A incorporação de boas práticas ESG (environmental, social, governance, em inglês) no setor da moda, além de ser o caminho para empresas atingirem uma produção mais sustentável, é uma oportunidade de ganho em termos de eficiência operacional e gestão de riscos. É o que detalha o documento de “Benchmarking de ESG no Setor da Moda”, desenvolvido pelo Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral. O relatório contempla os principais temas socioambientais abordados na área, bem como os desafios, oportunidades e caminhos dentro da lógica ESG no segmento.
Segundo o diretor do Núcleo de Sustentabilidade e autor do benchmarking, Heiko Hosomi Spitzeck, “questões de condições de trabalho, diversidade e igualdade e resíduos e efluentes são os predominantes nas empresas nacionais e internacionais analisadas”. A Constatação se confirma com o setor ocupando o segundo lugar no ranking mundial de trabalho escravo.
Por esse motivo, o relatório fala em identificar e priorizar, dentro da razão financeira da empresa, os temas sociais e ambientais que mais impactam o negócio. No cenário brasileiro, a economia circular, emissões e mudanças climáticas, recursos hídricos e resíduos e efluentes ganharam destaque na esfera ambiental.
No âmbito social, os direitos humanos e condições de trabalho, a diversidade e igualdade, os impactos socioeconômicos na comunidade e a sustentabilidade na cadeia de fornecedores foram os itens de maior relevância.
Economia circular tem potencial milionário

Ao priorizar a reutilização e restauração de recursos, a economia circular busca reduzir resíduos e criar processos mais sustentáveis e lucrativos. No setor da moda, onde predominam materiais não renováveis e ciclos de vida curtos, a demanda para a mudança por um modelo circular se torna ainda mais necessária. Estima-se que metade da produção de fast fashion, por exemplo, seja descartada em menos de um ano, o que aumenta a pressão sobre os recursos naturais e gera impactos sociais negativos.
Em relação à demanda e produção do conceito de fast fashion, Spitzeck avalia que é necessário mais do que a boa vontade das empresas que lucram com esse modelo: é necessária a participação da sociedade como um todo.
“Com o sistema de incentivos atuais, as empresas não vão “reeducar” o mercado porque ganham bem neste modelo. Cabe à sociedade definir a quais condições devem satisfazer (ou não) a demanda dos consumidores. Se essas condições não entrarem nas regulamentações de produção e importação, o fast fashion vai continuar”, explicou o diretor.
Além disso, a adoção da economia circular no setor da moda não apenas preserva recursos, mas também oferece grandes oportunidades econômicas. Com um mercado avaliado em 6,5 trilhões de reais e empregando mais de 300 milhões de pessoas globalmente, o setor tem potencial para um crescimento sustentável, mas exige novas estratégias e uma colaboração mais estreita ao longo de toda a cadeia de valor.
Como exemplo de boas práticas na economia circular, Spitzeck menciona a empresa brasileira Farm e também aponta para a necessidade de intervenção de órgãos reguladores para uma dinâmica mais efetiva.
“A Farm tem uma parceria com a Enjoei que incentiva o reuso e dá benefícios aos consumidores que reciclam, na hora de comprar novas roupas. Porém, para criar uma solução mais sistêmica, precisa da intervenção do regulador”, ressaltou.
Resíduos e efluentes fazem parte do processo industrial

A indústria da moda enfrenta um desafio significativo com a geração de resíduos e efluentes ao longo de toda a cadeia produtiva. Isso inclui desde sobras de tecidos e materiais descartados durante o processo de fabricação (resíduos sólidos), até efluentes líquidos, resultantes de processos de tingimento, lavagem e acabamento de tecidos.
Os resíduos sólidos, muitas vezes formados por fibras sintéticas, representam um problema sério devido à sua lenta decomposição no meio ambiente. Isto pode levar à contaminação do solo e das águas subterrâneas.
Já os efluentes líquidos, se não tratados adequadamente, têm o potencial de poluir corpos d’água, afetando ecossistemas aquáticos e colocando em risco a saúde das populações humanas e dos animais.
A origem desses resíduos e efluentes está intrinsecamente ligada aos processos industriais que caracterizam a produção em massa de roupas e acessórios. O uso intensivo de água e produtos químicos na produção têxtil, aliado à pressão por baixos custos e alta produtividade, agrava a situação, levando ao descarte inadequado desses subprodutos.
Nesse aspecto, o documento destaca que “as marcas do grupo Reserva substituíram os plásticos usados nas embalagens das roupas vendidas pelo Seaplast, um composto de plásticos que são retirados dos oceanos e litorais do Brasil”.
Cadeia de fornecimento
Grandes players do setor têm reavaliado suas relações com fornecedores, buscando não apenas a redução de custos, mas também priorizando práticas sustentáveis. Assim, as empresas estão cada vez mais inclinadas a escolher parceiros que adotam medidas ambientais e sociais responsáveis, promovendo melhorias nas condições de trabalho, além de buscar soluções inovadoras em logística e estratégias de produção.
Algumas companhias vão além, oferecendo treinamentos e diretrizes para que seus fornecedores possam se adequar às novas exigências sustentáveis.
Para o especialista da FDC, ao exigir transparência e responsabilidade ambiental de seus fornecedores, as empresas do setor da moda podem mitigar impactos negativos e promover uma cadeia de fornecimento mais ética e sustentável. “Essa abordagem não só melhora a reputação das marcas, mas também contribui para a criação de um ambiente de negócios mais competitivo e alinhado com as demandas contemporâneas”, defende ele.
Para Spitzeck, além de reduzir custos e riscos, a adoção de boas práticas ESG também traz uma diferenciação no mercado. Ele cita que a linha Alme, da Arezzo, ou os tênis feitos de plástico reciclado retirado do mar da Adidas mostram que há caminhos para engajar clientes que se preocupam com questões socioambientais e capturar esta parte do mercado, que normalmente é disposto a pagar mais.
ESG na moda: é preciso erradicar trabalho escravo
A indústria da moda, especialmente sob o modelo de fast fashion, enfrenta críticas severas por perpetuar a exploração de trabalhadores em condições análogas à escravidão. Esse sistema de produção, que visa a rápida e barata disponibilização de roupas descartáveis, é marcado por jornadas exaustivas, remuneração inadequada e ambientes de trabalho perigosos, minando os direitos e a dignidade dos trabalhadores.
A erradicação dessas práticas desumanas exige uma transformação profunda na cadeia produtiva da moda, com foco na transparência e na responsabilidade social.
Como exemplo nacional em direitos humanos e condições de trabalho, o documento liderado por Spitzeck indicou que a Renner “oferece a todos os colaboradores uma política de reembolso para educação continuada”. Isso inclui cursos presenciais, seminários, congressos, cursos online e workshops, tratando de temas de negócio e comportamentais, tanto para lideranças quanto para potenciais lideranças.
Caminhos para o ESG na moda

A agenda socioambiental se intensificou com o compromisso firmado entre os líderes mundiais, na sede da ONU, em 2015. A Agenda 2030 resultou nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que estabelecem metas a serem cumpridas até 2030. Sendo assim, há uma pressão maior, tanto por parte da população, quanto dos órgãos governamentais através de leis e incentivos. Isso acarreta na necessidade de adotar boas práticas para se manter competitivo a longo prazo.
Dúvidas mais comuns
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ESG significa Ambiental, Social e Governança, que são três pilares usados para avaliar a sustentabilidade e o impacto ético de uma empresa. O pilar Ambiental foca na relação da empresa com o meio ambiente, incluindo gestão de resíduos e emissões. O Social avalia o impacto nas pessoas, como condições de trabalho e direitos humanos. A Governança refere-se à estrutura de gestão, ética e transparência da empresa.
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A adoção de práticas ESG no setor da moda é fundamental para promover uma produção mais sustentável, melhorar a eficiência operacional e a gestão de riscos. Além disso, ajuda a mitigar impactos socioambientais negativos, como trabalho escravo e poluição, e cria oportunidades econômicas ao engajar consumidores preocupados com sustentabilidade.
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Os principais desafios incluem o combate ao trabalho escravo, a gestão de resíduos sólidos e efluentes líquidos gerados na produção, o uso intensivo de recursos naturais, e a necessidade de promover diversidade, igualdade e melhores condições de trabalho ao longo da cadeia produtiva.
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A economia circular promove a reutilização e restauração de recursos para reduzir resíduos e criar processos mais sustentáveis e lucrativos. No setor da moda, isso é essencial para diminuir o descarte rápido de roupas, especialmente no modelo fast fashion, e pode gerar grandes oportunidades econômicas ao incentivar o reuso e a reciclagem.
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Exemplos incluem a parceria da Farm com a Enjoei para incentivar o reuso de roupas, a substituição de plásticos convencionais por materiais retirados dos oceanos nas embalagens da marca Reserva, e a política de reembolso para educação continuada oferecida pela Renner aos seus colaboradores.
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As empresas podem exigir transparência e responsabilidade ambiental de seus fornecedores, oferecer treinamentos e diretrizes para adequação às práticas sustentáveis, e priorizar parceiros que adotem medidas sociais e ambientais responsáveis, promovendo melhorias nas condições de trabalho e inovação na produção.
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A sociedade deve definir as condições que a demanda dos consumidores deve satisfazer, pressionando por regulamentações que incentivem práticas sustentáveis. Os órgãos reguladores são essenciais para criar dinâmicas mais efetivas que promovam a economia circular e a erradicação de práticas como o trabalho escravo no setor.