– Dirlene Silva, economista e ex-executiva do mercado financeiro, fundou a DS Estratégias de Educação e Inteligência Financeira em 2020, influenciada por eventos como os assassinatos de George Floyd e João Alberto, que intensificaram o debate sobre racismo estrutural e diversidade.
– Ela é conselheira de coletivos que promovem a presença de mulheres negras em posições de liderança e atua em instituições como o Conselhão e a ONG Artigo 19, além de ser professora em escolas de negócios.
– Dirlene destaca a importância da diversidade nos conselhos de administração como uma questão de justiça social e inovação, enfatizando a necessidade de aliados para romper barreiras e promover mudanças significativas.
Resumo supervisionado por jornalista.Egressa do mercado financeiro, a economista Dirlene Silva empreende desde 2020, em uma sinalização de mudança de carreira que tem contexto na pandemia e nos episódios de George Floyd, nos EUA, e de João Albert, no Rio Grande do Sul. De certa forma, o assassinato desses dois homens negros levou à formação de movimentos militantes relacionados à pauta racial no período, estimulando intelectuais como Dirlene a buscarem soluções comunitárias e pessoais, como embate ao racismo estrutural evidenciado naquele momento.
Desde então, Dirlene fundou e atua como CEO da DS Estratégias de Educação e Inteligência Financeira. Também é Conselheira da C101 – um coletivo de mulheres negras executivas que trabalha para ampliar suas presenças em posições de liderança. Ela também é conselheira da Comissão de Assuntos Econômicos da Presidência da República (o Conselhão), além de professora de educação executiva do Insper e conselheira fiscal da na ONG Artigo 19 e no CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Social), que é uma organização da sociedade civil dedicada a promover a qualidade e a equidade na educação pública brasileira.
O Seja Relevante conversou com Dirlene em novembro, durante o Foresight, Tech & IA na Sala do Conselho – um programa da Fundação Dom Cabral voltado para conselheiros e C-Levels, com foco na conexão de tecnologia, ética e estratégia para promover crescimento sustentável, geração de valor e perenidade organizacional. Acompanhe os principais trechos da conversa.
Qual é a sua visão sobre conselhos de administração?

A diversidade nos conselhos é uma questão de justiça social, mas também de negócio. Empresas precisam de inovação, e inovação nasce de diferentes perspectivas. Pessoas com trajetórias diversas pensam de formas diversas. Essa pluralidade é o que impulsiona resultados. Eu tenho mais de 35 anos de carreira, 20 deles em cargos de gestão. Sou de Porto Alegre e, no ambiente em que trabalhei como executiva, uma mulher negra era algo raro. Isso me marcou. Muitas vezes me senti sozinha, até que me tornei conselheira do C101, onde me senti acolhida ao encontrar pessoas com trajetórias parecidas com a minha.
Fale mais um pouco do C101, por favor?
Estamos formando agora a turma seis, com 41 mulheres negras e indígenas [apenas neste grupo]. Eu sou da turma 3, que tinha 25 participantes. As duas primeiras turmas também reuniram um bom número de pessoas. Desde o começo, portanto, o grupo se consolida e cofundadoras, como Jandaraci Araújo e Lisiane Lemos, são inspiradoras. Elas perceberam que, embora se discutisse a presença de mais mulheres em conselhos, as mulheres negras ainda não estavam chegando. A Lisiane veio do setor de tecnologia, com passagens por Google e Microsoft, e hoje é secretária do governo do Rio Grande do Sul. A Jandaraci está no Conselho da Vale e em outros conselhos de empresas também.
Quais são essas barreiras?
É muito difícil entrar. Estou em alguns conselhos, inclusive no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, o Conselhão, mas o número de mulheres negras nesses ambientes ainda é muito pequeno. No meu grupo aqui no Foresight da FDC, por exemplo, são 31 pessoas, e só seis são mulheres. Mulher negra, apenas eu. O acesso ainda depende muito de redes restritas, dos “amigos do tênis”, do “beach tênis”. É preciso abrir o olhar para fora e valorizar trajetórias e competências, não apenas as conexões sociais.
Como os chamados “aliados” são importantes nesse movimento?
Para que mulheres negras avancem, precisamos de aliados. São sponsors que usam sua posição para abrir portas. Como diz Jandaraci Araújo, se para mulheres o teto é de vidro, para mulheres negras ele é blindado. E só com aliados é possível romper esse limite.
A Grazi Mendes, sua colega no Conselheira C101, falou ao Seja Relevante sobre “seviração”, que seria algo como a capacidade de se virar diante de adversidades. Você se identifica com esse conceito?
Totalmente. Acho que não existe uma pessoa negra bem-sucedida hoje que não tenha um passado de “seviração”. A necessidade de resolver problemas desde cedo desenvolve uma capacidade natural de inovação. Costumo provocar as empresas com essa reflexão: quem resolve melhor problemas é quem nunca teve um ou quem sempre precisou se reinventar para seguir em frente? A resposta é óbvia.
Como foi a sua história profissional, Dirlene?
Comecei na área contábil e migrei para a financeira. Foram 20 anos como especialista em finanças, até me tornar uma executiva generalista. Sempre fui curiosa. Quis entender o que era ser generalista e me candidatei a uma vaga de head administrativa-financeira. Fui contratada e permaneci dez anos na empresa. Aprendi muito e liderei diversos setores como financeiro, jurídico e RH, até que, pela primeira vez, fui demitida, durante a pandemia, em 2020. Esse momento me fez repensar o futuro: se buscaria recolocação como executiva ou empreenderia. Acabei optando pelo empreendedorismo.
Foi então que lançou a sua consultoria?
Sim, fundei a DS Estratégias de Educação e Inteligência Financeira e, quase que ao mesmo tempo, fui orientada por uma mentora a usar o LinkedIn de forma ativa, não apenas como leitora. Passei a compartilhar reflexões sobre economia e finanças e já no fim de 2020, entrei na lista de Linkedin Top Voices. Isso me projetou e gerou convites para palestras, aulas, consultorias e conselhos. Hoje, além de empresária, sou professora em várias escolas de negócio, colunista e conselheira em instituições, como o Artigo 19, CENPEC e governo.
Em que projetos de educação você está envolvida?
Faço parte de um conselho ligado ao CENPEC que atua na educação básica. Também participo do IBGC, em comissões e curadorias. O desafio agora é um assento em conselho de empresa, porque acredito que é lá que a diversidade pode gerar impacto real.
Pelo o que nos contou, a sua vida mudou bastante de 2020 em diante, ano que, além da pandemia, teve o caso de repercussão mundial com o norte-americano George Floyd. Você entende que isso influenciou a sua trajetória de alguma forma?
Sem dúvida. Em 2020 tivemos dois marcos lamentáveis: o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, e do João Alberto, no Rio Grande do Sul – o meu estado. Esses fatos chocaram a todos nós e abriram um debate urgente sobre racismo estrutural e diversidade. Naquele momento, comecei a ser chamada para debates e eventos sobre diversidade e inclusão. Mesmo sem me considerar especialista, fui convidada a dar aula sobre o tema. Depois busquei formações específicas. Fiz cursos sobre desigualdades raciais na Universidade Federal da Bahia e sobre diversidade e inclusão em várias outras instituições.
Realmente, o tema ganhou visibilidade em 2020, apesar de que, em alguns lugares, como São Paulo, ele já vinha amadurecendo. Mas em Porto Alegre, por exemplo, o debate estava apenas começando. Hoje, algumas pessoas entendem que o tema diversidade e inclusão está esfriando. Eu não concordo plenamente e digo que, mesmo que esteja, ele não voltará ao nível que era antes. Entendo que o avanço desses últimos anos foi irreversível.