Em ano eleitoral, com histórico anterior de fake news, polarização, fragilização de instituições e avanço da inteligência artificial, desenha-se um cenário complexo tanto para o período de definição do próximo ciclo de governantes quanto para a organização da sociedade com base na informação. Esse desafio, que tende a se estender para os próximos anos, foi alvo de debate durante o evento “IA, Fake News e a eleições 2026”, promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC) no campus São Paulo.

O painel, composto por jornalistas, mostrou que, desde a prensa de Gutenberg, quando a difusão da informação ganhou escala, as diferentes interpretações de um fato ou objeto de estudo levam a tensões antes reprimidas ou não tão evidentes. Dessa forma, observaram que, no campo da informação, os desafios sempre existiram, sejam eles de credibilidade, desinformação ou velocidade. O que muda, segundo o âncora e editor de política na CNN Brasil, Iuri Pitta, é a escala desses desafios, assim como a forma de consumir e exercer a atividade jornalística.

Iuri Pitta falando em um evento sobre IA, Fake News e eleições 2026, com microfone na mão e projeção ao fundo, abordando desinformação e impactos políticos.
Para Iuri Pitta, da CNN Brasil, sempre existiram desafios no combate à desinformação, mas agora eles se acentuaram com o avanço da IA (Foto: Divulgação)

Pitta explica que o conteúdo pós-internet se tornou muito mais veloz, pulverizado e com uma hierarquia diferente daquela tradicionalmente adotada pelos jornais. Para exemplificar, ele cita que, atualmente, uma notícia que circula de maneira mais rápida e intensa pode ser mais decisiva para “derrubar” um presidente do que uma capa de jornal.

É justamente o poder das redes sociais, nessa lógica de disseminação, que leva pessoas, organizações e grupos políticos a explorarem a tecnologia de maneira “dolosa”, como definiu a fundadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila. Um estudo promovido pela empresa, especializada em fact-checking, constatou no primeiro trimestre de 2026 um crescimento superior a três vezes a média diária registrada em 2024. Nesse sentido, a escala que a IA introduz para a desinformação requer um trabalho mais intenso por parte dos checadores, pois, como explicou Cristina, o desafio não consiste mais em identificar a mentira, mas em ser tão rápido quanto ela.

Com a inteligência artificial embarcada nos dispositivos eletrônicos de maior conveniência no cotidiano das pessoas, há uma exposição maior à autoridade algorítmica exercida por big techs, ao mesmo tempo em que se dá um processo de enfraquecimento de instituições historicamente críveis. Quando isso ocorre, explica o diretor-presidente da Aberje, Paulo Nassar, há implicações para a confiança. Ele cita a obra “Apocalípticos e Integrados”, de Umberto Eco, para indicar que estamos em um lugar perigoso entre os dois eixos.

“Em um período liminar, que estamos atravessando, temos que acreditar na palavra grão – de grandioso – como nossa atuação. Ou seja, como vamos fazer para que, a partir daquele grão, possamos contrapor. Acredito que o caminho é reforçar as instituições e a democracia”, reforçou Nassar.

Mensageiros confiáveis na era dos influenciadores

Paulo Nassar discursa em evento de IA, com microfone na mão, ao lado de mesas com garrafas e copos, abordando Fake News e desinformação nas eleições 2026.
Paulo Nassar, da Aberje, considera que é preciso um reaprendizado na forma de produzir e consumir informações (Foto: Divulgação)

Diante das mudanças introduzidas pela tecnologia, Cristina e Nassar convergiram sobre o estágio que o país se encontra na batalha contra a desinformação. Ainda que tenha classificado a posição como perigosa, o executivo da Aberje concordou que não há vitória ou perda, mas sim um reaprendizado. O contexto de novos rituais de produção, circulação e consumo de informação tem como um integrante relevante a figura do influenciador, que gerou opiniões diferentes entre os painelistas.

Nassar os apresentou como agentes de desinstitucionalização, contratados por marcas para obedecer esses novos rituais. Sob o conceito de “antropologia do smartphone”, observou o enfraquecimento de características consideradas relevantes nos rituais das instituições historicamente tidas como críveis, como o silêncio institucional, e identificou os influenciadores como agentes no processo de desinformação. Além disso, atentou para o impacto que esses agentes podem trazer, à medida que expandem sua participação nos diferentes setores da sociedade. Ele exemplifica que, quando parlamentares já eleitos (dentro da lógica de influenciadores) estão em um ambiente institucional, não estão como protagonistas institucionais e sim como influenciadores.

Cristina Tardaguila em evento sobre IA, fake news e eleições 2026, posando para foto em ambiente interno com iluminação suave, óculos e roupa preta.
Na visão de Cristina Tardáguila, da Agência Lupa, formar mensageiros já “doutrinados” contra a desinformação é a solução para evitar as fake news (Foto: Divulgação)

Por outro lado, a fundadora da Agência Lupa argumenta, com base em um estudo sobre mensageiros confiáveis, ser interessante trabalhar com as pessoas que, de certa forma, ocuparam e conquistaram a confiança no lugar de instituições antes tidas como as de maior credibilidade. Exemplificando, ela citas rádios comunitárias, mas também explica que formar mensageiros já “doutrinados” contra a desinformação reduz o desafio já existente. Veteranos nos Estados Unidos ou pastores no México foram levantados como oportunidades devido à sua força dentro das respectivas sociedades. 

Desafios pela frente

Os desafios tendem a persistir nos próximos anos, sendo alguns deles já conhecidos. Metanarrativas como eleições fraudadas são comuns no ciclo eleitoral globalmente, mas, como aconselha Cristina, é preciso entendê-las melhor para aprimorar os mecanismos de combate.

A executiva defende também uma atuação mais estratégica das organizações de fact-checking. Em vez de responder indiscriminadamente a toda desinformação, ela propõe priorizar conteúdos que efetivamente ganharam alcance e impacto social, uma espécie de “silêncio estratégico”.

Outro ponto de preocupação levantado foi a mudança no perfil da desinformação. Segundo ela, as verificações relacionadas à falta de contexto têm crescido, enquanto os casos de notícias completamente falsas diminuem. Esse movimento torna o fenômeno mais sofisticado, uma vez que informações incompletas ou descontextualizadas podem induzir interpretações equivocadas com maior facilidade.