• O debate atual no mundo corporativo questiona se o estilo agressivo de comando, como o de Jack Welch, está retornando diante das recentes reestruturações em grandes empresas como Tesla, Amazon e Meta.
  • CEOs que adotam medidas duras e foco em resultados tangíveis têm ganhado espaço, enquanto dados indicam que a capacidade de se relacionar com as pessoas continua sendo crucial para o sucesso da liderança.
  • O futuro da liderança corporativa tende a valorizar um equilíbrio entre estilos autocráticos e humanizados, com ênfase na afabilidade e na adaptação ao contexto organizacional e macroeconômico.
Resumo supervisionado por jornalista.

Processos recentes de demissão de funcionários e reestruturações significativas em grandes empresas têm levado o mundo corporativo a indagar se chegou ao fim a era de “CEOs bonzinhos ou simpáticos”. O movimento em empresas como Tesla, Amazon e Meta leva a pensar se o estilo agressivo de Jack Welch, da GE, estaria ganhando espaço novamente, no lugar de CEOs que adotam uma abordagem mais centrada nas pessoas. Mas não há consenso a respeito, sugerindo que os líderes mais bem-sucedidos do futuro encontrarão o equilíbrio entre as duas modalidades de gestão. 

Conhecido por medidas duras aplicadas ao comando da empresa, Jack Welch foi presidente e CEO da General Electric (GE) entre 1981 e 2001 e chegou a ser apelidado como “Neutron Jack”, uma referência à bomba de nêutrons, por eliminar funcionários, deixando os prédios intactos. A cada ano, por exemplo, Welch demitia 10% dos subordinados de seus gerentes, independentemente do desempenho absoluto. Mas, recompensava aqueles no top 20% com bônus e opções de ações. Sob sua batuta, a GE aumentou o valor de mercado de US$ 12 bilhões, em 1981, para US$ 410 bilhões quando ele se aposentou, em 2001. 

Reestruturações na Tesla, Amazon e Meta

Mas seria esse estilo de comandar o novo futuro dos CEOs? É o que discute matéria no site da Fortune, a partir de depoimentos de representantes do mercado. A discussão começou quando líderes como Elon Musk, da Tesla, Andy Jassy, da Amazon, e Mark Zuckerberg, da Meta, implementaram cortes abrangentes de empregos e reestruturações significativas, eliminaram divisões de baixo desempenho e estabeleceram expectativas agressivas de produtividade — medidas que alguns críticos chamaram de implacáveis. 

Esse estilo de liderança pós-pandemia – do tipo “comando e controle” – tem uma grande semelhança com a abordagem de gestão de alta pressão de Welch, que priorizava “a eficiência em detrimento do sentimento”, ao contrário de muitos comportamentos atuais, que colocam a atenção aos colaboradores da empresa no centro do processo. Mas, à medida que a dinâmica do mercado de trabalho transfere o poder de volta para os empregadores, esse modelo de liderança focado em resultados parece estar ganhando força.

Capacidade de se relacionar com as pessoas

Foto: fizkes/ Shutterstock

Por sua vez, Jane Edison Stevenson, vice-presidente global da Korn Ferry, empresa de consultoria organizacional e recrutamento executivo, observa que, embora Welch tenha sido um ícone indiscutível como CEO da GE, cujo estilo linha-dura de comando funcionou para a sua época, ele é “muito menos adequado ao cenário empresarial atual”. Dados da Korn Ferry sugerem que muitas métricas de sucesso de CEOs, incluindo a estabilidade, estão intimamente ligadas à capacidade de se relacionar com as pessoas. A executiva destaca, porém, que ser querido não é o objetivo, e grandes líderes não tentam agradar a todos. Em vez disso, eles são curiosos, colaborativos e decisivos. “Trata-se de construir consenso e alinhamento”, explica Stevenson. 

Já Rick Western, da Kotter, acredita que as empresas americanas estão voltando a avaliar líderes com base em resultados tangíveis que beneficiam Wall Street e os investidores, mas também todos os stakeholders. 

“Não se trata de habilidades interpessoais calorosas e aconchegantes, mas sim de saber se o CEO realmente consegue gerar resultados que sejam bons para o negócio no sentido mais amplo, e se está disposto a ser avaliado em relação a essas metas”, explicou Western.

Para Luciana Ferreira, professora da Fundação Dom Cabral (FDC), “sempre haverá espaço para muitos estilos de liderança”. Porém, segundo ela, desde a pandemia parecia haver menos espaço para líderes autocráticos ou no estilo Jack Welch.

“Isso aconteceu porque o melhor estilo de liderança sempre será aquele contingente ao contexto dos liderados, ao contexto organização e o contexto macro. Hoje, como temos um contexto macro marcado por dissenso e até alguma rejeição por modelos mais democráticos, há espaço para que lideranças do estilo comando-controle voltem a surgir”, destaca.

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Ainda assim, na visão de Luciana esse espaço é relativamente pequeno quando comparado com aquele que estimula lideranças mais humanizadas e lideranças que promovem desenvolvimento.

“É importante dizer que ambos estilos de liderança são capazes de trazer resultados e o que difere o processo sob o qual tais resultados são obtidos. Sempre acho importante que as pessoas líderes se perguntem: que tipo de liderança eu gostaria de ser? Na medida do possível, faça a sua escolha”, orienta.

Luciana alerta que não dá para romantizar diante de tantas evidências: é claro que alguns líderes irão preferir um modelo autocrático. Porém, cada vez menos as pessoas irão se sujeitar a esse tipo de relacionamento interpessoal e, por isso, tais lideranças estarão circunscritas a alguns poucos contextos específicos.

Afabilidade é fundamental

Seja o futuro dos CEOs focado na linha dura de comando ou na abordagem mais humanista da gestão, a matéria da Fortune destaca que algumas características dos líderes, como a afabilidade, continuam tendo papel fundamental. O texto menciona, por exemplo, o CEO da Thrive Capital, Joshua Kushner, descrito em um perfil da Fortune de 2023 como “patologicamente educado”, com uma “espessa camada de gentileza”. Já Greg Abel, o provável sucessor de Warren Buffett na Berkshire Hathaway, foi recentemente descrito na Fortune como “popular” e “super simpático”.

Como se vê, a gentileza é sempre bem-vinda e, com base nessa premissa, o artigo da Fortune conclui que “os CEOs mais eficazes conseguirão encontrar o ponto de equilíbrio entre as duas modalidades de liderança”.

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Dúvidas mais comuns

Os principais estilos de liderança incluem o Autocrático, onde o líder centraliza decisões e espera obediência; o Democrático, que envolve a equipe nas decisões e promove colaboração; o Liberal (Laissez-faire), que oferece autonomia total à equipe; o Transformacional, que inspira e motiva para inovação; e o Situacional, que adapta o estilo conforme o contexto e maturidade da equipe.

Jack Welch adotava um estilo de liderança agressivo e linha-dura, conhecido por demitir anualmente 10% dos subordinados de seus gerentes, independentemente do desempenho absoluto, e recompensar os melhores com bônus e opções de ações. Seu foco era a eficiência e resultados, priorizando o desempenho em detrimento do sentimento dos colaboradores.

Com recentes reestruturações e cortes de empregos em grandes empresas como Tesla, Amazon e Meta, o estilo de liderança focado em resultados e alta pressão tem ganhado força, especialmente em um mercado de trabalho onde o poder está mais nas mãos dos empregadores. Esse modelo prioriza eficiência e produtividade, similar ao estilo de comando e controle de Jack Welch.

Embora o estilo agressivo tenha funcionado em contextos passados, especialistas como Jane Edison Stevenson apontam que ele é menos adequado ao cenário atual, onde a capacidade de se relacionar com as pessoas e construir consenso é fundamental. Grandes líderes hoje são curiosos, colaborativos e decisivos, buscando equilíbrio entre resultados e relacionamento.

Os CEOs mais eficazes conseguem encontrar um ponto de equilíbrio entre um estilo de liderança linha-dura, focado em resultados, e uma abordagem mais humanizada, que valoriza o desenvolvimento e o relacionamento com os colaboradores. A gentileza e a afabilidade continuam sendo características importantes para liderar com sucesso no ambiente corporativo atual.

Um CEO eficaz cultiva resiliência, aprimora a tomada de decisão, desenvolve empatia, mantém-se informado, cuida do corpo e mente, pratica comunicação eficaz, desenvolve visão estratégica e cultiva paciência. Além disso, sabe construir consenso, é colaborativo e decisivo, equilibrando foco em resultados com atenção às pessoas.

Não existe um estilo único ideal. O melhor estilo de liderança depende do contexto dos liderados, da organização e do ambiente macroeconômico. Enquanto o estilo autocrático pode ser útil em alguns contextos específicos, a tendência atual é valorizar lideranças mais humanizadas que promovem desenvolvimento e engajamento.