• Treze acadêmicos, incluindo o brasileiro Ricardo Azambuja, pedem ao governo francês a adoção urgente de uma agricultura sustentável para enfrentar a crise climática e hídrica na Europa.
  • A seca mais severa em 500 anos, combinada com o aumento dos preços dos insumos e a alta dependência da pecuária, ameaça a viabilidade da produção agrícola e pecuária na França.
  • A transição para sistemas agrícolas sustentáveis e a promoção de dietas mais saudáveis são essenciais para reduzir o impacto ambiental e garantir a segurança alimentar no setor europeu.
Resumo supervisionado por jornalista.

Um grupo de 13 acadêmicos publicou um artigo no prestigioso jornal francês Le Monde apelando por uma agricultura mais sustentável. O documento é dirigido ao governo francês, mas traz muita informação sobre condições europeias e também pode ser entendido como um apelo global. Ricardo Azambuja, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) e da Rennes School of Business, baseada na França, é um dos signatários do artigo. 

Publicado em setembro deste ano, o artigo destaca que a seca atual que atinge grande parte da Europa é a maior registrada desde 1959, e pode ser a mais intensa dos últimos 500 anos. “Da Noruega à Espanha, os rios estão encolhendo, os lagos estão se esvaziando, os lençóis freáticos estão baixando. Se os humanos continuarem a emitir gases de efeito estufa no ritmo atual, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevê um aumento de temperatura de 3,9°C até 2050, o que causaria secas dessa magnitude pelo menos a cada dois anos”, alerta o documento. 

Transição para agricultura sustentável é o segredo

Os efeitos incluem o déficit de colheita de pastagens de 21% em julho de 2022 na França. “Somando-se ao aumento dos preços dos fertilizantes, cereais e oleaginosas, reforçado pela invasão russa da Ucrânia, a situação torna-se insustentável para os criadores franceses, alguns dos quais podem desaparecer por não conseguirem compensar o aumento dos preços de produção”, continua o alerta dos pesquisadores. 

Segundo eles, a pecuária, já criticada por um lado por sua alta contribuição para as emissões de gases de efeito estufa (metano) e nitrogênio (amônia, nitratos), agora está enfraquecida pela seca. 

agricultura sustentavel

O artigo lembra que a produção de 1 quilo de proteína de carne bovina francesa requer uma média de 12,5 quilos de proteína vegetal. Para a carne suína, cuja maior parte da ração é comestível para humanos, 1 quilo de proteína animal requer o uso de 2,4 quilos de proteína vegetal. Isso resulta em uma forte retirada de recursos, uma maior necessidade de água e superfície. E mais: de acordo com o Greenpeace, 71% das terras agrícolas europeias são usadas para alimentar o gado.

Para os pesquisadores, a solução não é a gestão perpétua de crises e sim a transição dos agricultores para um sistema mais sustentável e também a orientação para hábitos mais saudáveis de alimentação na população.  

Dúvidas mais comuns

Agricultura sustentável é um modelo de produção agrícola que busca atender às necessidades atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações de suprirem suas próprias demandas, promovendo equilíbrio ambiental, econômico e social.

Os três principais objetivos da agricultura sustentável são preservar os recursos naturais, garantir a segurança alimentar e promover a inclusão social no campo, assegurando um desenvolvimento equilibrado e duradouro.

A agricultura sustentável é sustentada por três pilares principais: o ambiental, que envolve a preservação dos recursos naturais e proteção da biodiversidade; o econômico, que busca viabilidade financeira para os produtores; e o social, que promove o bem-estar das comunidades rurais.

Práticas essenciais incluem plantio direto, rotação de culturas, uso de tecnologia de precisão, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), manejo integrado de pragas e doenças, conservação de áreas de preservação permanente (APPs), uso eficiente da água e agricultura de baixo carbono (ABC).

A transição é crucial devido à seca intensa que afeta a Europa, a maior desde 1959, que reduz a disponibilidade de água e a produtividade agrícola. Além disso, a agricultura sustentável ajuda a mitigar as emissões de gases de efeito estufa e a garantir a viabilidade econômica dos produtores diante do aumento dos preços de insumos.

A pecuária contribui significativamente para as emissões de gases de efeito estufa, como metano, e para o uso intensivo de recursos naturais, pois a produção de proteína animal requer grandes quantidades de proteína vegetal, água e terra. Na Europa, 71% das terras agrícolas são usadas para alimentar o gado, o que reforça a necessidade de práticas mais sustentáveis e mudanças nos hábitos alimentares.

Os acadêmicos pedem que o governo francês abandone a gestão de crises perpétuas e promova uma transição para um modelo de agricultura sustentável, que seja capaz de enfrentar os desafios climáticos, garantir a segurança alimentar e apoiar os agricultores em um sistema mais resiliente e equilibrado.