- Empresas brasileiras estão em transição para o uso da inteligência artificial, reconhecendo sua importância estratégica, mas ainda com investimentos limitados e governança incipiente.
- Pesquisa da Meta e Fundação Dom Cabral revela que 43,3% das empresas destinam menos de 1% do orçamento à IA e 68,3% não possuem núcleo dedicado à governança de IA.
- A falta de conhecimento especializado, maturidade organizacional e subutilização de dados dificultam a institucionalização da IA, impactando a competitividade e inovação no setor empresarial.
As empresas brasileiras vivem um momento de transição em relação à adoção de inteligência artificial em suas rotinas corporativas. O “Estudo sobre Inteligência Artificial Aplicada à Estratégia”, conduzido pela Meta, empresa de estratégia empresarial, em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), mostrou que as organizações avançaram na compreensão conceitual da IA, mas ainda enfrentam desafios significativos para transformar tecnologia em inteligência aplicada. Esse intervalo entre intenção e execução é onde se concentram os principais gargalos e também as maiores oportunidades da próxima etapa da transformação digital.
O estudo revelou que, neste momento de transição, há um elevado nível de reconhecimento da IA como estratégia empresarial. Do total de entrevistados, 82,5% classificaram a IA como relevante, sendo que 34,2% a consideram “importante”, 30% “muito importante” e 18,3% como “extremamente importante”. Apenas 16,6% dos respondentes consideraram a IA “pouco importante”.
Os resultados consolidam a tecnologia como um dos principais vetores de competitividade no ambiente empresarial brasileiro, mas o alto grau de reconhecimento da importância da IA ainda não se traduz em investimentos robustos ou estruturas de governança sólidas.
Maioria das empresas tem perfil “seletivo”
Dentre os dados pesquisados, 43,3% das empresas destinam menos de 1% de seu orçamento total à IA. Um percentual elevado delas, 68,3%, não possui um núcleo dedicado à governança de projetos de IA. Do total estudado, os respondentes foram classificados conforme sua visão deste momento de transição para a IA. A maioria das empresas (50,9%) possui um perfil “seletivo”, tratando a inovação de forma pontual e focada em retornos financeiros imediatos.
Foram considerados “otimizadores” 37,5% dos entrevistados, ou seja, neste patamar a inovação define os principais investimentos. Mas apenas 11,6% das empresas se classificaram como “visionárias”, ou seja, entendem os investimentos em inovação como determinantes para a organização no futuro, sinalizando uma orientação voltada ao longo prazo.
O levantamento ouviu mais de 100 CEOs e executivos de empresas brasileiras e multinacionais, distribuídas em 20 setores da economia, oferecendo um retrato do estágio atual de adoção da IA nas organizações neste momento de transição. Dos setores pesquisados, destacaram-se os serviços financeiros (13,3%), indústria (12,5%) e tecnologia da informação (11,6%), que são os mais impactados pela digitalização, automação e uso intensivo de dados.
Serviços financeiros, indústria e TI são destaque na pesquisa
A maturidade e os objetivos variaram conforme o setor. Na indústria, o foco é na automação de processos e redução de custos, mas há limitações em relação às infraestruturas físicas. Já a área de tecnologia é o setor mais avançado em diversidade de uso (IA generativa, agentes autônomos), mas sofre com a alta rotatividade e dificuldade de escalar competências internas. Nos serviços financeiros, há busca por equilíbrio entre eficiência e experiência do cliente, com sua evolução condicionada por rigorosas exigências de conformidade e governança.
De uma forma geral entre os setores, alguns dados retratam a falta de maturidade das corporações para implementação do uso estratégico da IA de forma efetiva neste momento de transição.
O estudo descobriu que, do total pesquisado, 80% das organizações não realizam análises recorrentes de maturidade em IA; 74% não possuem práticas estruturadas de gestão de riscos; 23,2% não definiram métricas formais para avaliar resultados; e 66,7% não utilizam técnicas avançadas de machine learning ou deep learning, indicando que a maioria das empresas consome ferramentas prontas, mas ainda não desenvolve inteligência proprietária baseada em seus próprios dados.
Obstáculos para implementação da IA

O estudo também mostra que muitas empresas utilizam a IA principalmente para automação e ganhos incrementais de eficiência operacional, sem avançar para aplicações transformacionais com novos modelos de negócio. De acordo com as lideranças que participaram do estudo, existem quatro principais obstáculos para a adoção de IA.
1. Falta de conhecimento especializado
Citada por 42,7% dos executivos, a falta de conhecimento é apontada como o maior entrave para avançar na adoção da IA. Desafios relacionados à integração com sistemas legados, custos de implementação e preocupações com segurança e conformidade também figuram entre as principais barreiras.
2. Maturidade organizacional limitada
43,3% das empresas investem menos de 1% do orçamento total em IA, e uma parcela relevante não conta com estruturas dedicadas à gestão dessas iniciativas. A presença de especialistas em inteligência artificial na alta liderança ainda é restrita, o que dificulta a consolidação da tecnologia como eixo estratégico transversal às áreas de negócio.
3. Dados subutilizados
Embora a base tecnológica seja tratada como prioridade por 70% das empresas e metade delas já tenha adotado arquiteturas como data lakes, apenas 10% utilizam essa infraestrutura como base para análise avançada e IA.
4. Falta de letramento e capacitação
O capital humano especializado é um dos principais gargalos desse processo, já que a IA ainda não figura como prioridade nas agendas de capacitação e desenvolvimento de pessoas de 55,8% das empresas.
Desafio está nos custos operacionais

Um dos responsáveis pela pesquisa, Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da FDC e pós-doutor pela Sauder School of Business, Canadá, pontuou que verifica-se um grande aquecimento e percepção estratégica para o uso da IA nas empresas brasileiras, mas com desafios consideráveis sobre o real impacto destas iniciativas nos custos operacionais e medidas de retorno sobre o investimento.
“Muito se fala sobre o futuro tecnológico, mas ainda existe uma lacuna sobre os benefícios registrados. As empresas de grande porte conseguem gerar resultados, pois também têm desafios enormes em melhorias de processos e alocação de recursos em atividades rotineiras. Já para as empresas de médio porte, o caminho ainda é longo, em busca da maturidade digital, riscos cibernéticos e uma cultura real para a inovação tecnológica”, analisou o professor.
No atual momento de transição, a inteligência artificial deixou de ser experimental, mas ainda não atingiu um nível de institucionalização compatível com sua relevância estratégica. O desafio central já não é acesso à tecnologia, mas capacidade de decisão, coordenação e execução em nível executivo.
É preciso integrar a IA ao modelo de negócio
“A IA já aparece no discurso estratégico da maioria das empresas, mas ainda necessita se consolidar como uma capacidade organizacional estruturada. Muitas organizações permanecem presas a pilotos ou aplicações pontuais voltadas à eficiência operacional. Esses usos são importantes, mas o potencial da IA vai além. O próximo ciclo não será liderado por quem adota IA, mas sim por quem a integra ao modelo de negócio com governança, métricas claras e responsabilidade executiva. A diferença entre tratar IA como projeto ou como estratégia é o que vai definir a vantagem competitiva nos próximos anos”, concluiu Telmo Costa, CEO da Meta.
Além de Hugo Tadeu, foram responsáveis pela pesquisa Jersone Tasso, professor associado do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da FDC e pós-doutor pela University of Texas at El Paso, EUA; Marianna Almeida, pesquisadora do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais e graduanda em Administração pela FDC; e Rafael Cavalcante, pesquisador do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais e graduando em Administração pela FDC.