Cerca de 30% das pequenas e médias empresas (PMEs) não sobrevivem após cinco anos. E nem sempre as causas do insucesso estão ligadas ao produto ou serviço comercializados, mas sim à gestão do negócio.

Após o investimento inicial, voltado para as necessidades operacionais, como máquinas, equipamentos, estoques, logística e outros, os empreendedores começam a vislumbrar novos mercados, e, com o crescimento do negócio, surge a necessidade de novos investimentos para suportar a melhoria da capacidade produtiva (fabricação, revenda, prestação de serviços), tanto quantitativa quanto qualitativamente. Ou seja, há uma necessidade constante de investimentos.

No que diz respeito à área financeira, à medida que a empresa cresce, os empreendedores começam a “perder o controle”, por não terem mais tempo para controlar e/ou acompanhar o fluxo de recebimentos e pagamentos, como faziam no início. Em muitos casos, eles só se dão conta disso quando o dinheiro começa a faltar. A prioridade, então, passa a ser a gestão da falta de caixa, com a busca de recursos imediatos e a qualquer custo, tratando, assim, da consequência, e não das causas do problema financeiro da empresa.

Os empreendedores de PME’s, de um modo geral, administram seus negócios pelo caixa (quanto a empresa recebeu, quanto pagou e quanto sobrou no final do mês) e, assim, acabam cometendo um “pecado mortal”, contrariando um princípio básico de finanças: “lucro não é caixa e caixa não é lucro”.

Ao invés de administrar a falta de caixa – que é consequência, e não causa do problema financeiro da empresa – é preciso compreender de que maneiras o caixa da empresa é afetado. De uma forma bem simplificada, temos abaixo uma equação que demonstra a dinâmica financeira de uma empresa:

  • Saldo de caixa = Capital de Giro – Necessidade de Capital de Giro

O que é saldo de caixa

O saldo em caixa é o dinheiro em caixa, na conta bancária e em aplicações financeiras, subtraindo as dívidas financeiras de curto prazo, como empréstimos bancários, dos sócios e/ou outras pessoas físicas ou jurídicas.

O que é capital de giro

Ao contrário do que muitos pensam, capital de giro não é dinheiro em caixa ou reserva financeira. Trata-se da diferença entre os recursos de longo prazo que financiam a empresa, sejam eles de terceiros (bancos) ou próprios (dos sócios da empresa), e os investimentos de longo prazo (geralmente, máquinas, equipamentos, instalações, veículos e outros).

Exemplo: um empreendedor investiu R$500.000,00 para iniciar um negócio. A empresa comprou máquinas e equipamentos no valor de R$350.000 e tem estoques no valor de R$130.000,00 e manteve R$20.000,00 na conta bancária. Nesse caso, a equação é:

  • Capital de Giro: R$500.000,00 – R$350.000,00 = R$150.000,00

Necessidade de Capital de Giro

pmes

Para funcionar, as empresas precisam financiar os seus clientes e manter estoques. Paralelamente, elas são financiadas pelos fornecedores, funcionários, tributos a pagar e contas a pagar, como energia, comunicação, aluguel e outras. Assim, ela pode contar com estes recursos em um período (um mês, por exemplo), para pagar no período seguinte.

A necessidade de capital de giro é, portanto, igual a: (contas a receber + estoques) – (fornecedores + funcionários + contas a pagar).

Ao iniciar as suas atividades, a empresa alugou um imóvel por R$5.000,00, que serão pagos no dia 10 do mês seguinte. Neste ponto, ainda sem operar efetivamente, o resultado da empresa seria:

  • Receita: R$0,00
  • (-) Despesas: -R$5.000,00 (aluguel)
  • (=) Resultado: -R$5.000,00 (prejuízo)

Essa movimentação pré-operacional gerou, portanto, um prejuízo de R$5 mil. Logo, o total do capital dos proprietários deixa de ser os R$ 500 mil iniciais e passa a ser R$ 495 mil.

Voltando à equação inicial, considerando que o saldo de caixa é igual ao capital de giro menos a necessidade de capital de giro, teremos a seguinte situação:

  • Financiamentos de Longo Prazo: R$495.000,00 (capital dos sócios)
  • (-) Investimentos de Longo Prazo: R$350.000,00 (máquinas e equipamentos)
  • (=) Capital de Giro: R$145.000,00

A necessidade de capital de giro ficaria da seguinte forma:

  • (Contas a Receber + Estoques): R$130.000,00
  • (-) (Fornecedores + Contas a Pagar): R$5.000,00
  • Necessidade de Capital de Giro = R$125.000,00

O saldo de caixa então seria de:

  • Capital de Giro: R$ 145.000,00
  • (-) Necessidade de Capital de Giro: R$125.000,00
  • Saldo de Caixa = R$20.000,00

Com esse exemplo, destacamos alguns fundamentos básicos de finanças corporativas. Um deles é que capital de giro e dinheiro em caixa são coisas diferentes. No exemplo acima, o capital de giro é de R$145.000,00 e o caixa é R$20.000,00. Portanto, é possível ter capital de giro sem ter dinheiro em caixa, e vice-e-versa.

Outro, é que lucro não é caixa e caixa não é lucro. Controlar o caixa é essencial, mas saber se o negócio é lucrativo ou não, é tão essencial quanto. Nesse mesmo exemplo, a empresa tem R$20.000,00 em caixa, com prejuízo de R$5.000,00. O contrário é muito comum: ter lucro e não ter caixa.

O conhecimento da dinâmica econômico-financeira do negócio é crucial para a sua sustentabilidade e longevidade. Neste exemplo, a empresa tem caixa positivo porque tem um capital de giro (R$145.000,00), maior do que sua a necessidade de capital de giro (R$125.000,00). Na esmagadora maioria das PMEs, esta situação se inverte: a necessidade de capital é maior do que o capital de giro que ela possui, e a má gestão desse equacionamento financeiro leva muitas empresas à falência.

Isto mostra também que crescer é importante, mas é preciso muito cuidado com o crescimento rápido e sem planejamento. Não é sem motivo que a maioria das PMEs “quebra” justamente na fase de crescimento.

Algumas ações como retiradas e distribuição de lucros em “doses erradas”, acima da capacidade da empresa, minam sua capacidade de crescimento e sustentação financeira a médio e longo prazos.

Por todos esses motivos aqui explanados, a importância da área financeira jamais deve ser subestimada, principalmente em virtude das ações preventivas necessariamente aplicadas por ela. Em outras palavras, estamos mostrando que é mais barato prevenir do que remediar e, portanto, que as PMEs não podem deixar a área financeira se tornar um grande problema para só então começar a agir.

*Sérgio Eustáquio Pires, Centro de Inteligência em Médias Empresas da FDC

Dúvidas mais comuns

Cerca de 30% das PMEs não sobrevivem após cinco anos principalmente devido à falta de uma gestão financeira adequada, e não necessariamente por problemas com o produto ou serviço oferecido.

Lucro é o resultado financeiro positivo ou negativo do negócio após considerar receitas e despesas, enquanto caixa é o dinheiro disponível em caixa, conta bancária e aplicações financeiras. Lucro não é caixa e caixa não é lucro, pois uma empresa pode ter lucro e não ter dinheiro em caixa, ou vice-versa.

Capital de giro é a diferença entre os recursos de longo prazo que financiam a empresa e os investimentos de longo prazo, como máquinas e equipamentos. Ele não é simplesmente dinheiro em caixa ou reserva financeira, mas sim um indicador da capacidade financeira para manter as operações.

A necessidade de capital de giro é calculada pela fórmula: (Contas a receber + Estoques) – (Fornecedores + Funcionários + Contas a pagar). Ela representa os recursos que a empresa precisa para financiar suas operações diárias.

Controlar o caixa é essencial para garantir que a empresa tenha recursos disponíveis para pagar suas obrigações imediatas, enquanto controlar o lucro é fundamental para avaliar a rentabilidade do negócio. Ambos são necessários para a sustentabilidade financeira da empresa.

O crescimento rápido e sem planejamento pode aumentar a necessidade de capital de giro além da capacidade da empresa, levando a problemas de caixa e, consequentemente, à falência. É importante planejar o crescimento para evitar desequilíbrios financeiros.

Administrar apenas pelo fluxo de caixa pode levar a decisões equivocadas, pois o empreendedor pode focar apenas na falta de dinheiro imediato, tratando a consequência e não a causa dos problemas financeiros, o que pode comprometer a sustentabilidade do negócio.