A imagem de trabalhadores em porões ou em áreas isoladas é apontada como uma das principais dificuldades de combate à escravização, por ser um “crime oculto”, difícil de ser detectado em cadeias de valor complexas. No entanto, além dos desafios objetivos, distorções de “enquadramento” levam gestores e comunidades a racionalizar o trabalho análogo à escravidão, sendo omissos e até mesmo perplexos diante da Lei e das práticas de trabalho aceitáveis contemporaneamente. A partir de um caso ocorrido em 2023, do resgate de 207 trabalhadores na região de Bento Gonçalves (RS), o artigo Cegueira ética e o fracasso na prevenção da escravatura moderna nas cadeias de suprimento revela como diversos atores da comunidade, e não apenas os proprietários de vinícolas, recorrem a distorções para minimizar, racionalizar e, em última instância, negar a situação.

O artigo recebeu o prêmio Modern Slavery Best Paper, do Journal of Supply Chain Management, durante a Business and Modern Slavery Research Conference de 2914, em Brighton (UK). Os professores Alice Erthal, da Fundação Dom Cabral; Leonardo Marques, da Audiencia Business School; e Andrew Crane, da Bath School of Management, partiram de um questionamento sobre o suposto ocultamento dos crimes e buscaram as razões da “vista grossa”. 

“Os acontecimentos tiveram lugar numa região rica e numa pequena cidade – num caso, especificamente, num alojamento a cinco minutos dos escritórios das adegas – desafiando assim a suposição de que as práticas eram essencialmente ocultas. O alojamento onde os trabalhadores sofreram diversos tipos de violência, restrição de liberdade e de direitos básicos também ficava a três minutos da delegacia”, constatam os autores.

Rigidez, desumanização e negação

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Com a melhoria das condições de seguridade para os trabalhadores da região, aumentaram a contratação de imigrantes de locais mais pobres ou outros países do continente. Na investigação se constataram alojamentos insalubres, alimentação insuficiente, jornadas de até 15 horas, inadimplência e violência física extrema. Mesmo diante das revelações, a maioria se mantinha irredutível em comparações anacrônicas, tanto do contexto quanto das situações individuais.

A alegação inicial foi que o trabalho é sempre positivo por si só. “Alguns exemplos dessa perspectiva foram expressos por proprietários de vinícolas e moradores locais que descreveram sua infância, como saíam da escola e iam direto para a vinha ajudar a família na colheita. Os agricultores também mencionaram longos dias de trabalho – cerca de 12 a 15 horas – regularmente, durante as semanas de colheita. Vários entrevistados destacaram como os seus avós e outros antepassados vieram de Itália e como trabalharam arduamente”, descreve o artigo.

Contudo, essa memória não gera reconhecimento, menos ainda empatia. “Apesar da persistência da perspectiva de ‘trabalho duro é dignidade’, nossas entrevistas com agricultores e comunidades locais sugeriram que eles não viam os nordestinos brasileiros ou os latino-americanos estrangeiros como eles próprios. Mencionavam frequentemente que ‘essas pessoas não querem trabalhar’ ou que reclamam demais”, contam os autores.

A investigação criteriosa e até mesmo a condenação dos empregadores na ilegalidade não foram suficientes para alarmar vários setores da comunidade, incluindo voluntários de ONGs, jornalistas do setor de enofilia e parceiros desses fornecedores. 

No artigo, é mencionado que um dos pesquisadores se defrontou recorrentemente com reações de ironia, como se estivesse investigando um fato totalmente excepcional e anedótico.

Paradigmas contra a cegueira ética

Os autores do artigo premiado reconhecem os desafios relacionados à visibilidade das relações de trabalho nos diversos elos das cadeias de produção. No entanto, também assumem as ponderações da pesquisadora Genevieve LeBaron, da Bath School of Management, sobre essa dificuldade objetiva. 

Segundo a autor,a a conjugação de indústrias sob forte pressão de custos, altas margens e populações vulnerabilizadas já sinaliza os focos de riscos. Com essa premissa, um bom levantamento de dados, informações contábeis e noticiários locais funcionam para minimizar as violações.

Como desdobramento da investigação sobre a cegueira ética, no caso do município de Bento Gonçalves, os pesquisadores querem aprofundar nas circunstâncias e na trajetória subjetiva dos entrevistados que demonstraram atualização de seus valores, com o objetivo de criar formas de promover mudanças de paradigma, para que os abusos não persistam mesmo que não haja sequer a preocupação de ocultá-los.

Dúvidas mais comuns

A escravidão moderna é composta por trabalho análogo ao de escravo e casamento forçado, envolvendo situações de exploração que uma pessoa não pode recusar ou deixar devido a ameaças, violência, coerção, engano ou abuso de poder.

Na escravidão antiga, a lei permitia que uma pessoa fosse propriedade de outra, podendo ser negociada como mercadoria. Hoje, o Código Penal Brasileiro proíbe que uma pessoa seja tratada como objeto, embora práticas de exploração ainda ocorram na escravidão moderna.

A escravidão moderna é considerada um "crime oculto" porque ocorre em locais isolados ou porões, e em cadeias de valor complexas, o que dificulta sua identificação. Além disso, distorções mentais e a cegueira ética fazem com que gestores e comunidades racionalizem ou neguem essas práticas.

Cegueira ética é um mecanismo mental pelo qual gestores, comunidades e outros atores minimizam, racionalizam ou negam a existência do trabalho forçado, mesmo diante de evidências e condenações legais, naturalizando práticas abusivas e mantendo a escravidão efetivamente invisível.

Alguns proprietários e moradores locais comparam o trabalho atual ao esforço dos seus antepassados, valorizando o "trabalho duro" como dignidade. Contudo, essa memória não gera empatia pelos trabalhadores atuais, especialmente imigrantes, que são vistos como diferentes e menos merecedores de direitos.

Foram constatados alojamentos insalubres, alimentação insuficiente, jornadas de até 15 horas, inadimplência salarial e violência física extrema contra os trabalhadores, que viviam próximos às instalações e até mesmo a delegacia local.

O combate envolve identificar riscos por meio de dados, informações contábeis e noticiários locais, além de promover mudanças de paradigma para atualizar valores e aumentar a preocupação social, evitando que abusos persistam mesmo quando não há tentativa de ocultá-los.