- Em artigo, o professor Artur Neves, do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral, destaca que acionistas e herdeiros de empresas familiares enfrentam o desafio de definir um Ecossistema de Governança Corporativa (EGC) que se alinhe à cultura e características dos núcleos familiares, visando a perpetuidade do negócio e a clareza nas responsabilidades.
- A construção conjunta do EGC envolve a elaboração de documentos como Protocolo de Família e Código de Conduta, promovendo o diálogo intergeracional e o alinhamento nas expectativas e decisões estratégicas.
- O sucesso na implementação do EGC depende da maturidade dos núcleos familiares em discutir e estabelecer regras que garantam a continuidade dos negócios e o fortalecimento das lideranças futuras.
Acionistas e/ou herdeiros de empresas familiares enfrentam o desafio de identificar o modelo de Ecossistema de Governança Corporativa (EGC) mais adequado à sua realidade, considerando sua cultura empresarial e as características próprias dos núcleos familiares envolvidos.
Em geral, o desejo dos controladores é dotar a companhia de uma estrutura que permita:
- conceituar um EGC, de forma que a estratégia reflita os diversos propósitos e visões dos núcleos controladores, norteando os negócios no longo prazo;
- elaborar um Mapa de Prioridades, identificando os possíveis caminhos estratégicos e atribuindo papéis e responsabilidades claras a acionistas, herdeiros e gestores;
- estabelecer premissas e acordos que garantam a perpetuidade do negócio, assegurando um processo sucessório pacífico;
- promover o alinhamento societário e o compartilhamento das regras decisórias entre os núcleos familiares, notadamente sobre as possibilidades de futuro dos negócios;
- alinhar as expectativas dos núcleos familiares e sistematizar os papéis dos agentes do EGC e as competências dos respectivos órgãos que o compõem.
Em negócios familiares maduros, os acionistas frequentemente se preocupam com a formação das lideranças executivas e com a preparação dos membros do núcleo familiar para o futuro desejado.
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O debate aberto sobre o tema entre as partes interessadas estimula esses membros a compreenderem, de forma ativa, a jornada do EGC — conforme ilustrado no gráfico a seguir.

O quadro apresenta, de forma concreta, o desafio de construir o envolvimento geracional e instrumentos que eventualmente estarão presentes na jornada do ESG.
Os representantes das diferentes gerações dos núcleos familiares encontram, na abordagem de que governança é um ecossistema, instrumentos concretos que os auxiliem a tomar decisões em três frentes fundamentais:
- resolução das questões de liderança dos núcleos familiares e sua representação nas questões relacionadas aos rumos do negócio;
- direcionamento estratégico frente ao desafio da perpetuidade organizacional;
- criação de mecanismos eficazes para a condução do dia a dia empresarial.
A identificação do momento adequado para a construção conjunta da jornada do EGC é um elemento de grande valor. Um bom grau de maturidade é demonstrado quando se estabelecem as regras de deliberação sobre os interesses dos núcleos familiares no momento oportuno.
A construção conjunta da jornada do EGC permite que os envolvidos reflitam não apenas sobre o futuro dos negócios, mas também sobre o futuro de cada núcleo e de seus membros familiares. Isso desenvolve uma “linha mestra” de conduta e avaliação, que orientará a forma de ver e negociar suas aspirações, compromissos mútuos e responsabilidades.
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A necessidade de organizar os núcleos familiares demanda que alguns documentos sejam elaborados, tais como Protocolo de Família, Código de Conduta dos membros da Família e outros instrumentos que reforcem o alinhamento, a transparência e o compromisso entre gerações.

O EGC estabelece também em seu escopo de influência o regramento das três esferas que fazem parte do encadeamento de solução de temas importantes.

Assim, a construção de um EGC em empresas familiares não é sinônimo de definição de normas, mas um exercício de diálogo e alinhamento entre as gerações. É fator de sucesso envolver os núcleos familiares nas discussões de longo prazo do negócio e da própria sustentabilidade familiar.
Por Artur Neves – Professor do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros (PDC) da Fundação Dom Cabral (FDC)