A consolidação de agendas voltadas ao impacto social e à governança corporativa exige maior maturidade na gestão de processos. No Terceiro Setor, a execução de projetos muitas vezes esbarra na contratação de serviços sem critérios claros para orientar a tomada de decisão. Historicamente marcadas por indicações informais, prazos apertados e pela escolha baseada exclusivamente no menor preço, essas contratações podem resultar em retrabalho, desperdício de recursos e dificuldades para garantir a qualidade e a efetividade das iniciativas.

Para redefinir esse panorama, o “Guia de Boas Práticas de Contratações de Serviços para o Terceiro Setor“, escrito por Daniela Balbina de Souza Crespo Marra e Ana Charnizon, professoras convidadas da Fundação Dom Cabral (FDC), em parceria com a Plataforma Conjunta, propôs uma transformação cultural profunda. A publicação apresentou o Modelo TEC, que é baseado nos pilares de Transparência, Eficiência e Confiança, e consolida parâmetros objetivos de governança que amenizam a tensão entre a restrição orçamentária e a entrega de valor real no mercado.

O Modelo TEC

A construção desse novo modelo partiu de uma escuta de 96 Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e 110 prestadores de serviços, o que revelou um descompasso que prejudica a fluidez dos negócios: enquanto as compradoras priorizavam o preço como o fator decisivo de escolha, os prestadores de serviços elegiam a confiabilidade e a conexão como o topo de suas prioridades, o que deixou a variável preço na última posição. 

Esse descompasso de expectativas impôs uma dupla pressão operacional, na qual as OSCs sofrem com falta de tempo, custos altos de seleção e barreiras documentais, e os prestadores enfrentam pressões por preços baixos que inviabilizam a demonstração de suas reais capacidades técnicas. O Modelo TEC propõe uma tomada de decisão apoiada em métodos de apoio semelhantes aos algoritmos que orientam plataformas como Airbnb e Booking. 

O modelo distribuiu pesos específicos para nove critérios essenciais: conformidade com normas e legislações (14,15%), gestão, organização e eficiência (13,21%), capacidade técnica (13,21%), reputação e credibilidade (12,58%), confiabilidade e conexão (12,58%), fontes de valor como critérios ESG (10,38%), resultados dos serviços e impacto (9,91%), experiência de atuação no Terceiro Setor (9,75%) e monitoramento e avaliação (4,25%).

Para as empresas que atuam como prestadoras de serviços ao Terceiro Setor, o Modelo TEC eliminou a barreira de concorrências predatórias baseadas em preços insustentáveis, fornecendo regras transparentes que lhes permitiram comprovar seu valor técnico e reputacional. Isso resultou em economia de tempo, redução de custos de transação no processo de vendas e mitigação dos riscos de litígio ou rescisões decorrentes de contratos ambíguos. 

Para as grandes corporações que investem em responsabilidade socioambiental, a profissionalização e a padronização das OSCs contratantes funcionaram como um escudo de compliance. Ao garantir que os recursos passem por processos de seleção de fornecedores auditáveis, baseados em evidências documentadas e com monitoramento contínuo, as empresas patrocinadoras reduziram seus riscos reputacionais e operacionais. 

Segundo o estudo, a mitigação de riscos protege a aplicação dos investimentos de longo prazo, e garante que as doações e os aportes corporativos plurianuais gerem impacto social real e fiquem blindados contra a armadilha de ações simbólicas ou desconexas.

O amadurecimento das contratações no ecossistema social mostrou que a perenidade dos negócios depende da qualidade dos processos relacionais. O roteiro de boas práticas proposto pelo guia detalhou rituais e checklists estruturados que transformam a rotina de compras em um espaço contínuo de aprendizado. 

Ao orientar reuniões de alinhamento recorrentes, rituais formais de recebimento de entregas e rituais de feedback estruturados ao término dos projetos, o modelo constrói conexões de confiança de longo prazo entre as organizações e os fornecedores de mercado.