- A saúde social, que envolve conexões humanas saudáveis, é o terceiro pilar do bem-estar, essencial para a sobrevivência e longevidade dos indivíduos.
- A falta de interação social contribui para 871.000 mortes prematuras anuais e aumenta em até 53% o risco de mortalidade por qualquer causa, segundo dados da OCDE e OMS.
- Empresas devem implementar estratégias que promovam conexões presenciais e usem tecnologia para apoiar, não substituir, as relações humanas no ambiente de trabalho.
A chamada saúde social, na qual o indivíduo mantém relações saudáveis com familiares, com amigos e no trabalho, está surgindo como o terceiro pilar fundamental de sustentação do bem-estar humano, ao lado das dimensões física e mental. As empresas devem assumir o papel de promotoras da saúde social, a fim de gerar ambientes de trabalho edificantes, no qual a inteligência artificial funcione como uma aliada das tarefas, mas sem eliminar as conexões humanas reais.
O alerta foi feito pela cientista social canadense Kasley Killam, especialista no tema, em palestra no SXSW (South by Southwest), um dos maiores festivais de inovação, tecnologia, música, cinema e cultura do mundo, em Austin, no Texas (EUA).
Killam, que é pesquisadora e autora reconhecida internacionalmente por investigar a relação entre conexões humanas e bem-estar, defendeu que a relevância da saúde social vai além da felicidade, sendo “vital para a sobrevivência” dos indivíduos. A saúde social é definida como a “dimensão do bem-estar geral que provém da conexão humana”.
Enquanto a saúde física foca no corpo e a mental na mente, a saúde social foca nos relacionamentos, funcionando também como uma base essencial para sustentar a estrutura da saúde global. Ela envolve manter interação regular com diversos grupos (familiares, amigos, conhecidos e até estranhos), desenvolver sentimento de pertencimento a comunidades e ter relacionamento saudável consigo mesmo, como base para se conectar com o outro.
Conexões humanas impactam o bem-estar e a longevidade

Segundo a pesquisadora, a manutenção de conexões interpessoais impacta diretamente a saúde, a imunidade e até a longevidade dos seres humanos. A falta delas, por sua vez, gera estatísticas alarmantes. A solidão é o pior sinal de que a saúde social está enfraquecida.
Dados citados por Killam indicam que a falta de interação regular entre indivíduos contribui para cerca de 871.000 mortes prematuras por ano no mundo. Pessoas sem laços familiares fortes ou contato social frequente têm até 53% mais chances de morrer por qualquer causa. Globalmente, uma em cada seis pessoas se sente solitária, sendo que entre 5% a 14% enfrentam a solidão de forma crônica ou frequente.
Os efeitos da solidão em números
Estudos demonstram que indivíduos com conexões sociais fortes apresentam melhor funcionamento cognitivo e resposta imunológica mais robusta. Também apresentram menor risco de doenças graves, como as cardíacas, conquistam maior longevidade e redução de sintomas depressivos. Killam ofereceu à plateia um panorama dos riscos da solidão traduzidos em números, conforme detalhado abaixo.
| Categoria | Dado Estatístico | Fonte |
| Solidão Global | 1 em cada 6 pessoas no mundo sente-se solitária | OMS (2025) |
| Solidão Crônica | 5% a 14% das pessoas sentem-se solitárias “sempre” ou “frequentemente” (EUA, UK, Canadá, Japão) | OCDE (2025) |
| Isolamento Extremo | 8% da população mundial não possuem nenhum amigo próximo | OCDE (2025) |
| Risco de Mortalidade | Pessoas sem laços familiares fortes ou contato frequente têm até 53% mais probabilidade de morrer por qualquer causa | OCDE (2025) |
| Mortes Prematuras | A solidão e a falta de interação regular causam cerca de 871.000 mortes prematuras por ano | OCDE (2025) |
Os principais riscos de falta de saúde social nas empresas
No mundo empresarial, as corporações enfrentam vários riscos de má saúde social, com consequências às vezes graves para as equipes e resultados financeiros das empresas.
- Aumento do burnout e exaustão: colaboradores sobrecarregados e exaustos podem passar a evitar relacionamentos por considerá-los “difíceis” ou “exigentes”, o que cria um ciclo vicioso de isolamento e piora o estado de esgotamento.
- Riscos da substituição tecnológica: o uso excessivo de redes sociais ou o recurso aos chamados “companheiros de IA” como substitutos para a conexão humana real pode exacerbar a solidão, gerando sentimentos de desconexão. A tecnologia deve apoiar, e não sabotar ou substituir, a saúde social.
- Perda de propósito e pertencimento: a falta de integração em grupos ou comunidades priva o indivíduo do senso de comunidade e pertencimento, que são componentes vitais da saúde social.
Como as empresas podem promover saúde social
No cenário corporativo atual, a saúde social está deixando de ser um tema periférico para se tornar uma estratégia central de cultura e RH.
Killam abordou, em sua palestra, o chamado ponto de inflexão (tipping point): 2026 marcará a transição da saúde social do nicho para o mainstream, processo que começou a acentuar-se em 2025. A explanação de Killam apontou caminhos fundamentais para que as empresas favoreçam alcançar saúde social no trabalho, conforme listado a seguir.
- Criar uma estratégia interna de saúde social: independentemente de a equipe ser remota, híbrida ou presencial, a empresa deve ter uma estratégia dedicada para fortalecer os laços entre os colaboradores. O objetivo é construir equipes socialmente aptas (socially fit teams), tratando a conexão como uma prioridade tão importante quanto a saúde física ou mental.
- Fomentar conexões presenciais: as empresas devem priorizar momentos de conexão humana, pois o contato direto traz benefícios únicos à saúde, os quais não conseguem ser substituídos plenamente por interações digitais.
- Utilizar a tecnologia para apoiar (e não substituir) relações: o uso de ferramentas de IA deve ser focado em facilitar o relacionamento humano, como organizar calendários para encontros sociais ou ajudar os colaboradores a praticar conversas difíceis. A empresa deve evitar que a tecnologia se torne um substituto para a interação real.
- Promover atos de gentileza e voluntariado: incentivar o trabalho voluntário ou pequenos atos de bondade no ambiente corporativo é uma forma eficaz de reduzir o sentimento de solidão e aumentar a percepção de conexão entre os colegas.
- Liderar com integridade e compaixão: gestores devem liderar o movimento de conexão com ética, buscando combater a ansiedade social que muitos colaboradores sentem após anos de trabalho remoto isolado.
Geração Z vive quadro de contradições
Embora já tenha nascido conectada, a geração Z também enfrenta solidão e ansiedade. Um dado ilustrativo desta solidão são rituais simples, como refeições compartilhadas – apenas 38% dos representantes da geração Z cresceram tendo refeições diárias em família, contra 84% da chamada geração silenciosa (nascidos entre 1928 e 1945).
Enquanto a IA surge como uma nova forma de companhia (especialmente para a Geração Z), há um movimento crescente desta geração em direção ao “analógico” e ao desejo de experiências sociais autênticas, o que deve ser estimulado pelas empresas.
* Com informações de Silvia Martins, gerente de programas abertos da Fundação Dom Cabral (FDC), presente no SXSW 2026.