Quais escolhas podem contribuir para que o Brasil transforme suas vantagens em prosperidade, prepare pessoas para as mudanças em curso e construa organizações capazes de responder a novos desafios econômicos, sociais e ambientais? As respostas passam por diferentes dimensões, da qualidade das instituições e da educação à capacidade de empresas e lideranças de estimular colaboração, aprendizagem, diálogo e pertencimento.

Esses temas orientaram as discussões do encontro Caminhos para futuros positivos, promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC), que reuniu os professores Aldemir Drummond, Bruno Carazza, Heiko Spitzeck, Maria Elisa Brandão, Ricardo Henriques e Luciana Ferreira. A professora Ana Burcharth conduziu as discussões, estruturadas a partir de diferentes perspectivas sobre os desafios das próximas décadas.

O encontro integra as iniciativas relacionadas aos 50 anos da FDC e parte de uma reflexão que conecta a trajetória da instituição aos desafios que estão à frente. Para o presidente executivo da FDC, Antonio Batista da Silva Junior, o conhecimento e o desenvolvimento de pessoas e organizações ocupam papel central nessa construção.

“O nosso compromisso, em toda a nossa atuação, é o de desenvolver capacidades das lideranças e das organizações para que elas possam construir futuros mais positivos, a partir do conhecimento, com rigor científico e aplicabilidade prática”.

Antonio Batista da Silva Junior

Riqueza precisa se transformar em prosperidade

Um dos primeiros eixos da discussão foi a capacidade do Brasil de transformar suas vantagens naturais em desenvolvimento econômico e social. Aldemir Drummond destacou que a combinação entre transição energética, mudanças geopolíticas e transformações tecnológicas abre oportunidades para o país, especialmente em áreas relacionadas aos recursos naturais e à energia.

O aproveitamento desse potencial, porém, depende da capacidade de ampliar a participação brasileira em atividades de maior valor agregado e transformar vantagens comparativas em ganhos de produtividade e desenvolvimento.

Bruno Carazza acrescentou a dimensão institucional ao debate. As escolhas feitas pelo país ao longo de sua história influenciaram a distribuição de oportunidades e ajudaram a explicar desigualdades que permanecem. Instituições capazes de favorecer produtividade, inclusão e acesso a oportunidades aparecem, nesse contexto, entre as condições para ampliar os efeitos do crescimento econômico sobre a sociedade.

Ana Burcharth, Aldemir Drummond e Bruno Carazza em painel durante evento, sentados em cadeiras e conversando em palco com telão ao fundo.
Da esquerda para a direita: Ana Burcharth, Aldemir Drummond e Bruno Carazza (Foto: Empório Fotografia)

Empresas ampliam seu papel

A discussão avançou das condições estruturais do país para o papel das organizações. Heiko Spitzeck abordou a relação entre negócios, sociedade e meio ambiente, destacando a necessidade de as empresas considerarem os sistemas sociais e ambientais dos quais dependem.

Questões como mudanças climáticas, biodiversidade e impactos sobre os territórios ampliam a necessidade de colaboração entre empresas, governos, universidades e organizações da sociedade civil. A geração de resultados econômicos passa, assim, a conviver com desafios relacionados à preservação de recursos, fortalecimento das comunidades e construção de relações de confiança.

Maria Elisa Brandão levou a reflexão para dentro das organizações. Estruturas mais fluidas, redes, plataformas e equipes com maior autonomia alteram relações de trabalho e tornam mais relevantes elementos como propósito, pertencimento e colaboração.

Essas mudanças também colocam em discussão modelos tradicionais de comando e controle e exigem novas formas de alinhar pessoas em torno de objetivos comuns.

Educação ganha importância diante das transformações

O desenvolvimento das pessoas apareceu como outro eixo dos debates. Ricardo Henriques chamou atenção para a combinação de transformações demográficas, tecnológicas, climáticas e geopolíticas, que altera as competências necessárias para o trabalho e para a participação na sociedade.

Para o Brasil, o desafio envolve simultaneamente avançar na qualidade e na equidade da educação e preparar a população para uma economia cada vez mais baseada em conhecimento e tecnologia.

Aprendizagem contínua, capacidade de adaptação e uso crítico das novas ferramentas ganham importância nesse cenário. As organizações também participam desse processo ao criar condições para que profissionais desenvolvam novas capacidades ao longo de suas trajetórias.

Liderança exige diálogo e capacidade de escuta

As transformações também alcançam o exercício da liderança. Luciana Ferreira destacou a dimensão relacional do papel dos líderes em ambientes marcados por maior diversidade de experiências, valores e perspectivas.

Escuta, diálogo, reconhecimento e cuidado aparecem entre as capacidades necessárias para criar espaços nos quais diferentes contribuições possam participar das decisões. A discussão envolve ainda o pertencimento e a percepção das pessoas sobre sua contribuição para o coletivo.

Quatro pessoas estão sentadas em cadeiras no palco, participando de um painel de discussão. Uma mulher está falando ao microfone, compartilhando ideias sobre futuros positivos. Há uma plateia e uma placa em português ao fundo.
Da esquerda para a direita: Maria Elisa Brandão, Heiko Spitzeck, Ricardo Henriques e Luciana Ferreira (Foto: Empório Fotografia)

O conceito de mattering, abordado por Luciana, sintetiza parte dessa reflexão ao relacionar a percepção de que uma pessoa importa para determinado grupo ao reconhecimento de que sua atuação produz efeitos sobre o todo.

Escolhas conectam os diferentes caminhos

Embora tenham abordado questões distintas, as discussões convergiram para um ponto comum: futuros positivos dependem da capacidade de transformar possibilidades em escolhas e ações concretas.

Os temas debatidos no encontro são aprofundados em seis ensaios produzidos pelos professores da FDC, publicados na revista DOM. Os trabalhos percorrem diferentes dimensões — da sociedade às organizações e às pessoas — e discutem caminhos relacionados à prosperidade, instituições, sustentabilidade, novas formas de organização, educação e liderança.