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Educação financeira traz expectativa para classes D e E

Empresária Bia Santos explica como classes populares e instituições bancárias podem se aproximar

educacao financeira Bia Santos (Foto: Homero Xavier/Fundação Dom Cabral)
por Redação 26 de junho, 2024
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Pode parecer impossível, mas as classes D e E podem gerir melhor seu dinheiro e se aproximar de investimentos, empréstimos e empreendedorismo. A chave é a educação financeira, defendida por Bia Santos, CEO e fundadora da Barkus, uma edtech que visa democratizar o acesso a instituições que lidam com dinheiro. Para Bia, não apenas as classes populares perdem com o distanciamento dos bancos e instituições afins, que falam uma língua diferente de sua realidade, como também o próprio mercado financeiro e o país, devido ao número expressivo de pessoas minorizadas.  

Atualmente aluna do Executive MBA da Fundação Dom Cabral (FDC), Bia Santos é uma jovem estrela do empreendedorismo e da diversidade. Aos 28 anos, negra e nascida na periferia da cidade do Rio de Janeiro, acumula funções de prestígio: é conselheira da cidade do Rio de Janeiro na área de Equidade e Inclusão e conselheira consultiva do BNDES Garagem, programa de aceleração de negócios sociais. Seu nome também foi incluído na lista Forbes Under 30, que reúne empreendedores de destaque abaixo dos 30 anos.

Nesta entrevista ao Seja Relevante, Bia fala sobre diversidade e conta como a educação financeira pode transformar a vida das classes populares e também das classes média e média alta, que igualmente sofrem com essa lacuna.

Você atua como empresária e conselheira em diversas organizações. Até poucos anos, não era comum uma mulher, negra, vinda da Zona Norte do Rio de Janeiro, estar nessa posição. Como você vê essa mudança? 

Bia Santos (Foto: Homero Xavier/Fundação Dom Cabral)

Quando olhamos para o cenário dos Conselhos, ainda estamos muito atrasados. Ainda é baixíssima a representatividade, principalmente de mulheres negras, o recorte de gênero e de raça. Mas, há um avanço nos ambientes corporativos e hoje a diversidade é uma pauta séria. Isso se espelha na área dos Conselhos. 

A diversidade vai para além da questão de justiça social. Ela traz essa perspectiva do diferente, de diversas experiências, visões… Temos percebido o quanto ter essa diversidade, esse olhar diferente, faz com possamos evoluir nas pautas, resolver problemas complexos e, assim, gerar uma bola de neve muito positiva. Então, se hoje temos mais de 50% da população negra, eu espero que mais de 50% das diretorias, dos Conselhos e dos espaços sejam frequentados por pessoas negras. Da mesma forma com as mulheres, das classes sociais. Acho que a gente tem avançado, mas ainda tem bastante trabalho pela frente.

O foco da Barkus é democratizar o acesso à educação financeira, principalmente para os grupos mais vulneráveis. Qual é a importância de olhar para esse público? 

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© – Shutterstock

Quando analisamos grupos em vulnerabilidade ou minorizados, estamos falando de 90, 95% do Brasil. Então, quando não temos ações voltadas para a educação e para a inclusão desse público no nosso sistema financeiro, estamos falando de uma perda gigantesca. Não para a conquista de um país menos desigual, mas em perda financeira também. Estamos falando da própria economia do país: é preciso fazer a inclusão dessas pessoas para que elas consigam, a partir dos serviços financeiros que evoluíram muito, usufruir disso. Aí entra a educação financeira.

Nós temos, de fato, serviços e produtos que atendem diferentes públicos, inclusive pessoas das classes mais baixas. Mas não temos uma população apta para acessar esses serviços. Então, o meu grande objetivo sempre foi conseguir fazer essa conexão, desmistificar como funciona o sistema financeiro, os produtos e os serviços. 

A educação financeira é uma baita chave para acelerar esse processo de aproximação no Brasil. A Barkus foi criada exatamente por esse motivo, trazendo as pessoas para pensar a solução de forma conjunta. Assim, conseguimos desenvolver um produto que tem tido os melhores resultados em comparação a outros no mercado, além da educação financeira, para esse público especificamente.

Precisamos sempre olhar para esse público, porque é com quem as grandes instituições não conseguem se comunicar. A linguagem não bate, tem uma questão de desconfiança, existe uma dificuldade de incluir grupos vulneráveis no nosso sistema. Então, conectamos o meu propósito com uma necessidade de mercado também.

Lidando com pessoas de grupos minorizados, você vê que a pauta financeira tem uma parcela relevante no adoecimento mental desse público?

Existe uma grande conexão. Não é à toa que cada vez mais tem crescido a área de psicologia econômica e de economia comportamental, que fala muito sobre como as finanças interferem na vida das pessoas e como as pessoas também interferem diretamente na economia do país.

Existem camadas desse adoecimento. Quando vemos uma pessoa de classe média, classe mais alta, a falta de educação financeira também interfere muito na saúde mental. Muitas vezes, é por falta de ferramentas e conhecimento que ela não tem um planejamento melhor da vida financeira, não sabe como sair de um endividamento ou de uma inadimplência.

Mas, quando você olha para as classes D e E, percebe o quanto o problema é a falta do recurso. Óbvio que a educação financeira pode ajudar, mas aí vem um olhar muito sensível, que é entender que eu não posso falar para essa pessoa que ela tem que poupar 30% do recurso dela por mês, porque ela não vai conseguir poupar todo este percentual. Porque está faltando, ela não tem sobra. Não é sobre fazer sobrar, é sobre não ter como sobrar.

Então, para esse público, é preciso ter um olhar de educação financeira que vai para além do básico de aprender a poupar e se organizar. Muitas vezes essas pessoas já são organizadas. Inclusive eu sempre brinco que o meu maior exemplo de educação financeira era acompanhar mães que moravam na favela, com quatro ou cinco filhos, que conseguiam dar de comer para as crianças com dois salários mínimos. Se isso não é uma boa gestão financeira, então, o que é?

Que ferramentas há no sistema financeiro para estas classes sociais?

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© – Shutterstock

A educação financeira pode ajudar famílias de baixa renda a melhorarem a gestão do dinheiro, a entenderem quais ferramentas estão presentes no próprio sistema financeiro que podem contribuir com sua melhoria de vida. Como eu consigo pegar um empréstimo no momento certo para conseguir catapultar os estudos? Ou um espaço melhor de moradia, uma obra, uma questão de saúde… Enfim, coisas para que as pessoas tenham mais qualidade de vida e que gerem um melhor emprego. Então, a educação financeira é uma ferramenta muito importante, mas ela tem que ser vista de uma outra forma.

Trazemos o empreendedorismo muito conectado com a educação financeira também. Em muitos casos, vimos famílias utilizando o empreendedorismo como uma opção de renda extra. Entendíamos quais eram as competências que eles tinham e como conseguiam montar um pequeno negócio.

Tudo isso está relacionado à educação financeira. A questão é que, muitas vezes, as pessoas focam em conceitos como “poupe”, “invista”… E isso é a ponta do iceberg. Existem muitas camadas que podem ser utilizadas de forma consciente e que podem ajudar essas famílias. São camadas essenciais para ajudar famílias de baixa renda a conseguirem evoluir e diminuir essa desigualdade. Ir para o próximo passo.

Temos, inclusive, vários casos legais na Barkus de pessoas que conseguiram terminar a faculdade porque viram no empreendedorismo uma saída. A pessoa passou a entender como lidar melhor com o dinheiro, quais as prioridades, e assim conseguiu melhorar sua situação. 




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