• Empresas familiares brasileiras contratam CEOs externos em 60% dos casos, buscando profissionalização e melhor desempenho financeiro medido por ROA superior.
  • CEOs não familiares alcançam retorno sobre ativos de 4,08% contra 3,22% em gestões familiares, mas sua permanência no cargo depende de governança estruturada além do desempenho.
  • A maturidade da governança, incluindo conselhos independentes e acordos de acionistas, determina a autonomia do CEO e a sustentabilidade da profissionalização na empresa familiar.
Resumo supervisionado por jornalista.

A cadeira de CEO nas empresas familiares brasileiras está, cada vez mais, sendo ocupada por executivos que não carregam o sobrenome dos fundadores. O movimento, impulsionado pela busca por eficiência e profissionalização, já coloca colaboradores externos à frente de cerca de 60% dessas organizações. Ainda assim, a troca de comando não resolve, por si só, os desafios estruturais desse modelo de negócio, sobretudo os de influência e perfil político.

Segundo levantamento da Fundação Dom Cabral (FDC) sobre o tema, “O CEO na empresa familiar”, embora esses executivos entreguem desempenho financeiro superior, sua permanência no cargo costuma ser abreviada por fatores que vão além das metas. No centro do problema está um ambiente onde decisões formais convivem com dinâmicas informais de poder, criando o que especialistas descrevem como um “organograma invisível”.

Profissionalização como estratégia de desempenho

A contratação de CEOs externos reflete um movimento cada vez mais comum em empresas familiares que buscam maior profissionalização do cargo diante da fragilidade da governança e de tensões emocionais que interferem em decisões estratégicas. Ao trazer executivos de mercado, as famílias buscam incorporar práticas mais estruturadas e, consequentemente, desempenho operacional e econômico superior.

Os números reforçam essa lógica, uma vez que empresas lideradas por CEOs externos registram retorno sobre ativos (ROA) médio de 4,08%, acima dos 3,22% observados em gestões familiares. Apesar deste indicativo, só a contratação de um profissional não familiar não garante o sucesso do trabalho e da organização. O perfil sênior – com maioria tendo entre 50 e 69 anos e com carreira em engenharia ou administração – entrega experiência para o cargo, mas deve ser acompanhado também da profissionalização dos membros familiares proprietários.

Um dos caminhos para superar essa dinâmica disfuncional reside na estruturação de processos de governança. A pesquisa avalia essa estratégia como “um motor estruturado e disciplinado para a continuidade do negócio” e o CEO como um “tradutor e ‘construtor de pontes’ entre as esferas familiares e o pragmatismo do mercado”.

Nesse sentido, como resposta para as hipóteses iniciais do estudo, constatou-se a forte relação entre maturidade da governança e autonomia do CEO. À medida que se implementam os elementos de governança, aumenta-se a confiança da família controladora e, consequentemente, o CEO passa a atuar com maior autonomia.

Conselheiros independentes aumentam a confiança

Equipe de negócios em reunião fechando um acordo com um aperto de mãos, simbolizando parceria e colaboração empresarial.
Foto: David Gyung / Shutterstock / Modificada com IA

Parte do fortalecimento da governança, a criação de conselhos com agentes independentes permite que o CEO tenha uma operação mais sustentável, além de autonomia. De maneira objetiva, seu funcionamento permite que as decisões tomadas pelas famílias sejam confrontadas com base em parâmetros imparciais.

A devida implementação desses conselhos dá aos CEOs o respaldo externo para decidir sobre estratégias empresariais, além de mitigar riscos presentes em posições enviesadas. A liberdade para operar, no entanto, não é um atributo fixo, variando conforme o nível de confiança estabelecido entre família e gestão. Em empresas com governança madura, essa confiança é construída de forma contínua e sustentada por “regras claras, acordos de acionistas, suporte para gestão de conflitos e um conselho ativo e funcional”.

Na ausência desse arcabouço, o efeito é inverso: a autonomia se torna volátil e sujeita à informalidade das decisões. Em estruturas consolidadas, o conselho deixa de ser apenas um fórum consultivo e se consolida como um pilar de sustentação da liderança, condição para que a profissionalização da gestão se traduza, de fato, em longevidade empresarial. 

Para baixar a pesquisa na íntegra, clique aqui.

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Dúvidas mais comuns

As empresas familiares contratam CEOs externos principalmente para buscar maior profissionalização e eficiência operacional. Essa estratégia visa superar fragilidades na governança e reduzir tensões emocionais que interferem em decisões estratégicas. Os números comprovam essa lógica: empresas lideradas por CEOs externos registram retorno sobre ativos (ROA) médio de 4,08%, superior aos 3,22% observados em gestões familiares.

O CEO é um executivo contratado para gerenciar operações e estratégias da empresa, enquanto o dono é o proprietário que detém o capital e a responsabilidade legal sobre o negócio. Em empresas familiares, o dono é frequentemente um membro da família fundadora, enquanto o CEO pode ser um profissional externo. A distinção é importante porque permite separar a gestão profissional da propriedade familiar, reduzindo conflitos de interesse.

A implementação de processos estruturados de governança, incluindo conselhos com agentes independentes, aumenta significativamente a confiança da família controladora no CEO. À medida que se estabelecem regras claras, acordos de acionistas e mecanismos de gestão de conflitos, o CEO passa a atuar com maior autonomia. Conselheiros independentes permitem que decisões familiares sejam confrontadas com parâmetros imparciais, dando respaldo externo para estratégias empresariais.

Embora CEOs externos tragam experiência e desempenho financeiro superior, sua permanência no cargo costuma ser abreviada por fatores que vão além das metas. O principal desafio é que a profissionalização deve se estender também aos membros familiares proprietários. Sem a profissionalização da família e a estruturação de governança, o CEO enfrenta um ambiente onde decisões formais convivem com dinâmicas informais de poder, criando um 'organograma invisível' que limita sua efetividade.

O 'organograma invisível' refere-se às dinâmicas informais de poder que coexistem com a estrutura formal de decisões em empresas familiares. Essas dinâmicas, frequentemente baseadas em relações familiares e influências políticas, podem contradizer ou sobrepor-se às decisões formais, criando um ambiente confuso e disfuncional. Esse fenômeno é um dos principais obstáculos para que CEOs externos alcancem seu potencial completo.

Os CEOs externos em empresas familiares geralmente apresentam perfil sênior, com maioria tendo entre 50 e 69 anos e formação em engenharia ou administração. Esse perfil traz experiência consolidada e conhecimento de mercado, essencial para implementar práticas estruturadas e melhorar o desempenho operacional. A maturidade profissional desses executivos é fundamental para atuar como 'tradutor e construtor de pontes' entre as esferas familiares e o pragmatismo do mercado.

Conselheiros independentes criam um fórum onde as decisões podem ser avaliadas com base em parâmetros imparciais, não apenas em influências familiares. Isso fornece ao CEO respaldo externo para decidir sobre estratégias empresariais e mitiga riscos presentes em posições enviesadas. Em estruturas consolidadas, o conselho deixa de ser apenas consultivo e se consolida como um pilar de sustentação da liderança, condição essencial para que a profissionalização se traduza em longevidade empresarial.

Existe uma forte relação entre maturidade da governança e autonomia do CEO, que por sua vez impacta sua permanência no cargo. Empresas com governança madura estabelecem regras claras, acordos de acionistas e mecanismos de gestão de conflitos, criando um ambiente de confiança contínua. Sem esse arcabouço, a autonomia do CEO se torna volátil e sujeita à informalidade, resultando em permanências abreviadas e descontinuidade estratégica.