Com pouco tempo? Experimente o resumo automático.

– A integração de micro e pequenas empresas (MPEs) nas estratégias de grandes corporações é considerada uma ação estratégica, vital para a construção de cadeias de valor resilientes e diversificadas, alinhando-se à agenda ESG e ao desenvolvimento social e ambiental.

– Para facilitar essa integração, é essencial simplificar processos de cadastro e compras, adaptar exigências de compliance e oferecer condições diferenciadas, como prazos de pagamento mais curtos, visando reduzir a burocracia e aumentar a liquidez das MPEs.

– Além de criar parcerias estratégicas e oferecer acesso a crédito, as grandes empresas devem tratar a inclusão de MPEs como um tema central, promovendo uma governança interdepartamental que assegure a continuidade e a competitividade do ecossistema.

Resumo supervisionado por jornalista.

A integração de micro e pequenas empresas (MPEs) na estratégia central de grandes corporações não é caridade e deve ser vista como uma ação estratégica. A mudança de mentalidade significa reposicionar as MPEs como parte integrante da agenda ESG, de desenvolvimento social, ambiental e de governança. 

Esse é o resumo do e-book “Potência na Cadeia de Valor: Como grandes empresas podem gerar valor com Micro e Pequenas Empresas“, editado pela Fundação Dom Cabral (FDC).

De acordo com o material, ao reposicionar o relacionamento com as MPEs, as grandes corporações reconhecem que cadeias de valor resilientes são sinônimo de diversificação de fornecedores e apoio a parceiros locais. O “S” de social, da agenda ESG, por outro lado, precisa de ampliação para incluir temas como compras responsáveis, inclusão produtiva e impacto na cadeia de suprimentos.

Na prática, uma das iniciativas mais importantes é destravar as exigências de compliance e as políticas de compras genéricas, pensadas para grandes fornecedores, e que acabam excluindo sistemicamente os pequenos.

Segundo o e-book, é fundamental que as grandes empresas adotem políticas de compras que reconheçam o porte e o contexto dos fornecedores, tratando desigualmente os desiguais, em vez de aplicar regras universais. 

Cadastro de compras simplificado

Um primeiro passo é simplificar os processos e cadastros, pois a burocracia excessiva impede o acesso. As empresas devem criar trilhas de homologação adaptativas por porte e risco do fornecedor, com interfaces mais simples para cadastro inicial e atendimento em linguagem acessível.

Outra recomendação é reduzir exigências formais, incluindo as múltiplas certificações para fornecedores de pequeno porte, aqueles com até R$ 360 mil/ano de faturamento, e incluir cláusulas progressivas de regularização para os que se encontram em transição, com prazo e suporte técnico.

A adoção de políticas diferenciadas, oferecendo prazos de até 14 dias para MPEs locais, é uma iniciativa que faz parte de alguns grandes grupos. Essa medida gera um impacto significativo na liquidez e engajamento dos pequenos, com impacto mínimo no caixa da grande empresa.

Um caso sensível é a adaptação do compliance e, nesse caso, a jornada pode envolver medidas escalonadas com base no porte, valor do contrato e categoria de risco do fornecedor. Isso permite a inclusão de cooperativas e microempreendedores, por meio de critérios adaptados, combinando mitigação de risco com capacitação e acompanhamento.

Para Edgar Pitta e Daniele Neutzling, autores do livro, a integração na estratégia se consolida quando as MPEs são inseridas em funções críticas do negócio e não apenas em ações pontuais.

Leia também:

Micro, pequenas e médias empresas miram em tecnologia e sustentabilidade

Microempreendedores como clientes

Três microempreendedores sorrindo em loja com prateleiras cheias de produtos, promovendo negócios locais e empreendedorismo de sucesso.
Foto: Vergani Fotografia / Shutterstock

Nessa etapa, a atitude das corporações de maior porte inclui ações como o mapeamento e engajamento territorial, ou seja, a identificação de fornecedores de acordo com seu tamanho e localização, avaliando a dependência operacional que a empresa tem de pequenos negócios, como manutenção, logística local ou vendas indiretas.

Outra frente de fortalecimento da cadeia é permitir maior agilidade no atendimento a emergências, reposição de estoque ou execução de serviços pontuais, especialmente em locais de difícil acesso, reduzindo custos logísticos e emergenciais. 

A substituição de fornecedores distantes por prestadores locais pode, inclusive, reduzir emissões de carbono, segundo os autores, que tiveram duas colaborações especiais na escrita do livro eletrônico, as especialistas Uyara de Salles Gomide e Elisângela Prado Furtado. 

Grandes organizações

Os grandes grupos também podem ser mais estratégicos ao utilizarem sua estrutura interna como pontos de venda e comunicação, para impulsionar pequenos negócios. O Assaí, por exemplo, viu seus microempreendedores como clientes centrais e motores de crescimento, desenhando seu modelo de autosserviço e atendimento personalizado para eles.

Sem governança, no entanto, o processo pode ficar estanque. A recomendação dos autores é de que as áreas de sustentabilidade, compras e operações sejam integradas em grupos de trabalho interdepartamentais. O tema, inclusive, deve ser tratado como pauta transversal de competitividade em conselhos e comitês estratégicos.

Financiamento e acesso a crédito

E, para haver governança, dados são necessários – o que pode ser feito com a inclusão de metas e indicadores-chave de desempenho (KPIs) no relacionamento com as MPEs. Uma sugestão é incluir metas ligadas à inclusão produtiva nos KPIs de suprimentos e ESG, como o percentual de compras com micro e pequenas empresas locais.

Os autores igualmente destacam a necessidade de oferecer formações práticas, com linguagem simples e segmentada, mas que estejam vinculadas com oportunidades reais de fornecimento.

O financiamento é um capítulo à parte na agenda e as grandes empresas também podem fazer diferença nesse campo. Um exemplo é o uso de sua força institucional para atuar como parte da solução no acesso a crédito, inclusive reduzindo prazos de pagamento ou antecipando recebíveis com taxas negociadas.

Elas também podem agir coletivamente, com a criação de fundos de crédito com garantias ou subsídios cruzados, além de estabelecerem parcerias com fintechs, bancos públicos e cooperativas, com a meta de garantir crédito assistido com taxas viáveis.

A experiência de grupos como Assaí, Natura e Ambev, três dos exemplos do e-book, mostra a lógica de negócio sustentável e um diferencial de competitividade da nova mentalidade. Diferente da ação social, que é pontual e sujeita a cortes, a estratégica garante resiliência, estabilidade e crescimento contínuo não só das MPEs, mas de todo o ecossistema.