Lidar com cenários de incerteza exige das empresas estruturas capazes de dar sustentação às decisões, mas também flexibilidade para responder a situações imprevistas. Esse foi o tema discutido pelos professores da Fundação Dom Cabral (FDC) Adriano Amui, Diego Marconatto e Erick Krulikowsky, durante painel realizado na 11ª edição do Fórum Anual de Médias Empresas da instituição.

Adriano Amui em palco, durante uma palestra ou evento, segurando um microfone e falando ao público, com fundo roxo e luzes de conferência.
Adriano Amui, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

No debate, os professores destacaram que a capacidade de adaptação depende de repertório técnico, confiança entre as equipes e clareza sobre o propósito estratégico. A tomada de decisão, segundo eles, precisa combinar preparo e sensibilidade para lidar com mudanças sem perder de vista os objetivos da organização.

Amui, estrategista e criador de valor, além de fundador da Invent Strategy e cofundador da Deep Seed Solutions, provocou a plateia sobre a futilidade de planos anuais inflexíveis em cenários caóticos. Ele alertou que o excesso de análise paralisa, ao mesmo tempo em que o exagero de instinto leva ao escuro. Um conselho do especialista é o investimento em liderança compartilhada, ou seja, os líderes devem saber dosar o operacional para focar na estratégia.

Krulikowsky, sócio-diretor do iSetor e músico profissional, explicou como a música exige milhares de decisões em tempo real, incluindo intensidades, momentos de entrada e de silêncio, que devem ser sustentadas pelo contexto e pela estrutura, em um paralelo direto com o mundo corporativo, em especial nos momentos de incerteza.

Erick Krulikowsky em palco, usando microfone de cabeça, durante apresentação com iluminação roxa e equipamentos de áudio e teclado ao fundo.
Erick Krulikowsky, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

Ele trouxe outras comparações importantes ao vivo, ao tocar com a banda presente no palco do evento, e provar a necessidade de adaptação dinâmica, uma vez que foi provocado a improvisar.

Segundo ele, a adaptação só é possível quando se está totalmente “presente”, seja no campo musical ou na gestão.

O especialista ainda destacou a importância das pausas, alertando que as empresas frequentemente ficam soterradas em projetos por falta de intervalos planejados, que são essenciais para permitir o julgamento e a escuta na hora de decidir.

Marconatto, que além de docente na FDC é pesquisador do doutorado da instituição no tema empresas de alto crescimento, também reforçou a crítica ao controle excessivo nas organizações, explicando que o instinto humano na incerteza é centralizar e aumentar o controle, mas que esse controle excessivo reduz a performance das empresas.

Diego Marconatto em um palco de evento, sentado em cadeira durante uma apresentação, com telão ao fundo
Diego Marconatto, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

O conceito de segurança psicológica foi levantado pelo especialista como um divisor de águas para que as pessoas se sintam à vontade para compartilhar decisões e inovar. Marconatto ainda enfatizou a importância de o principal gestor conseguir se afastar da operação direta para sentar na cadeira de estrategista.

O professor reforçou que as tecnologias e ferramentas analíticas, caso da IA e dados, não anulam a intuição. Pelo contrário, a alta performance vem do equilíbrio entre dados, racionalidade e intuição empírica, algo que os músicos de jazz, com grande experiência, usam em suas improvisações.

Música e gestão

Durante o painel, o trio de docentes traçou várias comparações entre músicos experientes e equipes corporativas afinadas.

·  Estrutura versus flexibilidade: roteiros fixos falham na primeira imprevisibilidade. Tanto na música quanto na gestão, o que se exige não são planos engessados, mas direções norteadoras, ou seja, uma forma ou mapa, que garantem a identidade enquanto permitem explorar novos caminhos e improvisar.

·  Tomada de decisão na incerteza: a música, assim como a operação da empresa, não para quando surge um problema ou um imprevisto. As decisões precisam ser tomadas em tempo real, adaptando a proposta de valor aos recursos disponíveis.

·  Liderança compartilhada: diante da complexidade, a liderança precisa ser alternada e compartilhada. O controle centralizado e excessivo sufoca a performance e a flexibilidade. É necessário dar espaço para que os membros da equipe brilhem e contribuam, como acontece em uma banda de jazz afinada.

·  Improviso exige bagagem: improvisar não é agir sem preparo; essa estratégia só funciona quando há competência e repertório acumulado ao longo do tempo.

·  Equilíbrio entre análise e intuição: a solução para a tomada de decisão não está apenas no método analítico rigoroso nem apenas no instinto. É preciso equilibrar a racionalidade/dados com a intuição e gerenciar as tensões diárias, que ipulsionam a evolução das organizações.

Médias empresas podem se beneficiar de momentos de crise

A incerteza não deve gerar paralisia, mas servir como um espaço de diferenciação competitiva. Essa foi a avaliação do presidente da Fundação Dom Cabral (FDC), Antonio Batista da Silva Junior, e do diretor de Desenvolvimento de Médias Empresas da instituição, Roberto Sagot. Os dois fizeram a abertura do 11º Fórum Anual e Médias Empresas da FDC.

De acordo com eles, o diferencial das corporações de médio porte é justamente ter a flexibilidade necessária para recalibrar estratégias em tempo real, sem o engessamento burocrático das grandes corporações. Para Silva, as médias empresas brasileiras estão na posição ideal para converter cenários adversos em crescimento sustentável e liderança de longo prazo. Segundo Antônio Batista, o atual momento de volatilidade global não é apenas um desafio, mas a maior janela de oportunidade histórica para o middle market brasileiro.

Antonio Batista da Silva Junior, presidente da Fundação Dom Cabral (FDC), fala em um evento corporativo ao lado de um púlpito com telão ao fundo e iluminação de palco.
Antonio Batista da Silva Junior, presidente da Fundação Dom Cabral (FDC) (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

Vivemos um momento singular. Não atravessamos apenas uma transformação, mas várias transformações simultâneas: a revolução da inteligência artificial e da digitalização, a reorganização geopolítica das cadeias globais, a transição energética e as profundas mudanças demográficas e sociais. É natural que tantas mudanças ao mesmo tempo gerem um sentimento predominante de vulnerabilidade e incerteza

Antonio Batista da Silva Junior.

Ele lembrou que o Brasil reúne condições únicas, entre elas biodiversidade, matriz energética limpa em escala, capacidade agroindustrial e uma base empresarial extremamente resiliente. Mas esse protagonismo não virá por acaso e, sim, dependerá das decisões tomadas agora.

“É exatamente aqui que as médias empresas ganham relevância estratégica. São 70 mil médias empresas do país, que representam menos de 1% dos CNPJs, mas respondem por 1 em cada 5 empregos formais e pagam 1 em cada 4 reais de salários no Brasil”, resumiu.

Para Silva, as médias empresas possuem uma combinação rara: a escala da grande empresa para gerar impacto, aliada à velocidade e agilidade do pequeno negócio para se adaptar. Enquanto as grandes corporações operam sob estruturas rígidas, as médias têm a capacidade de crescer e se transformar ao mesmo tempo.

“Em 50 anos de história da FDC, aprendemos que as organizações que permanecem não são as que acertam sempre, mas as que aprendem a decidir bem diante da incerteza. Hoje, a informação virou uma commodity; a verdadeira vantagem competitiva está no conhecimento que permite decidir e discernir melhor. O futuro não é um destino inevitável, mas é construído pelas decisões que tomamos hoje”, pontuou.

Sagot, por sua vez, destacou que é ilusório pensar que algum líder terá 100% de segurança ou todas as informações na mesa para tomar uma decisão. O diretor ressaltou, no entanto, que é justamente na falta e na imprevisibilidade que a verdadeira liderança se estabelece. “Liderar não é apenas seguir um procedimento operacional padrão”, disse.

Roberto Sagot, diretor de Desenvolvimento de Médias Empresas, participa do Fórum Anual das Medias Empresas, falando ao público em um palco com banner institucional e iluminação roxa.
Roberto Sagot, diretor de Desenvolvimento de Médias Empresas da instituição (Foto: Fórum Anual das Médias Empresas)

Na avaliação dele, se a gestão de uma empresa fosse um filme, a tomada de decisão seria o clímax: o momento é absolutamente indelegável do líder.

Mesmo com a ajuda de inteligência artificial e os dados, a escolha final e a responsabilidade pelo rumo da organização cabem exclusivamente ao executivo.

“A grande oportunidade para as médias empresas reside em expandir seu repertório por meio da troca em rede. Quando líderes se conectam e compartilham experiências, a probabilidade de tomarem a melhor decisão possível aumenta significativamente”, disse. “Cada escolha realizada constrói um futuro. Em um ambiente em que é preciso se reinventar para atender a múltiplos stakeholders, saber decidir com agilidade e embasamento é o que vai definir as empresas que liderarão o próximo ciclo do país”, concluiu.