Investir e operar no sistema financeiro, hoje, é um exercício que vai além da escolha de produtos com rentabilidade atrativa. Casos recentes de investidores que perderam centenas de milhares de reais com Certificados de Operações Estruturadas (COEs) mostram como o mercado financeiro se tornou um terreno de alta complexidade, no qual compreender os riscos embutidos é tão importante quanto identificar oportunidades.

A sofisticação dos instrumentos exige dos investidores e dos profissionais que os orientam uma análise minuciosa das variáveis, a compreensão total dos produtos e o desenvolvimento de expertises para além das tecnicidades do setor.

Os episódios sobre as perdas reacenderam o debate acerca da importância da transparência e qualificação no mercado. Ao mesmo tempo, instituições de ensino de referência, como a Fundação Dom Cabral (FDC), começam a responder a esse novo cenário com formações voltadas a desenvolver pensamento crítico e capacidade analítica aplicada à economia real.

Quando a promessa se torna uma armadilha

Um homem analisando certificados de operações estruturadas (COEs) em um tablet, com gráficos e dados financeiros exibidos na tela, ilustrando investimentos em COEs.
Foto: tsyhun/ Shutterstock

Por meio de suas redes sociais, investidores relataram os prejuízos que tiveram ao optar por fazer operações de COEs emitidos por multinacionais do ramo financeiro. Em um dos casos, por exemplo, um aplicador afirmou ter investido R$ 180 mil e recebido de volta apenas R$ 12 mil.

Os produtos estruturados por bancos em uma aplicação que combina diferentes ativos (renda fixa + renda variável, por exemplo) acabaram expostos à desvalorização de títulos corporativos que serviam como lastro.

Esses COEs estavam atrelados a bonds, ou seja, títulos de dívida emitidos por empresas no exterior, que sofreram forte queda após notícias sobre dificuldades financeiras das companhias emissoras. A desvalorização de até 90% dos papéis acionou cláusulas automáticas para proteger investidores. Essas cláusulas determinam que, se o ativo cai mais de 50%, o estruturador encerra o produto antes do vencimento. O problema é que, entre o acionamento do gatilho e a liquidação efetiva dos títulos, houve demora de semanas, o que ampliou ainda mais as perdas.

Segundo a analista da Nord Investimentos, Maria Luisa Paolantoni, o valor devolvido, no caso de uma das empresas envolvidas, foi de apenas 6,88% do aplicado. Dessa forma, sem perceber que o risco do emissor era determinante sobre o retorno, o investidor se distanciou dos resultados esperados nas promessas de rentabilidade de IPCA + 10% ao ano.

Compreensão sobre o produto deve ser assegurada

O episódio revela uma falha que vai além do comportamento individual de investidores, a lacuna de compreensão sobre o funcionamento de instrumentos financeiros complexos. Além disso, levanta a seguinte questão: os compradores realmente entendem o produto que estão investindo?

Como esclareceu o sócio do Henneberg Ferreira Linard Advogados, Arthur Longo Ferreira, “a análise do ativo subjacente, seja ele um bond corporativo ou qualquer outro instrumento de referência, faz parte do dever fiduciário de suitability e de governança. Não se trata apenas de cumprir formalidades regulatórias, mas de assegurar que o produto seja consistente com o perfil e o interesse econômico do investidor”.

Em muitos casos, no entanto, em vez de priorizar o entendimento do investidor, o volume de vendas se tornava a meta mais importante devido às comissões atraentes. Por esse motivo, criou-se uma dinâmica, em algumas empresas, conforme relatos, na qual ex-funcionários eram pressionados a vender o COE sem distinção de perfil de riscos e objetivos. O resultado foi uma onda de prejuízos que, em alguns casos, levou clientes à justiça.

Essas falhas chamam atenção para uma assimetria de informação entre instituições e investidores. Em um ambiente com produtos cada vez mais sofisticados, a educação financeira precisa acompanhar a evolução dos instrumentos disponíveis.

O episódio dos COEs serve como alerta sobre as promessas de rentabilidade e como um estímulo à qualificação profissional para um investimento mais seguro. No atual cenário financeiro, o investimento requer outras aptidões além de ler gráficos e ser bom com números.