As empresas médias de elite adotam um modelo de decisão diferenciado, com equilíbrio entre ações racionais e intuição. Esse balanço impulsiona um faturamento e um lucro líquido acima da média das companhias de mesmo tamanho, segundo pesquisa do Centro de Inteligência em Médias Empresas (CIME), da Fundação Dom Cabral (FDC).
O levantamento analisou o desempenho de 522 empresas entre 2023 e 2025, ouvindo executivos que ocupam cargos de alta liderança, sendo 45% deles fundadores das companhias. Do universo analisado, 67% das organizações são familiares e, dessas, 85% dos casos têm como principal executivo (CEO) um membro da família fundadora.
O estudo, de autoria dos professores da FDC Plínio Monteiro, Marcos Bardagi, Wagner Alledo e Diego Marconatto, que além de docente é pesquisador do doutorado da instituição no tema empresas de alto crescimento, foi coordenado por Áurea Puga, especialista que lidera o CIME.

De acordo com eles, a pesquisa mostrou que os melhores resultados entre o grupo de empresas de alto desempenho surgiram do equilíbrio entre a razão e a intuição, refutando a ideia de que esses estilos de liderança sejam opostos. Pelo contrário: empresas que adotaram o modelo equilibrado, com dois terços das ações baseadas em dados, mas deixando um terço de margem, em média, para a intuição, tiveram um crescimento de 13,97% no lucro líquido no período analisado.
As companhias com uma liderança mais pautada pelo racional apresentaram uma média de 11,61% no crescimento do lucro líquido entre 2023 e 2025. No caso da gestão mais intuitiva, a lucratividade acumulada cresceu 10,12%.
Segurança psicológica
Intitulada Arquitetura da Decisão: como decidem as médias empresas brasileiras de alta performance, a pesquisa apontou ainda que a cultura de dados e o apoio da gestão ao uso de inteligência artificial (IA) são fundamentais para transformar informações em ações lucrativas. Os autores também abordaram a importância da segurança psicológica e da profissionalização em empresas familiares para sustentar o crescimento.
Para eles, a arquitetura de decisão é um sistema que organiza processos e princípios para gerar vantagem competitiva consistente. A dupla ignição, característica que combina razão e intuição, é apontada no estudo como uma das características da arquitetura de decisão bem sucedida.
“O excesso de racionalidade leva à paralisia por análise, onde oportunidades se perdem, e o excesso de intuição gera o achismo”, disse Marcos Bardagi, um dos autores da pesquisa, na apresentação oficial do material durante o 11º Fórum Anual de Médias Empresas, organizado pela FDC.

O especialista também destacou a importância da segurança psicológica no ambiente corporativo. “É importante que as pessoas se sintam plenamente seguras para questionar, discordar, admitir erros e expor novas ideias, sem o receio de retaliações”. De acordo com o estudo, empresas que incentivam essa segurança elevam em três vezes a probabilidade de alcançar a alta performance.
Gargalo da IA está na liderança
Plínio Monteiro, por sua vez, ressaltou que o verdadeiro gargalo dos projetos de tecnologia e inteligência artificial não reside nas ferramentas ou na infraestrutura técnica, mas sim na liderança. De acordo com ele, os dados só possuem valor se forem transformados em ação efetiva de mudança.

“Falar que dados são estratégicos é fácil, mas utilizá-los de fato para mudar opiniões e estratégias diante de evidências contrárias é o que define uma arquitetura de decisão forte”, declarou, no lançamento da pesquisa. O especialista lembrou, no entanto, que as empresas devem primeiro estruturar e organizar seus dados antes de tentar colher resultados reais com IA.
De acordo com o levantamento, o sucesso dos projetos de IA depende do apoio ativo e direcionamento estratégico da alta gestão. Mesmo entre as empresas que compõem o grupo de elite, apenas 26% sentem-se totalmente preparadas para o universo complexo da IA, o que mostra que o desafio é geral.
Também autor da pesquisa, Wagner Alledo avaliou o desempenho das empresas familiares. Segundo ele, elas alcançam os mesmos patamares de lucratividade e faturamento que as multinacionais ou empresas não familiares, desde que possuam gestão ou governança profissionalizadas.

Alledo lembrou ainda que profissionalizar a gestão, trazendo executivos de mercado, por exemplo, não significa o afastamento da família. Pelo contrário, permite que ela foque no que faz melhor, ao garantir a longevidade, as origens e a essência do legado de longo prazo.
Áurea Puga, coordenadora do CIME e responsável pelo estudo, destacou o diferencial da FDC em estudar as médias empresas há mais de 30 anos. Na avaliação dela, as empresas que de fato dão o salto de crescimento são as que investem fortemente em transformação digital e em informação estruturada.
Essa bagagem de dados serve como base para decisões cruciais de marketing, cadeia de suprimentos e financiamento. O novo estudo de “Arquitetura da Decisão” corrobora isso ao focar em como essas informações são processadas para gerar resultados.
Wagner Alledo
Arquitetura de decisão da elite
O estudo revelou que o grupo de alta performance se diferencia das demais empresas ao traduzir a arquitetura da decisão em práticas comportamentais, distanciando-se de discursos vagos. Confira o resumo dessas ações.
Prática versus discurso de dados
Falar sobre a importância dos dados é trivial, tanto que 72% das empresas comuns rotulam os dados como ativos estratégicos. O diferencial da elite é a ação: 77% das empresas de alta performance mudam de opinião quando os dados provam um caminho diferente do que o líder pensava, em comparação com apenas 63% das outras empresas.
Segurança psicológica ativa
Embora muitas dimensões culturais influenciem o negócio, a segurança psicológica é a única dimensão que estatisticamente diferencia o grupo de elite das outras empresas. Ambientes psicologicamente seguros dão à empresa cerca de 3 vezes mais chances de figurar no topo do desempenho. É um espaço onde as pessoas não se silenciam por medo de parecerem ignorantes ao perguntar, incompetentes ao admitir erros ou ousadas demais ao propor ideias.
Liderança ativa na IA
A alta performance se destaca por líderes que assumem as rédeas da transformação, direcionando onde a tecnologia gera valor e apoiando ativamente as iniciativas de IA (61% de apoio explícito da alta gestão na elite versus 42% nas comuns).
Menos centralização familiar
Nas empresas familiares de alta performance, o nível de controle e influência excessiva exercido de maneira fechada pela família é significativamente menor (média de 2,8 contra 3,6 nas demais, em escala de 1 a 5). Essa descentralização destrava a agilidade corporativa e permite que contrapesos saudáveis e conselhos independentes atuem.
Foco na “dupla ignição”
As empresas que de fato se consolidam no grupo de elite possuem lideranças posicionadas na chamada área de excelência decisória, combinando dados e experiência de forma equilibrada para gerar crescimento de receita anual superior.