• A carne cultivada é apresentada como uma alternativa sustentável à pecuária convencional, reduzindo impactos ambientais e respeitando a vida animal ao ser produzida sem abate.
  • Pesquisadores e órgãos como a FAO destacam que a demanda por carne aumentará em dois terços até 2060, tornando a carne cultivada essencial para suprir essa demanda de forma ambientalmente responsável.
  • Apesar dos benefícios ambientais, a produção de carne cultivada enfrenta desafios como a necessidade de ambientes estéreis e o uso de materiais plásticos descartáveis, o que pode gerar impactos ambientais adicionais.
Resumo supervisionado por jornalista.

Reportagem publicada no jornal Le Monde destaca as vantagens da carne cultivada para o meio ambiente e condena os críticos desse tipo de alimento, afirmando que querem “manter o status quo de nossas dietas”, a despeito dos prejuízos que a dependência do gado causa ao planeta. O raciocínio foi exposto em um fórum promovido pelo jornal francês, que reuniu 15 acadêmicos, entre eles a filósofa Florence Burgat e a geneticista Marie-Claude Marsolier.

Os acadêmicos argumentaram que “as preocupações legítimas sobre a carne convencional são continuamente ignoradas no nível político”. “Ao falar sobre carne cultivada, não devemos perder de vista o quão insustentável é o nosso consumo atual e a necessidade de buscar alternativas”, publicou o jornal.

A reportagem admite que há muitas exigências em torno da carne cultivada e ainda há poucos dados a respeito de seu desenvolvimento. No entanto, as críticas não deveriam encobrir os benefícios que a carne de laboratório pode trazer ao meio ambiente. “Embora as críticas sejam sólidas, é lamentável que às vezes sejam baseadas em dados parciais, desatualizados ou apresentados de forma desonesta”, defenderam os pesquisadores na matéria. E acrescentaram: “há um sólido consenso na comunidade científica sobre a necessidade de reduzir a produção de carne convencional”.

Produção em laboratório, sem abate

A carne cultivada, carne de laboratório ou carne artificial é a carne produzida em laboratório por meio de técnicas de bioengenharia – sem abate, segundo definição do site eCycle,. Dessa forma, ela é produzida a partir de células animais, com a retirada indolor de uma amostra de tecido muscular. Em seguida, a amostra é transformada em massas de células e isso é feito tanto com vacas quanto com galinhas, coelhos, patos, camarões e até peixes.

carne sem abate

A defesa da carne cultivada não está apenas no respeito à vida animal, conforme reivindicam instituições como a Mercy for Animals. “As alternativas à pecuária são importantes aliadas ao meio ambiente e a um mundo sustentável, hoje e no futuro”, pontua a entidade. 

Demanda de carne aumentará em dois terços

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que a demanda por carne deve aumentar em mais de dois terços nos próximos 40 anos. A pecuária tem evoluído na sustentabilidade do seu processo produtivo e será importante para suprir essa demanda, mas não dará conta do recado sozinha, motivo pelo qual a carne cultivada tem, e terá cada vez mais, o seu espaço no mercado.

Brasil deve ter carne cultivada em 2024

O desenvolvimento da carne cultivada é recente. Em 2013, Mark Post, professor da Universidade de Maastricht, na Holanda, apresentou o primeiro “hambúrguer de laboratório”, produzido a partir da reprodução de células-tronco bovinas. Deste então, as iniciativas aumentaram e, em 2018, a Food And Drug Administration, dos EUA, estabeleceu um marco regulatório e abriu caminho para a comercialização desses produtos.

O Brasil, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, deve começar a produzir e comercializar carne cultivada em 2024. A informação foi dada por Raquel Casseli, diretora de engajamento corporativo do The Good Food Institute (GFI), organização sem fins lucrativos que financia projetos e pesquisas e envolve empreendedores que buscam a regulamentação desse mercado no país.

Leia também:

Em artigo no francês Liberátion, pesquisador brasileiro aposta em carne vegetal para o futuro ambiental

O lado B da produção em laboratório

Apesar das vantagens ambientais sobre a indústria pecuária, a carne cultivada tem um lado B. Segundo a reportagem do eCycle, os animais têm um sistema imunológico que os protege naturalmente contra infecções bacterianas. Este não é o caso da cultura de células e, em um ambiente rico em nutrientes, as bactérias se multiplicam muito mais rápido do que as células animais. 

Para evitar a produção de carne cultivada com mais bactérias do que a carne animal, é preciso evitar a contaminação – e isso requer um alto nível de esterilidade. Na indústria farmacêutica, as culturas de células são realizadas em “salas limpas” altamente controladas e higienizadas. A esterilidade é garantida pelo uso de materiais plásticos descartáveis, grandes inimigos do meio ambiente.

Dúvidas mais comuns

Carne cultivada, também conhecida como carne de laboratório ou carne artificial, é produzida em laboratório por meio de técnicas de bioengenharia, a partir de células animais sem a necessidade de abate. Essas células são cultivadas em ambiente controlado para formar tecido muscular, podendo ser de vacas, galinhas, peixes, entre outros.

A carne cultivada oferece vantagens ambientais significativas, pois reduz a dependência da pecuária tradicional, que é insustentável e causa prejuízos ao planeta. Ela evita o abate de animais e pode diminuir o impacto ambiental relacionado à produção de carne convencional, contribuindo para um mundo mais sustentável.

Sim, o Brasil deve começar a produzir e comercializar carne cultivada em 2024, conforme informado por especialistas e organizações que apoiam o desenvolvimento e regulamentação desse mercado no país.

Um dos principais desafios é garantir a esterilidade durante o cultivo das células, pois, ao contrário dos animais, as culturas celulares não possuem sistema imunológico e são suscetíveis à contaminação bacteriana. Isso exige ambientes altamente controlados e o uso de materiais descartáveis, que podem impactar o meio ambiente.

Com a previsão de aumento de mais de dois terços na demanda mundial por carne nos próximos 40 anos, a pecuária tradicional sozinha não será suficiente para suprir essa demanda. A carne cultivada surge como uma alternativa viável para atender essa necessidade, reduzindo impactos ambientais e promovendo a segurança alimentar.

Sim, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) publicou regulamentações que autorizam o registro e comercialização de alimentos produzidos por cultivo celular, incluindo a carne cultivada, integrando-a ao rol de proteínas autorizadas no Brasil.

A carne cultivada é produzida a partir da retirada indolor de uma amostra de tecido muscular, sem a necessidade de abater animais. Isso atende a reivindicações de instituições que defendem o respeito à vida animal, tornando-se uma alternativa ética à pecuária tradicional.