- Conselhos de Administração devem evoluir para Conselhos Transformadores, atuando como agentes de mudança que geram impacto econômico e social positivo para empresas e sociedade.
- A transformação dos conselhos baseia-se em quatro pilares: ‘Foresight’ Estratégico, Inteligência Artificial, Economia Regenerativa e ESG, que fortalecem a resiliência e criam valor de longo prazo.
- A adoção desses pilares implica que governança corporativa deve ir além da supervisão tradicional, integrando inovação e sustentabilidade para garantir perenidade e relevância no contexto global atual.
Os atuais Conselhos de Administração devem atuar como Conselhos transformadores, indo além da governança corporativa tradicional e tornando-se agentes de mudança não só da própria empresa, como também da sociedade. É o que defendem dois professores e conselheiros empresariais em artigo veiculado pela Fast Company Brasil, no qual abordam a importância de os boards não se limitarem à supervisão das corporações, mas agirem como atores transformadores, gerando valor econômico para as companhias e impacto positivo para a humanidade e o planeta.
Segundo os professores, o futuro pertence aos boards que entendem que a perenidade de suas organizações está intrinsecamente ligada à construção de um futuro mais próspero, resiliente e equitativo para todos, envolvendo respeito ao meio ambiente e à sociedade, com apoio dos novos recursos oferecidos pela tecnologia, como a Inteligência Artificial. Os autores não citam exatamente este termo, mas a Fast Company Brasil resume como Conselhos Transformadores.
O artigo é assinado por Carlos Braga, que é professor associado e coordenador do Centro de Referência em ESG e do programa ESG na Sala do Conselho da Fundação Dom Cabral (FDC), além de conselheiro sênior do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de empresas privadas e organizações do terceiro setor; e Gustavo Donato, também professor associado da FDC, conselheiro global do Grupo Stefanini e de outras corporações, mentor de CEOs e ex-reitor da FEI.
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Cenário global leva a mudanças profundas
Para os professores, a governança corporativa tradicional deve ser questionada, frente ao novo conceito de Conselhos Transformadores, pois mostra-se inadequada ao cenário global atual, que é marcado por “disrupções tecnológicas, tensões geopolíticas, crises climáticas e mudanças sociais profundas”. Para não apenas sobreviver, como prosperar tendo esta nova realidade como pano de fundo, os Conselhos de Administração precisam ir muito além da supervisão, tornando-se catalisadores de transformação.
Segundo Braga e Donato, os Conselhos Transformadores devem passar a se basear em quatro pilares essenciais: o ‘Foresight’ Estratégico; a IA; a Economia Regenerativa; e o conceito ESG. Juntas, essas quatro premissas não só fortalecem a resiliência das empresas, mas também as posicionam como agentes de mudança, criando valor de longo prazo para todos os envolvidos – da corporação às várias camadas da sociedade na qual está inserida.
‘Foresight’ antecipa as ações da corporação
De acordo com o artigo, o ‘Foresight’ Estratégico capacita os Conselhos a olharem além do presente. Em vez de se limitarem ao planejamento de curto prazo, os Conselhos Transformadores exploram tendências, sinais e incertezas para construir cenários futuros. Essa abordagem permite que as empresas se preparem para o que está por vir, identificando riscos e oportunidades antes que a concorrência o faça.
A resiliência climática seria um exemplo do ‘Foresight’. Longe de ser uma prática voluntária, a preparação para os impactos das mudanças climáticas – como eventos extremos e interrupções na cadeia de suprimentos – se tornou uma questão estratégica.
O ‘Foresight’ deve envolver perguntas como: “de que maneira a empresa seria afetada por cenários geopolíticos desafiadores?” ou “que novas oportunidades de mercado podem surgir das megatendências que estamos observando?”. Citada como referência no artigo, a Shell, apesar de especializada em combustíveis fósseis, investe em ‘Foresight’ desde a década de 70, sempre preparando-se para futuros cenários energéticos. Em suas estratégias de longo prazo, a empresa inclui o desenvolvimento de fontes de energia renovável, avalia riscos de mercado e geopolíticos, garantindo que suas decisões de investimento sejam bem embasadas.
IA é ferramenta para a governança
Para os professores, a IA não é mais uma promessa do futuro, mas uma ferramenta essencial para a governança moderna.
“A IA não substitui o julgamento humano, e sim o potencializa. Ela tem a capacidade de processar volumes massivos de dados, o famoso ‘big data’, em uma escala e velocidade impossíveis para a análise humana. A IA pode revelar padrões, correlações e insights que servem de base para decisões estratégicas”, escreveram os autores.
A IA, afirmaram os professores, pode ser integrada aos Conselhos de diversas formas. Na análise de risco, algoritmos podem monitorar dados de mercado, notícias e redes sociais para identificar, por exemplo, vulnerabilidades na cadeia de suprimentos. Nos portfólios de investimento, a IA pode simular cenários, incluindo riscos ESG e retornos financeiros, ajudando a alocar capital de forma inteligente. Contudo, alertaram, os Conselhos devem garantir que as decisões baseadas em IA sejam sempre revisadas e compreendidas por humanos.
Economia regenerativa visa “fazer o bem”

Já a Economia regenerativa, segundo os autores, vai além do conceito de sustentabilidade, buscando ativamente restaurar e renovar os sistemas naturais e sociais. Seria uma evolução das práticas ESG, movendo as empresas de um estado de “não fazer mal” para “fazer o bem”.
Para os Conselhos Transformadores, a Economia regenerativa significa repensar modelos de negócios. A empresa pode investir, por exemplo, em cadeias de suprimentos circulares que minimizam o desperdício e maximizam o uso de materiais. Isso pode envolver produtos que possam ser desmontados e reutilizados ou a criação de sistemas de logística reversa. Significa, também, investir em capital natural e social, valorizando a biodiversidade e o bem-estar dos funcionários.
A Natura & Co. foi citada como exemplo de economia regenerativa no artigo. O compromisso do grupo com a Amazônia envolve emprego de comunidades locais e uso controlado da biodiversidade, além de embalagens sustentáveis. As iniciativas mostram que a empresa não apenas minimiza o impacto, mas gera valor social e ambiental, conquistando clientes que buscam marcas com propósito.
ESG une os demais conceitos

O quarto pilar, o ESG, é, segundo os professores, o arcabouço prático que une o ‘Foresight’, a IA e a Economia regenerativa, traduzindo esses conceitos em métricas e padrões tangíveis. Ele fornece a linguagem e a estrutura para que os Conselhos avaliem e gerenciem os riscos e as oportunidades ambientais, sociais e de governança.
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A integração do ESG nas decisões do Conselho significa que ele não é mais uma mera questão de ‘compliance’. O conceito se torna um motor de inovação e valor, informando a estratégia, a alocação de capital e a cultura da empresa. O valor da empresa não é mais medido apenas pelo preço de suas ações, mas também por sua capacidade de gerar impacto positivo.