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  • A mobilização militar dos EUA no Caribe visa combater o tráfico de drogas da Venezuela, onde o Cartel de Los Soles se infiltrou nas forças armadas, mas a intervenção militar pode não ser a solução mais eficaz para a transição democrática no país.
  • A mudança de regime na Venezuela pode passar pela desmantelamento do cartel e restauração de um governo comprometido com o combate ao tráfico, porém, as tentativas democráticas têm sido frustradas pela repressão do governo Maduro.
  • Uma intervenção militar, embora complexa e arriscada, é vista como uma das opções para forçar uma mudança de regime e restaurar a ordem, mas poderia resultar em uma guerra civil e uma fragmentação ainda maior do país.
Resumo supervisionado por jornalista.

Nas últimas semanas os Estados Unidos fizeram uma mobilização bastante significativa de forças militares na região do Caribe. A motivação é o combate ao tráfico de drogas entorpecentes vindas da Venezuela, e em particular do Cartel de Los Soles. A possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela é uma crescente, mas talvez não seja a melhor maneira de lidar com o tráfico de drogas, e nem mesmo de provocar uma transição de volta à democracia no país sulamericano.

O mercado e as rotas do tráfico de drogas

A causa raiz do problema das drogas não está na Venezuela, mas sim na demanda de drogas nos EUA e Europa, onde ocorre o maior consumo e também onde o valor da droga é mais alto. Isso gera a plantação de cocaína na Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela, onde também existem laboratórios de refino. Estima-se que cerca de 70% a 80% da cocaína seja produzida na Colômbia.

Nesse sentido, a Venezuela é rota do tráfico para o Caribe, e, de lá, para os EUA. Já o Brasil é rota para a África, e daí para a Europa.

No caso das Anfetaminas os precursores são produzidos na Ásia (sudeste e sudoeste) e depois enviados ao México, onde a anfetamina é produzida e depois enviada para os EUA. Para a Europa, a entrada é pelos Balcãs.

Essa estrutura de mercado gerou diversas organizações criminosas internacionais descritas como cartéis. Na Colômbia, o mais famoso são as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Na Venezuela, o Cartel de Los Soles se misturou e infiltrou as forças armadas, aproveitando a falência do Estado e os baixos salários dos militares.

No México os cartéis vivem em uma relação muito dinâmica, mas os principais são os de Sinaloa, Jalisco, Juarez, Golfo, e La Familia (Região da Cidade do México).

A agenda política interna dos EUA

O presidente Donald Trump discursa na Universidade Internacional da Flórida sobre a crise em curso na Venezuela.
Foto: Hunter Crenian/ Shutterstock

No final do governo Biden, a atuação do tráfico de drogas se tornou muito intensa e foi associada a imigração ilegal. A percepção de que este era um problema grave, e que o governo não estava fazendo o suficiente para conter – ao contrário, estaria deixando a imigração ocorrer de maneira livre -, virou uma agenda política importante que foi capturada pelos republicanos.

Uma vez eleito, Trump começou a atacar o problema da imigração e do tráfico, mas agora existe uma percepção de que não basta vigiar o território interno e as fronteiras com o Canadá e México, pois muitas drogas entram por via marítima, vindas do Caribe.

Em 2026, teremos as eleições de meio de período (Mid-term) nos EUA e os republicanos temem perder as maiorias no Senado e Câmara dos deputados. Parte disso pode ser mitigado ao melhorar a percepção de redução do problema das drogas até 3 de novembro de 2026.

As opções de mudança na Venezuela

Membro da Guarda Nacional Antidrogas marcha em apoio à paz entre Venezuela e Trinidad e Tobago na cidade de Maracaibo, Venezuela.
Foto: Humberto Matheus/ Shutterstock

Para reduzir o fluxo de drogas vindas da Venezuela, teria de desmontar o Cartel de Los Soles e restaurar um governo na Venezuela que fosse mais assertivo no combate às drogas. A primeira opção seria pela via democrática, o que foi tentado no governo Biden, mas o governo Maduro vem perseguindo os candidatos de oposição e manipulando os resultados eleitorais. Esta opção, portanto, não funcionou até aqui.

A segunda opção é a atual: pressionar com demonstrações de força militar esperando que o presidente Maduro renuncie, sofra um golpe militar interno ou convoque novas eleições. Até aqui também não está funcionando.

O problema é que toda a estrutura do Cartel de Los Soles não irá abrir mão do poder e das receitas advindas do tráfico. Mesmo que Maduro renuncie, a estrutura ocupará o vácuo de poder e Maduro provavelmente seja morto ou preso.

Mesmo uma “saída Honrosa” para o Maduro, permitindo que ele saia da Venezuela para viver de forma segura em outro país de sua escolha, provavelmente não resultaria em uma mudança significativa no país. Assim, surge uma terceira opção que é de intervir militarmente na Venezuela para forçar a troca de regime e eliminar o Cartel de Los Soles por terra, para depois reinstalar uma democracia de transição para recuperar o país.

A estrutura territorial da Venezuela

Para começar a analisar uma opção militar, é preciso primeiro estudar o território venezuelano que não é homogêneo. Simplificadamente, a Venezuela é composta de três regiões distintas.

A primeira é a faixa costeira ao norte dos Andes venezuelanos, onde vive cerca de 70% da população. Essa região inclui o entorno do lago de Maracaibo, onde se localizam cerca de 30% das reservas de petróleo. A segunda é o vale do rio Orinoco, onde vivem cerca de 29% da população e se concentram cerca de 70% das reservas de petróleo. Finalmentem na região das montanhas ao sul do rio Orinoco, e na fronteira com o Brasil e com a Guiana, está apenas 1% da população e não há petróleo. É lá que vivem diversas tribos indígenas, entre elas os Ianomanis, presentes também do lado brasileiro.

A Venezuela tem uma disputa territorial com a Guiana na qual ela reclama a região de Esequibo, que compõe cerca de 70% da Guiana, e fica na costa da qual se encontram reservas significativas de petróleo que, inclusive, tem mudado a economia da Guiana. No caso de uma desestruturação do governo central, as chances de uma guerra civil e uma fragmentação da Venezuela são relevantes e não podem ser ignoradas.

As fases de uma operação militar

Uma guerra moderna segue uma estrutura lógica de redução das forças inimigas pelo ar, antes de uma operação por terra. Inicialmente tais operações seriam de forças especiais e, depois, potencialmente de forças regulares.

Infográfico gerado por Inteligência Artificial

As seguintes fases são esperadas nesse caso:

Fase 1 – Supremacia eletromagnética

Fase 2 – Supremacia aérea

Fase 3 – Redução das defesas inimigas

Fase 4 – Ofensiva terrestre

Fase 5 – Reconstrução e segurança

No caso da Venezuela, as duas primeiras fases já estão cumpridas, dada a assimetria das forças. A fase 3 envolveria a destruição do que sobrou das forças aéreas e de mísseis das forças Bolivarianas, em específico os caças SU-30 MK2, nas bases de Luis Del Valle Garcia (Barcelona), e El Libertador (Maracay). 

Na sequência, bases de radares e centros logísticos e de Comando (C4I – Comando, Controle, Comunicação Computação e Inteligência) seriam alvejados. 

A marinha da Venezuela também seria atacada nas suas bases principais de Puerto Cabello, Caracas e Punto Fijo. Isso pode se dar por meio de mísseis lançados por aviões ou de mísseis de cruzeiro, lançados por aviões e submarinos. Porém, é possível que forças especiais operando dentro da Venezuela façam parte destes ataques com drones e designadores de alvo com laser infravermelho.

O sucesso da fase 4 depende da extensão de dano da fase 3, que pode durar várias semanas. Provavelmente, ela começaria com forças especiais mapeando os alvos e tentando capturar não só o presidente Maduro, mas também outras figuras relevantes do governo que tenham potencial de sucedê-lo.

O desembarque de tropas faz mais sentido na região da foz do Orinoco, próximo às bases operacionais de Trinidad, e, daí, ao longo do Orinoco para impedir o fluxo de petróleo e criando uma barreira de proteção aos grupos indígenas do sul contra retaliação por parte das forças do regime venezuelano. 

Ciudad Guayana e Ciudad Bolivar são as chaves para a penetração ao longo do Orinoco além do delta costeiro. E elas podem ser mais facilmente acessadas pelo ar, por tropas aeromóveis.

Outro local potencial é a cidade de Coro, que fica entre Caracas e Maracaibo e que cortaria a estrada costeira e protegeria Aruba e Curaçao de retaliação.

Depois de criar uma base operacional forte nesta região, a cabeça de praia poderia se estender para Maracaibo ou Caracas, provavelmente induzindo as forças militares a se renderem e recrutando a população local para formar tropas próprias.

Esse avanço pode ser lento, como tem se visto nas operações na Ucrânia e na Faixa de Gaza. E os combates urbanos em Caracas e Maracaibo podem ser bastante complexos e demorados.

Uma vez restaurado um governo democrático e anti-cartéis, vem a parte mais demorada que é refazer um estado de direito e a economia de mercado na Venezuela. No Iraque esta fase levou entre 2003 e 2011, mas culminou na criação de um estado funcional e moderno.

Como se preparar

A Venezuela já está em uma situação econômica tão depreciada que uma invasão provavelmente não afetará muito os mercados globais no curto prazo. Mas há potencial de resultar em um fluxo de imigração para o Brasil.

No médio prazo, é possível que surjam oportunidades na reconstrução da Venezuela e, mesmo o Brasil, talvez seja convidado a fazer parte de uma força de paz para manter a estabilidade na região.

As reservas de petróleo da Venezuela se tornaram as maiores do mundo, dada a falta de capacidade de extração, e isso pode gerar oportunidades para a cadeia de óleo e gás do Brasil também. Por fim, uma reconstrução da infraestrutura urbana em Caracas e Maracaibo também podem gerar oportunidades para a nossa cadeia de construção civil e serviços.

Paulo Vicente dos Santos Alves (Foto: Divulgação)

* Paulo Vicente dos Santos Alves é professor da Fundação Dom Cabral, doutor em administração pela FGV.  Sua experiência profissional inclui os setores de Governo, Defesa, Aeroespacial, Educação e Energia. Já atuou em cursos internacionais pela Brown, CKGSB, HULT, INSEAD, ISB, John Hopkins, Kellog, NOVA SBE, Saint Gallen, Schulich, Skema, Skolkovo, UT Dallas, e Vlerick.