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  • Durante a COP30, florestas e oceanos ganharam destaque, com o lançamento do Tropical Forest Forever Facility (TFFF), que já conta com promessas de US$ 5,5 bilhões para preservação florestal, e um Pavilhão do Oceano, que visa a proteção dos mares.
  • O TFFF, que tem como objetivo financiar programas em 70 países em desenvolvimento, recebeu apoio significativo de países como Noruega, França e Brasil, mas ainda aguarda compromissos de nações como Alemanha e Reino Unido.
  • Especialistas destacaram a importância de incluir os oceanos nas discussões climáticas, alertando sobre riscos como a acidificação dos mares e propondo iniciativas como o Pacote Azul, que visa investimentos de US$ 116 bilhões por ano para conservação marinha.
Resumo supervisionado por jornalista.

A relevância das florestas e dos oceanos subiu alguns degraus na escala de importância ecológica global durante a COP30. No caso dos oceanos, pela primeira vez em uma COP eles ganharam destaque, com muitos painéis e planos de proteção dedicados ao tema, além de um espaço específico durante o evento, o Pavilhão do Oceano, na Zona Azul. Já as florestas foram beneficiadas com o lançamento de um fundo internacional focado em sua preservação no longo prazo, que já conquistou aportes financeiros robustos.

A própria escolha de Belém para sediar a COP30, no coração da Amazônia, foi uma mostra da valorização do papel das florestas na preservação do meio ambiente e, para a conferência, o governo brasileiro lançou o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre. A iniciativa, conforme matéria no Valor Econômico, já conta com o compromisso de US$ 5,5 bilhões em aportes prometidos pela Noruega, França, Indonésia e Brasil. Também são aguardadas contribuições do Reino Unido e de outros países, com meta inicial de alcançar US$ 10 bilhões em aportes.

Fundo para preservação das matas desperta otimismo

Reunião na COP30 sobre o TFFF - Tropical Forest Forever Facility. Iniciativa para falar do papel das florestas na preservação do meio ambiente
Foto: Fernando Donasci/ MMA

Apesar da frustração com o fato de Reino Unido e Alemanha não terem divulgado seus aportes na COP30 ainda, representantes do governo e de entidades de proteção ao meio ambiente estão otimistas em relação ao fundo. “O TFFF teve um início promissor, com compromissos substanciais de diversos países. Prevejo que outros financiadores se juntarão ao projeto e que o número de compromissos aumentará à medida que os detalhes de governança e funcionamento forem finalizados nos próximos meses”, afirmou Nicola Ranger, diretora-executiva da Earth Capital Nexus e professora de Capital Natural, Risco e Finanças no Grantham Research Institute on Climate Change da London School of Economics (LSE).

Ainda segundo a matéria do Valor, Winston Fritsch, economista e consultor de questões ligadas a financiamento climático, avaliou que é normal alguns líderes importantes não terem se comprometido a fazer aportes, porque isso envolve direcionar valores significativos para algo que ainda não conhecem e não entendem. Um dos diferenciais do TFFF, a ser melhor esclarecido para o mundo, por exemplo, é que o fundo é um mecanismo que buscará dar retornos financeiros para os investidores e as contribuições não serão doações, nem mesmo no caso de dinheiro público.

Noruega é a maior financiadora

As expectativas com a Alemanha, por exemplo, têm chances de se tornar realidade. O chanceler Friedrich Merz foi lacônico, porém firme: “se a Alemanha está dizendo que fará um investimento considerável, é porque fará isso”, afirmou, sem citar prazos. O TFFF visa financiar programas em 70 países em desenvolvimento, que oferecerão  vantagens econômicas a quem ajudar na conservação de 1 bilhão de hectares em florestas tropicais.

O chanceler alemão Friedrich Merz participa da sessão Plenária Geral dos Líderes Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas COP 30
Friedrich Merz (Foto: Rafa Pereira/ COP30)

Até o momento, a Noruega assumiu o maior compromisso: US$ 3 bilhões. Indonésia e Brasil prometeram US$ 1 bilhão cada e a França, US$ 500 milhões. Portugal anunciou US$ 1 milhão, valor baixo diante do necessário, mas visto como bem-vindo pelo Brasil.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, disse a O Globo que está “totalmente entusiasmada” com o TFFF, que deverá ampliar sua base progressivamente. Marina Silva destacou características atraentes da configuração do fundo: “estamos trocando a lógica da doação, do pires na mão, para a do investimento”, argumentou. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, espera que o fundo prospere em pouco tempo. Em entrevista publicada na CNN Brasil, Haddad mostrou otimismo com a futura adesão internacional ao plano e destacou o apoio do Banco Mundial, que administrará os recursos.

Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro da Economia, Fernando Haddad, durante entrevista coletiva na COP30.
Marina Silva e Fernando Haddad (Foto: Bruno Peres/ Agência Brasil)

“Eu acredito que vamos superar, durante a presidência do Brasil na Conferência, o valor de US$ 10 bilhões. Nações como Países Baixos, Emirados Árabes e China manifestaram apoio ao TFFF, e a Alemanha deve anunciar sua contribuição até o fim deste ano”, afirmou Haddad.

Oceanos são alçados ao nível das florestas

Já em relação aos oceanos, especialistas afirmaram que, pela primeira vez, eles foram alçados ao mesmo nível das florestas e da transição energética, “a tríade essencial da transição ecológica global”, conforme afirmou, em entrevista ao site Repórter Brasil, Marinez Scherer, coordenadora do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma das 29 especialistas escolhidas como interlocutoras para debates de temas considerados estratégicos para a COP30, como oceanos e florestas.

“O resultado ideal é incluir os oceanos no tratado final da COP30. Esperamos consenso sobre a importância dos oceanos, que ações concretas sejam tiradas do papel e que haverá financiamento para isso”, afirmou Scherer.

Acidificação dos mares é um risco

Responsáveis por mais de 70% da superfície do planeta e pela absorção de cerca de 30% do carbono liberado na atmosfera, os oceanos, até aqui, ocupavam papel secundário nas negociações sobre o aquecimento global. No entanto, mais de 3 bilhões de pessoas dependem dos oceanos para seu sustento e a economia ligada a eles é avaliada em US$ 4 trilhões por ano, o que representa até 5% do PIB global. No entanto, a elevação do nível do mar, o aquecimento das águas, a acidificação e a falta de oxigênio estão impactando a pesca, comprometendo ecossistemas e prejudicando as economias costeiras, alertou Scherer.

O diretor de programas de Gestão Pública da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Guerra, explicou, em sua coluna no Diário do Comércio, com base no relatório Global Tipping Points Report 2025, elaborado por mais de 200 cientistas, que “estamos nos aproximando de múltiplos pontos de ruptura no sistema terrestre e que isso tem consequências devastadoras para a humanidade e a natureza”. O termo “tipping point”, ou ponto de ruptura, refere-se ao momento em que um sistema natural ultrapassa um limite crítico e entra em colapso irreversível. “É como empurrar uma cadeira até que ela tombe, há um ponto exato em que não há volta”, comentou.

Paulo Guerra, iretor de programas de Gestão Pública da Fundação Dom Cabral (FDC)
Paulo Guerra (Foto: Divulgação)

No contexto climático, segundo Guerra, ainda com base nos dados do relatório, isso pode significar a morte em massa de recifes de corais, o colapso das calotas polares, elevando o nível do mar em metros, a degradação da floresta amazônica, com perda de biodiversidade e impactos sociais; a interrupção da circulação oceânica que regula o clima global. “Todos esses sistemas estão interligados. Quando um colapsa, tende a desencadear uma reação em cadeia, como peças de dominó”, conclui.

É importante lembrar que o planeta já rompeu sete dos seus nove limites planetários – indicadores científicos que medem se a Terra ainda opera em condições seguras para sustentar a vida-, de acordo com estudo feito pelo Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK). Segundo o report, o planeta entrou em uma fase com a situação da saúde dos mares saindo da zona de segurança. Só a camada de ozônio e os aerossóis seguem dentro dos limites.

Ainda de acordo com o PIK, desde a Revolução Industrial, o pH da superfície oceânica caiu entre 30% e 40%. Apesar dos alertas, disse Oscar Lopes Luiz, a humanidade continua despejando toneladas de plástico nos mares todos os dias. “É uma ironia cruel: o oceano, que nos dá tanto, recebe em troca o pior dos nossos excessos”.

Até a COP30, destacou matéria publicada no portal Neo Mondo, plataforma do Estadão voltada para questões socioambientais, os oceanos foram “os grandes esquecidos nas negociações climáticas”. O texto é assinado por Oscar Lopes Luiz, CEO e publisher do Neo Mondo, que comentou a atual transição para o protagonismo de oceanos e florestas. Ele destacou que, durante décadas, embora os mares cumpram papel regulador do planeta, a humanidade discutia apenas “o que está em terra firme”.

pH dos oceanos cai a níveis preocupantes

Segundo o Instituto Potsdam de Pesquisa do Impacto Climático, a acidificação marinha tornou-se grave. Desde a Revolução Industrial, o pH da superfície oceânica caiu entre 30% e 40%, tornando-se mais ácido — o que afeta recifes, moluscos e toda a vida marinha. Apesar dos alertas, disse Oscar Lopes Luiz, a humanidade continua despejando toneladas de plástico nos mares todos os dias. “É uma ironia cruel: o oceano, que nos dá tanto, recebe em troca o pior dos nossos excessos”.

Iniciativas em prol dos oceanos na COP30


Pôr do sol na Praia do Jacaré, em João Pessoa, Brasil.
Foto: Leandrocbs/ Shutterstock

Neste momento de protagonismo dos oceanos e florestas, os mares são alvo de discussões, pactos e reuniões na COP30. Destacamos abaixo algumas delas.

Pacote Azul

  • A presidência da COP30 lançou em Belém o Pacote Azul, uma parte da sua Agenda de Ação que reúne propostas para a proteção dos oceanos. O documento detalha o papel dos oceanos no combate à mudança climática e sugere investimentos de US$ 116 bilhões por ano nessa área. Mais de 30 iniciativas globais participaram da preparação do pacote, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
  • O pacote destina-se à conservação marinha, transição energética e uso sustentável dos recursos oceânicos. Foca a ampliação dos mecanismos de financiamento capazes de escalar ações como a restauração de manguezais e a proteção de recifes de corais.
  • A iniciativa foi elogiada por Marina Correa, analista de Conservação da ong ambiental WWF-Brasil. “A história das COPs revela uma evolução: de quando o oceano era apenas uma nota de rodapé, aos diálogos formais da COP27, aos pavilhões temáticos das COP28 e COP29, até esta COP30, quando o mar finalmente se infiltrou na cúpula dos líderes”, afirmou a ambientalista.

Pacto Global da ONU

  • O Pacto Global da ONU – Rede Brasil, em parceria com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), promoveu uma agenda de encontros com foco em Água, Oceano e Resíduos na Greenzone da COP30. Essas iniciativas, reunidas sob a Plataforma de Ação pela Água, Oceano e Resíduos, visam o engajamento empresarial na promoção das agendas e união de esforços com governos e sociedade civil.
  • Lançado em 2000, o Pacto Global apoia a comunidade empresarial mundial no avanço das metas e valores da ONU por meio de práticas corporativas responsáveis. Reúne 20 mil participantes em 65 redes em 85 países, sendo a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo. Já o Pacto Global da ONU – Rede Brasil foi criado em 2003 e hoje é a segunda maior rede local do planeta, com mais de 2.000 participantes em 60 projetos.
  • Na COP30, foi lançado o Guia Empresarial de Combate ao Lixo no Mar. Fruto do Programa Blue Keepers, esta iniciativa, dedicada à prevenção da poluição marinha, traz um guia prático para o setor privado. O documento é resultado da cooperação com as empresas apoiadoras Aegea, Porto do Açu, Santos Brasil, OceanPact e Praya/Grupo Heineken.

Pavilhão do Oceano

  • O Pavilhão do Oceano, na Zona Azul da COP30, resulta de parceria entre o governo do Pará e o Instituto Oceanográfico de Woods Hole (WHOI), visando o debate sobre preservação dos ecossistemas marinhos e costeiros. O Pavilhão atua como uma plataforma para destacar o papel crítico dos oceanos no enfrentamento das mudanças climáticas, além de promover a pesquisa e facilitar parcerias globais para a governança sustentável dos oceanos. A WHOI é uma instituição de pesquisa e educação sem fins lucrativos localizada em Woods Hole, Massachusetts, nos EUA.

Casa Vozes dos Oceanos

  • A ação foi idealizada e promovida pela família Schürmann, conhecida como a primeira do Brasil a dar a volta ao mundo a bordo de um veleiro, e embaixadora da ONU Meio Ambiente, e do Greenpeace. Os encontros ocorrem na Casa das Onze Janelas, com iniciativas ligadas à arte, tecnologia e educação ambiental.
  • O capitão Vilfredo Schürmann, idealizador da iniciativa, fez um alerta. “A primeira vez que passamos pelo Pará foi em 2022. Navegamos dois meses pelo estado, e fomos recebidos de braços abertos. Mas, durante esse período, identificamos situações como a presença de microplásticos. Percebemos, então, a importância de uma instituição como a ONU estar presente para realizar estudos e alertar a população”.