• A convergência entre as prioridades do capital e da sociedade nas pautas ESG representa uma transição do capitalismo de shareholder para o capitalismo de stakeholders.
  • A pressão dos fundos de investimento de longo prazo, motivados pelo dever fiduciário, impulsiona a adoção do ESG como condição para a confiança e sustentabilidade do sistema capitalista.
  • A efetividade da estratégia ESG depende de uma abordagem criativa focada na criação de valor social e reimaginação do negócio, além do uso restrito de indicadores e certificações.
Resumo supervisionado por jornalista.

O ESG é praticamente uma grande gincana em andamento, aqui e agora, envolvendo toda a comunidade global de negócios. “E ele vem acelerando, graças à pressão do capital, puxada pelos fundos de investimentos globais e em linha com os anseios da sociedade”. 

O raciocínio é de Erlana Castro, especialista em estratégia criativa, pesquisadora independente e professora da Fundação Dom Cabral. Ela também é coautora do Radar da Antifragilidade e idealizadora da rede criativa #ESGpraJÁ. 

esg e contexto
Erlana Castro (Foto por: Henrik Hoff)

Erlana traz uma discussão antenada do universo ESG e do seu impacto em uma nova equação criativa dos negócios, no que tange uma nova lógica de criação de valor. “A sociedade sempre requisitou do setor privado e do setor público que tivessem responsabilidade com o meio ambiente e que incorporassem isso em sua prática empresarial, e não pontualmente para ‘inglês ver’. No entanto, a sociedade não tinha a atenção do capital, porque vivíamos sob a lógica do capitalismo de shareholder, no qual o propósito e prioridade de uma empresa era única e exclusivamente remunerar o acionista, e não necessariamente endereçar as prioridades e urgências da sociedade. E, no capitalismo, as coisas só acontecem quando o capital quer”, diz Erlana.

O sistema capitalista evoluiu

A pandemia para cá – e com o agravamento da emergência climática -, houve um consenso de que o modelo de capitalismo de shareholder que nos trouxe até aqui já se esgotou. “Faz-se urgente evoluir o sistema na direção de um capitalismo de stakeholders”, pontua Erlana. 

ESG, portanto, assume um papel de narrativa de transição entre modelos de capitalismo. “Por isso, é um fato contextual, em processo, imperfeito, inacabado, cheio de tons de cinza e ambiguidades, complexo, criativo, colaborativo e, porque não, pop. Sim, ESG é pop! Mas esse insight é para outro dia”, provocou Erlana.

Questionada sobre o por quê o capital mudou de perspectiva, a especialista responde que “o grande lance dos fundos de investimentos é criar valor extraordinário para os seus clientes, no longo prazo (valor futuro). Chamam isso de dever fiduciário (fidúcia em italiano traduz para confiança). Mas como inspirar confiança no futuro, em volume o bastante para que as pessoas invistam suas economias do presente – se não houver uma boa perspectiva de futuro? Sacou? Se não houver futuro, o capitalismo desaba aqui e agora”.

Por essa visão, a pauta virou urgente aos fundos de investimento de longo prazo, que trabalharam para investir na criação de futuros possíveis para manter o próprio sistema rodando.

Nesse contexto, disse a especialista, as empresas não têm opção que não seja adotar uma pauta ESG. “Afinal, todo negócio depende diretamente do mercado de capitais (investidores) e do mercado de consumo (clientes/consumidores). Quando eles querem a mesma coisa, ao mesmo tempo, não se trata de um pedido para as empresas, mas de uma ordem”, sustentou.. 

É hora da estratégia criativa ESG

Na construção de uma estratégia ESG, Erlana critica o peso excessivo de indicadores, selos e certificações da empresa. “A pauta ESG é construída muito em cima de indicadores de performance. Vejo limites nisto, e alguns são muito óbvios e até já se colocaram para nós. Acabamos de ver as Lojas Americanas, que  tirava nota 10 em tudo, estava nas melhores listas de governança… Mas isso servia somente para criar uma cortina de fumaça, enquanto uma fraude de R$ 43 bilhões acontecia ao longo do tempo na empresa”, exemplificou.

Uma empresa ESG, completou ela, precisa ter uma estratégia de criação de valor para a sociedade e isso é sobre estratégia criativa, e não apenas sobre implementar indicadores.

“As empresas ESG não ficam dizendo que são ESG. Elas são. Então, é preciso reimaginar o negócio inteiro e também o seu ecossistema. Aí, como é que eu abordo isso? Bom, eu deixaria temporariamente para lá toda a parafernália dos indicadores e me concentraria nas discussões do propósito e dos meios e modos de criação de valor para o negócio e para o mundo. Aqui estamos no coração da estratégia criativa”, concluiu.

Dúvidas mais comuns

ESG (Ambiental, Social e Governança) é um conjunto de critérios para avaliar o desempenho de empresas além do lucro, focando em como elas gerenciam seu impacto no meio ambiente, nas pessoas e em sua própria administração. O objetivo é buscar sustentabilidade, responsabilidade e transparência para gerar valor a longo prazo, sendo um fator decisivo para investidores e consumidores conscientes.

Os 3 pilares do ESG são Ambiental, Social e Governança. Ambiental avalia o impacto da empresa no meio ambiente, incluindo gestão de carbono e conservação. Social analisa as relações da empresa com funcionários, clientes e comunidades, focando em diversidade e direitos humanos. Governança examina a liderança, transparência e ética na gestão da empresa.

O ESG é importante porque atrai investimentos ao demonstrar que a empresa é resiliente e tem menos riscos, engaja consumidores que preferem marcas responsáveis, gera valor ao ajudar a inovar e reduzir custos, e alinha as empresas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, garantindo sustentabilidade e perenidade do negócio.

O ESG influencia a estratégia das empresas ao exigir que elas reimaginem seus negócios e ecossistemas para criar valor para a sociedade, não apenas focando em indicadores de performance, mas adotando uma estratégia criativa que integra propósito e meios para gerar impacto positivo e sustentável no longo prazo.

O modelo de capitalismo de shareholder, focado apenas em remunerar acionistas, está esgotado. A pandemia e a emergência climática aceleraram a transição para um capitalismo de stakeholders, onde o capital e a sociedade convergem em prioridades ESG para garantir um futuro sustentável e manter a confiança dos investidores e consumidores.

Os fundos de investimento de longo prazo passaram a priorizar o ESG para criar valor extraordinário para seus clientes no futuro, pois investir em empresas com boas práticas ESG é fundamental para garantir a confiança no futuro e a continuidade do sistema capitalista, já que sem perspectivas de futuro o capitalismo desaba.

Indicadores e selos são importantes, mas podem ser insuficientes e até enganosos, como no caso das Lojas Americanas, que tinham boas notas e governança, mas ocultavam uma fraude bilionária. Uma empresa ESG precisa ter uma estratégia criativa e genuína de criação de valor para a sociedade, incorporando o propósito em todas as suas práticas e decisões.