O brasileiro se tornou um consumidor financeiramente mais pragmático. No almoço, usa Pix pela rapidez. Na compra do eletrodoméstico, recorre ao cartão de crédito para parcelar. No fim do mês, acompanha aplicativos, controla a fatura e tenta equilibrar o orçamento diante de juros elevados e tarifas bancárias que pesam cada vez mais no bolso.
Essa é uma das principais conclusões da “Pesquisa sobre Meios de Pagamento na Percepção de Pessoas Físicas“, realizada pela Elo, em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). O estudo investigou os hábitos de consumo e a maturidade financeira dos brasileiros em relação aos meios de pagamento.
O estudo revela que a transformação digital do sistema financeiro brasileiro avançou rapidamente nos últimos anos, mas a percepção de valor dos consumidores não acompanhou o mesmo ritmo. Embora os usuários reconheçam ganhos claros de conveniência, agilidade e facilidade operacional, cresce a sensação de que os custos cobrados pelas instituições financeiras são excessivos.
A pesquisa revela o comportamento dos brasileiros, como passaram a utilizar diferentes meios de pagamento de forma complementar, de acordo com o contexto da compra, o valor da transação e a necessidade de controle financeiro.
O consumidor não escolhe um único meio de pagamento
Os dados revelados pelo estudo apontam que Pix e cartão de crédito não competem diretamente. Na prática, eles cumprem funções diferentes dentro da organização financeira das famílias.
O Pix domina operações ligadas à rotina e ao imediatismo. É o meio preferido para contas de consumo, compras online, aplicativos de transporte e delivery, restaurantes e farmácias. O principal motivo apontado pelos usuários é a praticidade: pagar rapidamente, sem burocracia e com confirmação instantânea.
Já o cartão de crédito permanece como protagonista em compras de maior valor. Eletrodomésticos, móveis, viagens e serviços de maior custo continuam fortemente associados ao parcelamento, mecanismo que permite diluir despesas ao longo do tempo e preservar parte do orçamento mensal.
A pesquisa mostra que o parcelamento segue sendo um dos principais pilares do consumo no Brasil, especialmente em um cenário de renda pressionada e juros elevados. Mais do que uma preferência tecnológica, o comportamento observado revela uma estratégia financeira adaptativa. O consumidor utiliza o Pix para manter a liquidez no cotidiano e recorre ao crédito quando precisa ampliar capacidade de compra sem comprometer imediatamente a renda disponível.
Maturidade financeira baseada em controle e sobrevivência

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a análise das seis dimensões que definem a maturidade dos meios de pagamento:
- conhecimento, facilidade de uso e conveniência;
- acesso, recompensas e benefícios;
- prestígio e pertencimento;
- segurança e riscos;
- relacionamento com o banco;
- valor percebido.
A dimensão melhor avaliada pelos brasileiros está ligada justamente à usabilidade e à conveniência operacional. Os consumidores reconhecem que os meios digitais tornaram pagamentos mais simples, rápidos e integrados à rotina.
Por outro lado, o levantamento mostra que maturidade financeira, no contexto brasileiro, não significa necessariamente sofisticação econômica. Ela aparece associada principalmente ao esforço de controle do orçamento.
Os consumidores demonstram preocupação crescente com:
- acompanhamento de gastos;
- gestão da fatura;
- comparação de custos;
- organização financeira individual;
- escolha racional do meio de pagamento.
Na prática, o estudo sugere que o brasileiro desenvolveu uma relação mais consciente com o dinheiro em resposta às pressões econômicas dos últimos anos.
Apesar dos avanços tecnológicos e da alta digitalização bancária, a pesquisa identifica um ponto crítico na relação entre consumidores e instituições financeiras: a percepção de custo-benefício. A dimensão “Valor Percebido” recebeu a pior avaliação entre todas as analisadas. Os consumidores consideram que juros, tarifas, IOF e encargos reduzem significativamente os benefícios oferecidos pelos serviços financeiros.
O estudo aponta uma percepção de desequilíbrio: embora os meios de pagamento funcionem bem e tragam praticidade, muitos clientes não acreditam que o preço cobrado seja proporcional ao valor entregue. Esse cenário revela uma mudança importante no comportamento do consumidor. A eficiência operacional deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser vista apenas como obrigação básica. Aplicativos intuitivos, pagamentos rápidos e integração digital já não garantem fidelização automática.
O novo desafio para bancos, fintechs e emissores é construir relações mais transparentes e oferecer benefícios percebidos como concretos pelo usuário como descontos claros, recompensas acessíveis e condições financeiras mais compreensíveis.
Diferenças regionais mostram desigualdade no acesso ao crédito
A pesquisa também evidencia diferenças importantes entre regiões do país. Sul e Sudeste apresentam comportamento semelhante, com maior utilização de crédito e presença mais forte do cartão em compras parceladas. Já no Nordeste, o uso do crédito aparece de forma mais moderada.
Os dados refletem fatores estruturais, como renda, acesso ao sistema financeiro e perfil de consumo regional. Além das diferenças culturais, o estudo sugere que o acesso ao crédito ainda acompanha desigualdades históricas da economia brasileira.
Isso reforça um debate sobre inclusão financeira e que, na prática, isso não significa apenas acesso a contas digitais ou aplicativos bancários, mas também envolve a capacidade de utilização dos instrumentos financeiros disponíveis.
A pesquisa indica que a próxima etapa da transformação financeira brasileira não será definida apenas pela tecnologia. O avanço do Pix, da digitalização bancária e das plataformas de pagamento já consolidou um novo padrão operacional. Agora, a disputa tende a ocorrer em torno da percepção de valor, da transparência e da construção de confiança.
O consumidor brasileiro continua buscando praticidade, mas quer, cada vez mais, entender exatamente quanto paga, o que recebe em troca e como isso impacta seu orçamento. Nesse cenário, a maturidade dos meios de pagamento passa menos pela inovação tecnológica em si e mais pela capacidade das instituições financeiras de oferecer relações mais equilibradas, compreensíveis e sustentáveis para os clientes.