- Empresas como Adobe e PayPal antecipam períodos sabáticos para prevenir burnout e melhorar o bem-estar dos colaboradores diante da "grande exaustão".
- Relatório da WGSN Insights e pesquisa da Harvard Business Review mostram que períodos sabáticos promovem recuperação, novas habilidades e mudanças positivas na carreira.
- No Brasil, o período sabático é raro devido a barreiras financeiras, culturais e legais, mas começa a ser adotado como estratégia de retenção e desenvolvimento de talentos.
A “grande exaustão”, fenômeno que tem atingido vários profissionais, acendeu uma luz de atenção em corporações como PayPal, Meta e Adobe. Segundo o relatório Consumidor do Futuro, elaborado pela consultoria WGSN Insights, uma das estratégias das companhias citadas é antecipar o chamado período sabático, como um mecanismo para tentar evitar a incidência de burnout.
O primeiro ponto a considerar é a definição de período sabático, que pode variar de país para país, oscilando entre um período de afastamento de três meses a um ano. É um momento estratégico para que os colaboradores recarreguem sua energia, podendo aprender novas habilidades ou, simplesmente, encontrando mais tempo para ficar com a família.
Na Adobe dos Estados Unidos, o benefício do período sabático é oferecido para os funcionários regulares que tenham completado pelo menos cinco anos de emprego contínuo e com uma rotina de dedicação de pelo menos 24 horas por semana. Se for aprovado no programa, o colaborador pode tirar o tempo de afastamento em até dois anos.
A duração depende do tempo de casa. Para aqueles que têm cinco anos de trabalho contínuo, o período é de 20 dias úteis. O afastamento será de 25 dias úteis para quem tem dez anos de empresa e 30 dias úteis para os que completaram 15. Depois disso, a cada cinco anos o colaborador poderá tirar 30 dias úteis.
A Autodesk americana também tem um programa similar ao da Adobe, com a diferença que os intervalos são de quatro anos entre os pedidos e o funcionário precisa trabalhar pelo menos 30 horas semanais. São quatro semanas de licença, que precisam ser tiradas de uma só vez. Nesse tempo, os profissionais recebem 100% do salário e os benefícios atuais.
Período sabático promove mudanças positivas

Segundo pesquisa publicada na Harvard Business Review, o período sabático traz mudanças significativas e positivas na vida profissional e pessoal. No levantamento citado, que ouviu 50 profissionais após a experiência de afastamento programado, as experiências foram classificadas em três tipos: férias de trabalho, mergulho livre e missões.
No primeiro caso, os profissionais alternaram tempos intensos dedicados ao trabalho com paradas de descanso. Para esse grupo, a volta à função foi um processo comum e sem pedidos de demissão.
A modalidade de mergulho livre envolveu a sede de viajar, numa transição rápida e intensa. Outra característica em comum foi a alternância entre exploração e recuperação. De acordo com o estudo, a maioria voltou à profissão, mas não ao trabalho. Traduzindo: buscaram novos projetos, arranjos ou cargos mais adequados aos seus talentos e valores.
A terceira categoria – missões – foi a mais radical, porque envolveu profissionais que foram “empurrados” para uma parada obrigatória em função de viverem experiências exaustivas e culturas organizacionais tóxicas. As mudanças também foram drásticas, caso da estrategista de tecnologia que fundou uma clínica de bem-estar, e do gerente de marketing que optou pela fotografia da vida selvagem como nova opção profissional.
Um dado interessante da pesquisa da HBR é que vários profissionais trabalharam durante seu período sabático, mas em outras atividades. Detalhe: a opção não foi só boa do ponto de vista de remuneração, como trouxe benefícios reais, inclusive revelando novas carreiras.
Entre os CEOs entrevistados, a experiência foi importante para planejar a sucessão e também para analisar como suas corporações se comportaram sem a presença deles.
Período de ausência deve ser planejado
Para os profissionais que estão pensando nessa possibilidade, a revista Forbes reuniu um grupo de coaches e criou um guia com 16 dicas para organizar um período sabático.
As orientações começam com o estabelecimento de expectativas realistas e termina com o conselho de planejar bem o processo, inclusive tendo em mente que se trata de um tempo para se alegrar, refletir e relaxar.
As orientações incluem aspectos básicos, como ter uma poupança para dar conta do tempo de afastamento, até insights interessantes, como conversar ocasionalmente com os colegas de trabalho que estão operacionais.
No Brasil, o período sabático ainda é raro e, para especialistas ouvidos pelo jornal Valor, o processo envolve não só questões financeiras como também culturais e legais. A mesma reportagem indica que algumas iniciativas locais adotam o afastamento programado como estratégia de retenção e desenvolvimento de talentos.