- A Döhler S.A., com 143 anos de história, enfrenta desafios na indústria têxtil brasileira, como a forte concorrência asiática e altos custos de produção, com foco na modernização e digitalização para manter sua competitividade.
- A empresa produz cerca de 1,2 mil toneladas de tecido por mês, empregando 2,5 mil pessoas, mas enfrenta dificuldades em atrair mão de obra qualificada e reter talentos no setor.
- César Döhler, diretor financeiro, destaca a importância da automação e da capacitação contínua, ressaltando a necessidade de tornar a indústria mais atrativa para os jovens, a fim de combater o apagão de mão de obra.
Com 143 anos, a Döhler S.A. mantém em Joinville uma operação verticalizada que vai do fardo de algodão ao produto acabado. A empresa produz cerca de 1,2 mil toneladas de tecido por mês, com 500 teares e 2,5 mil funcionários, e aposta na digitalização para manter a competitividade em um setor pressionado por custos elevados e pela concorrência asiática.
César Döhler é diretor financeiro e representa a quinta geração da família no comando da empresa. Nesta entrevista ao Seja Relevante, ele avaliou que a automação se torna condição sine qua non para a competitividade, mas ela demanda capacitação contínua, inclusive da gestão. A carga tributária é citada como desafio, assim como a falta de mão de obra qualificada e a dificuldade em atrair jovens para a linha de produção. Acompanhe.
Como está estruturado o negócio da Döhler?

A Döhler é uma empresa verticalizada. Compramos o fardo de algodão, produzimos o fio, o tecido e fazemos todo o acabamento até chegar à confecção e ao cliente final. Atuamos em duas frentes: a linha varejo e a linha de tecidos a metro. O carro-chefe são as toalhas felpudas de banho, rosto e mesa, além de roupões e roupas de cama. Produzimos também tecidos para decoração, colchões e calçados, e fornecemos para diferentes tipos de clientes, inclusive as Forças Armadas e enxovais para hotéis e hospitais. A nossa unidade de produção fica em Joinville.
E como você avalia o momento da indústria têxtil no Brasil?
O setor vive um momento complexo. A competição com a Ásia (China, Paquistão e Bangladesh, principalmente) é muito forte. O tecido importado chega a preços menores que os nossos. Estamos tentando, junto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, construir um equilíbrio nesse sentido. Somos favoráveis à concorrência, mas ela precisa ocorrer em condições justas.
Qual é o peso da carga tributária nessa equação?
Mesmo com imposto de importação, o produto estrangeiro sai mais barato. A carga tributária pesa, mas também há custos elevados com energia e mão de obra. A matriz energética brasileira é cara — tanto a eletricidade quanto o gás natural, que usamos como fonte limpa para gerar vapor nas máquinas. Como comparação, o Paraguai oferece energia 30% mais barata que a nossa. Além disso, quando contratamos alguém, o custo total é praticamente o dobro do salário. Uma pessoa que recebe R$ 2 mil por mês custa cerca de R$ 4 mil para a empresa. Tudo isso entra na planilha e afeta a linha final, do lucro.
Qual é a escala de operação da Döhler hoje?
Produzimos cerca de 1,2 mil toneladas de tecido por mês. Temos aproximadamente 500 teares em operação e um quadro de 2,5 mil colaboradores. O setor têxtil é intensivo em mão de obra e, portanto, atrair e reter talentos é um dos nossos maiores desafios. As máquinas podem ser compradas, mas pessoas qualificadas são cada vez mais raras. O apagão de mão de obra é real. Para se ter ideia, visitamos recentemente a Whirlpool, que fabrica a linha branca em Joinville, e me chamou atenção ver que 10% dos funcionários lá são venezuelanos e haitianos. Isso mostra a dificuldade que o Brasil enfrenta para preencher postos de trabalho industriais.
E como a digitalização e automação industrial é vista por vocês nesse cenário?
Estamos investindo nisso. Inclusive, a presença no Foresight, Tech & IA na Sala do Conselho – um programa da Fundação Dom Cabral dedicado a conselheiros e C-Levels – é nesse sentido [esta conversa ocorreu durante a edição do Foresight de novembro, em São Paulo, onde César Döhler foi um dos participantes]. A inteligência artificial já faz parte do nosso cotidiano e sabemos que a automação é essencial para a competitividade e produtividade do negócio. É importante diferenciar que digitalizar não significa eliminar empregos. Pelo contrário: a ideia dela é facilitar processos e manter o protagonismo das pessoas. Há um esforço conjunto do Senai e da FIESC (Federação das Indústrias de Santa Catarina), para incentivar os jovens a trabalharem na indústria.
Você vê risco de o setor perder novos talentos para outras áreas?
Sim. Muitos jovens não querem mais trabalhar no operacional. Por isso, precisamos tornar a indústria mais atrativa, mostrar que é possível inovar e crescer dentro dela. O conceito de aprendizado contínuo (lifelong learning) é fundamental. E é por isso que, quem estiver capacitado digitalmente, vai se manter no mercado sempre.
O curso de Foresight foi uma iniciativa pessoal ou institucional?
Foi uma decisão conjunta. O presidente do Conselho de Administração, que por acaso é meu pai, leu uma matéria da imprensa sobre o curso e sugeriu que participássemos. Ele me chamou e chamou também o gerente de TI. Estamos muito satisfeitos com o conteúdo e com a oportunidade de aprofundar o conhecimento em tecnologia e inteligência artificial com vistas para o futuro.
Entendi que a Döhler é uma empresa familiar, mas também vimos que ela tem 143 anos de existência. Quem a fundou?
Foi o meu trisavô, Carl Döhler. A Döhler foi fundada em 6 de dezembro de 1881. O meu trisavô veio da Alemanha com 6 quilos de fios de algodão na bagagem e montou um tear artesanal. Produziu o primeiro metro de tecido e o batizou com cachaça, para dar sorte. Até o momento está funcionando e já estamos na quinta geração sob o controle da empresa.
Acredito que esse resultado é fruto de atualizações constantes. Neste momento, por exemplo, estamos cursando o programa PAEX – programa da Fundação Dom Cabral em parceria com a Fundação Fritz Müller, de Santa Catarina. Também participamos do Programa de Desenvolvimento de Dirigentes e do Curso de Formação de Conselheiros da FDC. Agora, com o Foresight, estamos aprofundando o olhar sobre tecnologia da informação e gestão digital.
E como está estruturado o Conselho da empresa?
Temos um Conselho de Administração com seis membros. São cinco famílias acionistas, cada uma com um assento, e um conselheiro externo. A diretoria também conta com representantes de cada grupo familiar. O corpo gerencial é profissionalizado e o próximo passo é ampliar essa profissionalização para a diretoria e o Conselho. Esse processo está em curso e deve se intensificar nos próximos anos.