• A descarbonização tornou-se fator decisivo de competitividade para empresas brasileiras, integrando sustentabilidade à estratégia de negócios e decisões financeiras.
  • O CEBDS coordena mais de 270 organizações para implementar planos setoriais de descarbonização, apoiando a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) com regras claras e previsibilidade.
  • O avanço na agenda ESG e mercado de carbono posiciona o Brasil como protagonista global, exigindo financiamento verde, governança integrada e adaptação a regulações internacionais para ampliar acesso a mercados.
Resumo supervisionado por jornalista.

O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) trabalha, desde 2016, na instituição de um Sistema de Comércio de Emissões no Brasil (SBCE). O movimento mais recente da entidade foi a entrega de um estudo que consolida contribuições das coalizões para a descarbonização, que pode ajudar a regulamentar o SBCE.

O CEBDS atualmente coordena mais de 270 organizações empresariais com a meta de apoiar a construção de planos setoriais de implementação, segundo Marina Grossi, presidente da instituição. Nessa entrevista, ela destaca, entre outros temas, o trabalho da entidade para ajudar as empresas a atender regulações internacionais e o papel da iniciativa privada no atingimento de uma economia de neutralidade de carbono. Confira os detalhes.

O quanto o Brasil avançou nos últimos 30 anos, desde que o CEBDS foi criado, em termos de sustentabilidade?

Quando o CEBDS foi criado, em 1997, a sustentabilidade ainda não fazia parte da estratégia das empresas e era um tema mais distante da gestão dos negócios. Ao longo dessas três décadas, o que vimos foi uma mudança estrutural: hoje, clima, governança e impacto social passaram a orientar as decisões empresariais. A agenda deixou de ser reputacional para se tornar estratégica. O Brasil chega a este momento com ativos muito relevantes, pois temos a maior biodiversidade do mundo, uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e um setor empresarial que já entende a transição como oportunidade de crescimento.

E o que falta avançar?

O que muda agora é o foco. Já não estamos mais discutindo “o que fazer”, mas sim “como fazer em escala”. O principal desafio é justamente transformar compromisso em investimento e investimento em impacto real. Isso exige previsibilidade regulatória, acesso a financiamento e capacidade de execução ao longo das cadeias produtivas. A base está construída e agora é hora de acelerar a implementação.

Para que a agenda ESG saísse do discurso, onde as empresas brasileiras avançaram mais?

Reunião de profissionais discutindo estratégias e projetos relacionados ao CEBDS
Foto: Tirachard Kumtanom / Shutterstock / Modificada com IA

As empresas brasileiras avançaram de forma consistente na estruturação dessa agenda, especialmente em governança, transparência e integração com o negócio. Hoje, a sustentabilidade já está mais conectada à gestão de riscos e às decisões financeiras. Isso fica claro no Reporting Matters, estudo do CEBDS que avalia a qualidade dos relatórios de sustentabilidade. Na edição mais recente, vimos que 75% das empresas já adotam dupla materialidade, ou seja, consideram tanto os impactos socioambientais quanto os riscos financeiros, e 97% utilizam o padrão internacional GRI. Além disso, 84% contam com algum nível de auditoria externa. Esses dados mostram um avanço claro na maturidade da agenda.

Mas houve entraves nessa jornada…

Os principais entraves aparecem na execução. Ainda há desafios relevantes, como o custo da transição, o acesso a financiamento em escala, a qualificação técnica e a mensuração de emissões ao longo da cadeia de valor. Na prática, muitas empresas já têm metas bem definidas, mas enfrentam dificuldades para transformá-las em projetos implementados e com impacto mensurável.

Quais setores estão mais preparados para reduzir emissões em escala?

Em termos setoriais, o Brasil tem vantagens competitivas importantes. No setor elétrico, já partimos de uma base majoritariamente renovável. Em transportes, há oportunidades relevantes com eletrificação e biocombustíveis. No agronegócio, práticas como agricultura regenerativa e recuperação de pastagens concentram grande potencial. E, na mineração, há espaço para reduzir emissões com eletrificação e uso de energia limpa.

E qual o papel do financiamento verde neste contexto?

Ele é um fator decisivo. Sem capital adequado, a transição não ganha escala. Por isso, instrumentos como mercado regulado de carbono, modelos de financiamento híbrido (blended finance) e iniciativas que conectam projetos a investidores são fundamentais. O Brasil já começa a estruturar essa agenda e o desafio agora é fazer com que ela funcione de forma consistente para transformar avanço técnico em implementação real.

Sobre governança na agenda ESG: o que diferencia empresas que conseguem avançar de forma consistente?

O principal diferencial está na integração. Empresas que avançam de forma consistente são aquelas que incorporam a sustentabilidade à estratégia do negócio, e não tratam o tema como uma agenda paralela. Isso significa levar o assunto para o conselho, conectar metas a indicadores de desempenho e, em muitos casos, à remuneração da liderança. Quando isso acontece, a sustentabilidade passa a orientar decisões de investimento, gestão de risco e planejamento de longo prazo. O Reporting Matters mostra esse movimento com clareza: o critério mais bem avaliado é justamente o de estratégia, o que indica que as empresas estão avançando na conexão entre sustentabilidade e geração de valor. Além disso, relatórios mais consistentes ajudam a reduzir assimetria de informação, fortalecem a confiança de investidores e qualificam a tomada de decisão.

Qual o potencial do Brasil para o mercado de créditos de carbono?

Floresta amazônica com rios sinuosos e uma vasta biodiversidade no Brasil
Foto: Jhampier Giron M / Shutterstock

Temos o potencial para ser um dos protagonistas globais no mercado de carbono, pela combinação de ativos naturais, como florestas e biodiversidade, com oportunidades de redução de emissões em setores como energia e indústria. De forma simples, o mercado de carbono cria um valor econômico para quem reduz emissões. Empresas que conseguem diminuir suas emissões podem gerar créditos, que são adquiridos por outras que ainda estão em processo de transição. Com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o país começa a estruturar esse mercado com regras mais claras e previsibilidade. O desafio agora é garantir a credibilidade do sistema, com regras sólidas, transparência e monitoramento confiável. Se isso for bem estruturado, o Brasil pode transformar seu potencial em uma vantagem competitiva relevante na economia de baixo carbono.

Como as novas regulações internacionais impactam as empresas brasileiras exportadoras?

As regras do comércio internacional estão mudando rapidamente, e a sustentabilidade passou a ser um requisito de competitividade. Exigências como rastreabilidade, transparência de dados climáticos e precificação de carbono já influenciam decisões de compra, financiamento e acesso a mercados. Esse impacto é especialmente relevante para setores ligados diretamente a recursos naturais, como agro e mineração, que têm grande peso nas exportações brasileiras. Empresas que não se adaptarem a esses novos padrões podem enfrentar barreiras comerciais ou perda de espaço em mercados mais exigentes. Por outro lado, existe uma oportunidade importante. Empresas que conseguem demonstrar origem, medir seus impactos e garantir boa governança tendem a acessar mercados mais qualificados e capturar mais valor. Isso passa, necessariamente, por organizar melhor a cadeia: saber de onde vêm os insumos, acompanhar indicadores e comprovar resultados de forma consistente.

De que forma o setor privado pode acelerar metas de neutralidade de carbono sem perder competitividade?

A descarbonização já é um fator de competitividade. Soluções como energia limpa, biocombustíveis, eficiência operacional, eletrificação e agricultura regenerativa mostram que é possível reduzir emissões e, ao mesmo tempo, aumentar produtividade, resiliência e acesso a mercado. O setor empresarial pode acelerar essa trajetória quando atua de forma colaborativa. As coalizões setoriais coordenadas pelo CEBDS são um exemplo disso: elas reúnem empresas, governo e sociedade para construir caminhos comuns de descarbonização, com base em dados, viabilidade econômica e visão de longo prazo. A neutralidade de carbono não será alcançada apenas por metas individuais. Ela depende da transformação de cadeias produtivas inteiras e soluções integradas na perspectiva de clima, natureza e pessoas.

Qual o papel do CEBDS nisso?

Marina Grossi (Foto: Divulgação/CEBDS)

Ele representa a vanguarda do setor empresarial brasileiro e contribui para construção de padrões e frameworks relevantes para gestão integrada de riscos sistêmicos, em resposta às exigências de reporte de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, clima e natureza. À exemplo disso, a CVM, órgão regulador do mercado de capitais, tornou obrigatória a divulgação de informações financeiras relacionadas a sustentabilidade e clima no padrão IFRS (S1 e S2), que são normas que estabelecem padrões globais para divulgação de sustentabilidade e clima, focando em impactos financeiros para investidores. A S1 exige relatórios gerais de riscos/oportunidades de sustentabilidade, enquanto a S2 foca especificamente em mudanças climáticas.

Considerando que a resiliência e competitividade da economia brasileira e dos negócios é fortemente dependente de natureza, o CEBDS também prepara suas empresas para reportar informações financeiras relacionadas à natureza, capacitando suas empresas para atender às recomendações da Taskforce on Nature-Financial Related Disclosures, tendo sido coordenador do processo de consulta pública para construção deste framework internacional. Também fazemos parte do Board da Taskforce on Inequality and Social-related Financial Disclosures, que trabalha com as mesmas premissas das outras forças-tarefas com base no entendimento da desigualdade como um risco sistêmico para os negócios e economia. Isso permite que nossas empresas associadas estejam um passo à frente das exigências de mercado, tornando sua estratégia e processos mais resilientes.

Qual o legado da COP30 para o Brasil?

A COP30 marcou uma mudança importante ao consolidar a transição da ambição para a implementação na agenda climática global. Em um contexto de intensificação dos eventos extremos, a conferência reforçou que o foco agora está menos em novos compromissos e mais em viabilizar o que já foi acordado, com financiamento, coordenação e mecanismos de execução. Para o Brasil, o legado é estratégico, porque amplia o papel do país nesse esforço, não apenas como participante das negociações, mas como parte da solução. A conferência evidenciou que já existe um conjunto relevante de iniciativas sendo desenvolvidas pelo setor empresarial, incluindo esforços estruturados de descarbonização em diferentes setores da economia, como as coalizões empresariais, com potencial de contribuir para essa agenda.

O Brasil de Soluções é um exemplo desse movimento. A iniciativa reúne e conecta projetos empresariais com impacto climático e social e integrou o Celeiro de Soluções da COP30, iniciativa da Presidência da Conferência para dar visibilidade a soluções maduras e escaláveis, ajudando a aproximar essas iniciativas de investidores e oportunidades de financiamento.

Para o mundo, a COP30 reforçou três pontos centrais: a importância do financiamento climático, o protagonismo crescente de soluções vindas de países em desenvolvimento e o papel da colaboração entre governos, empresas e sociedade na implementação da agenda climática.

Qual o potencial de crescimento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30?

O principal avanço do Fundo foi sair do campo da proposta e ganhar uma estrutura concreta, com governança definida, apoio internacional e recursos já mobilizados. Durante a COP30, o fundo recebeu endosso de 66 países e mais de US$ 6,7 bilhões em contribuições anunciadas, com destaque para aportes relevantes de países como Noruega, Alemanha, Brasil, Indonésia e França.

O diferencial do fundo é enfrentar um desafio histórico: a falta de escala e previsibilidade no financiamento para conservação. Ao criar um mecanismo mais estável, ele permite que a proteção das florestas seja tratada como uma agenda contínua, e não como iniciativas pontuais.

O potencial de crescimento é significativo. Se conseguir avançar na sua implementação, o fundo pode se tornar um dos principais instrumentos globais para valorizar a floresta em pé, conectando conservação, desenvolvimento econômico e inclusão social. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade estratégica de transformar a agenda florestal em vetor de desenvolvimento sustentável e atração de investimentos.

Dúvidas mais comuns

A descarbonização é o processo de reduzir as emissões de carbono, especialmente dióxido de carbono (CO2), na atmosfera, visando mitigar os impactos das mudanças climáticas e promover uma economia de baixo carbono.

A descarbonização é um fator de competitividade porque permite às empresas reduzir emissões e, ao mesmo tempo, aumentar produtividade, resiliência e acesso a mercados mais exigentes. Investir em soluções como energia limpa, biocombustíveis e eficiência operacional pode gerar vantagens econômicas e estratégicas.

Setores como o elétrico, que já possui uma matriz majoritariamente renovável, transportes com eletrificação e biocombustíveis, agronegócio com práticas regenerativas e recuperação de pastagens, e mineração com eletrificação e uso de energia limpa, estão mais preparados para reduzir emissões em escala.

O financiamento verde é decisivo para a transição, pois sem capital adequado a descarbonização não ganha escala. Instrumentos como mercado regulado de carbono, blended finance e iniciativas que conectam projetos a investidores são fundamentais para transformar avanços técnicos em implementação real.

As empresas brasileiras avançaram especialmente na governança, transparência e integração da sustentabilidade com o negócio. Hoje, a sustentabilidade está conectada à gestão de riscos e decisões financeiras, com 75% das empresas adotando dupla materialidade e 97% utilizando o padrão internacional GRI para relatórios.

As novas regulações exigem rastreabilidade, transparência de dados climáticos e precificação de carbono, influenciando decisões de compra, financiamento e acesso a mercados. Empresas que não se adaptarem podem enfrentar barreiras comerciais, enquanto as que se adaptam tendem a acessar mercados mais qualificados e capturar mais valor.

O Brasil tem potencial para ser protagonista global no mercado de carbono devido à sua biodiversidade, florestas e oportunidades de redução de emissões em energia e indústria. Com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o país busca estruturar esse mercado com regras claras, transparência e monitoramento confiável.