais difícil”, avisou.

Sistemas digitais de rastreabilidade, monitoramento remoto e cruzamento de bases de dados tornam cada vez mais fácil comprovar conformidade ambiental, origem da produção e cumprimento de exigências regulatórias. Para os especialistas, essa combinação entre tecnologia, transparência e fiscalização será determinante para preservar o acesso a mercados cada vez mais exigentes em critérios ambientais, sociais e de governança.

A gestão como diferencial competitivo

Ao final do webinar, os professores reforçaram que os próximos ciclos do agronegócio serão definidos cada vez menos pelo tamanho da safra e cada vez mais pela qualidade das decisões de gestão.

Segundo Raucci, a pressão sobre margens, o aumento da volatilidade e a maior complexidade dos mercados tornam indispensável uma visão integrada dos negócios. Para o professor, as propriedades mais bem posicionadas serão aquelas capazes de combinar produtividade, inteligência comercial, gestão financeira, sustentabilidade e capacidade de adaptação.

Já para Lígia Dutra, a construção de novas parcerias, a diversificação de produtos e mercados e a compreensão dos movimentos geopolíticos serão fatores decisivos para a geração de valor no longo prazo.

Confira o Webinar na íntegra.