Entre painéis focados em novas tecnologias e inteligência artificial aplicada aos negócios, um debate do Rio2C liderado por duas executivas da música e do entretenimento recolocou o humano no centro da inovação. A CEO da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, Ana Flávia Cabral, e a diretora artística da TV Globo, Amora Mautner, defenderam a arte, a emoção e a formação humanista como matéria-prima da criatividade, habilidade não inata e humana que permite desenvolver soluções inéditas e dotadas de sentido em um mercado cada vez mais automatizado. Sustentaram também que o trabalho executivo é, em essência, artístico.

Para ilustrar a tese, recorreram a um dos maiores símbolos da racionalidade científica, Albert Einstein. Filho de uma pianista e violinista desde a infância, o físico desenvolveu uma relação profunda com a música, elemento que, segundo as painelistas, ajudou a construir sua capacidade de abstração e de realizar conexões improváveis. É justamente essa capacidade de promover ligações inesperadas e quebras no padrão que constituem o mecanismo central da criatividade. 

Em meio a um cenário no qual a inteligência artificial se fortalece pela execução, mas não experiencia emoções, e de colapso de criatividade, o painel apontou para a formação humanista como caminho para a habilidade criativa e inovadora em empresas. Afinal, profissionais que cultivam algum hobby artístico apresentam maior probabilidade de ganhar o prêmio Nobel em relação aos cientistas comuns.

O cérebro cria quando conecta o improvável

Ao longo do painel, Amora buscou explicar a criatividade a partir do funcionamento do cérebro. Segundo ela, inovar significa estabelecer conexões entre áreas que normalmente não se relacionariam. Por sua vez, Ana afirma que a formação humanista é a provocação dessas conexões inesperadas. A problemática, porém, apontada como motivo da crise criativa dessa era, é a perda gradativa de componentes da formação humanista como o estudo filosófico, sociológico e artístico. Por muito tempo a filosofia era discutida em ágoras e servia ao propósito social, mas agora ganhou um aspecto mais erudito e menos democrático, com implicações que podem levar desde a precarização da formação humanista até problemas de saúde mental. 

Amora Mautner senta-se sorridente em uma cadeira no palco em um evento (o Rio2C).
Amora Mautner (Foto: Divulgação/ FilmArt Media Content/ Rio2C)

O retrato do enfraquecimento das disciplinas no Brasil é a posição do país, dez pontos abaixo da média, no ranking do PISA (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Na 44ª posição, de 56, e 23 pontos somados, o Brasil negligencia o preparo de jovens para a proatividade da vida adulta e não desenvolve, de maneira satisfatória, a habilidade criativa da próxima geração de profissionais. Ou seja, a inovação corporativa está em cheque.

Romper com essa dinâmica em um momento em que a IA ganha escala é um passo para evitar que a tecnologia continue “matando os Beethovens”, porque sem eles “não há nada”. O músico, assim como Einstein, foi utilizado para exemplificar como grandes avanços criativos surgem do rompimento com padrões estabelecidos. Longe de representar a tradição conservadora da música clássica, o compositor alemão foi descrito como um revolucionário de sua época, responsável por desafiar estruturas e introduzir elementos que inicialmente causaram estranhamento no público. Estranheza essa que quebra expectativas, produz contraste, emociona e se configura como componente da inovação.

A lógica da orquestra aplicada aos negócios

O painel, construído em torno de analogias e metáforas, usou a orquestra sinfônica para discutir liderança e gestão criativa. Coordenar mais de cem músicos com individualidades, ritmos e talentos distintos exige um modelo de liderança baseado menos na uniformização e mais na construção de harmonia.

Ana Flávia Cabral no palco do evento Rio2C
Ana Flávia Cabral (Foto: Divulgação/ FilmArt Media Content/ Rio2C)

Para Ana, o conceito de harmonia não significa fazer todos agirem da mesma maneira, mas encontrar equilíbrio entre diferenças para potencializar o melhor de cada integrante. O paralelo vale para o ambiente corporativo. Ao estimular a diversidade de pensamento, administrar conflitos coletivamente e estimular a formação humanista dos colaboradores, aumenta a probabilidade de desenvolver inovação.

Essa gestão coletiva opera sob o lema “resolve e avança”, comum ao maestro que encara o problema em conjunto, se adapta e progride.

Inteligência artificial executa, mas não sente

Embora o debate tenha reconhecido o potencial da inteligência artificial para acelerar processos e resolver problemas operacionais, as painelistas defenderam que a tecnologia opera em um campo distinto daquele ocupado pelos humanos. Enquanto a IA se destaca na execução e na repetição eficiente de tarefas, a criatividade humana envolve emoção, subjetividade e experiência cultural.

Nesse sentido, as empresas orientadas apenas por performance e automação correm o risco de enfraquecer justamente o elemento que produz inovação genuína. A preocupação principal não seria a substituição imediata de profissionais por máquinas, mas a perda gradual da capacidade humana de imaginar soluções originais.

Dúvidas mais comuns

A formação humanista, que inclui arte, filosofia e sociologia, desenvolve a capacidade de fazer conexões inesperadas entre áreas que normalmente não se relacionariam. Essa habilidade de conectar o improvável é o mecanismo central da criatividade. Profissionais que cultivam hobbies artísticos têm maior probabilidade de ganhar prêmios Nobel, demonstrando que a formação humanista potencializa a inovação genuína nas organizações.

Entre os fatores que inibem a criatividade estão: falta de habilidades específicas para inovar, dificuldade em lidar com o intangível, falta de visão de longo prazo, estruturas apartadas, foco excessivo na otimização do negócio existente e aversão ao risco. Além disso, o artigo aponta a perda gradativa de componentes da formação humanista como um dos principais motivos da crise criativa contemporânea.

A liderança baseada em harmonia, inspirada no modelo de uma orquestra sinfônica, não busca uniformizar as pessoas, mas encontrar equilíbrio entre as diferenças para potencializar o melhor de cada integrante. Ao estimular a diversidade de pensamento, administrar conflitos coletivamente e promover a formação humanista dos colaboradores, aumenta-se a probabilidade de desenvolver inovação genuína nas organizações.

Enquanto a inteligência artificial se destaca na execução e na repetição eficiente de tarefas, a criatividade humana envolve emoção, subjetividade e experiência cultural. A IA não experiencia emoções e opera em um campo distinto daquele ocupado pelos humanos. Empresas orientadas apenas por performance e automação correm o risco de enfraquecer justamente o elemento que produz inovação genuína.

O Brasil está na 44ª posição de 56 países no ranking do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), dez pontos abaixo da média, com apenas 23 pontos somados. Essa posição reflete a negligência do país no preparo de jovens para a proatividade da vida adulta e o desenvolvimento insatisfatório da habilidade criativa da próxima geração de profissionais, comprometendo a inovação corporativa futura.

A arte e a emoção são matérias-primas essenciais da criatividade, permitindo desenvolver soluções inéditas e dotadas de sentido em um mercado cada vez mais automatizado. O trabalho executivo é, em essência, artístico, e grandes inovadores como Einstein e Beethoven utilizavam elementos artísticos para quebrar padrões estabelecidos. A estranheza que quebra expectativas, produz contraste e emociona é um componente fundamental da inovação.

As empresas podem promover o resgate da formação humanista estimulando hobbies artísticos, incentivando o estudo filosófico e sociológico, e criando espaços para discussão coletiva de ideias. Além disso, devem adotar modelos de liderança que valorizem a diversidade de pensamento e a gestão coletiva de conflitos, operando sob o lema 'resolve e avança' para potencializar a criatividade e inovação genuína.

Criatividade é a habilidade não inata e humana que permite desenvolver soluções inéditas e dotadas de sentido. No contexto empresarial, significa estabelecer conexões entre áreas que normalmente não se relacionariam, promovendo ligações inesperadas e quebras no padrão. Diferencia-se da inovação, que é a implementação prática dessas ideias criativas, sendo ambas essenciais para o sucesso corporativo em mercados competitivos.