Emergência climática, fragmentação geopolítica e transformação tecnológica estão mudando a lógica das cadeias produtivas globais e podem abrir uma janela de oportunidade para o Brasil. Aproveitá-la, no entanto, exige transformar vantagens já existentes — como energia renovável, alimentos, minerais, biomassa e biodiversidade — em atividades de maior valor agregado, capazes de elevar produtividade e renda.

Essa é a principal reflexão do ensaio “Riqueza natural, prosperidade construída”, de Aldemir Drummond, professor da Fundação Dom Cabral e coordenador da iniciativa Imagine Brasil. O ensaio integra a edição especial da revista DOM em comemoração aos 50 anos da FDC e foi tema da apresentação de Drummond durante o encontro Caminhos para Futuros Positivos, realizado no campus da instituição em São Paulo, no final de agosto. 

O ponto de partida de Drummond é conhecido na história econômica brasileira. Em seu trabalho, ele aponta que matérias-primas como pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café, minério de ferro, soja e petróleo, entre outras, representam diferentes ciclos de geração de riqueza baseados em recursos naturais. O país desenvolveu competência para ampliar sua produção e presença nos mercados internacionais, mas capturou uma parcela limitada do valor gerado em várias dessas cadeias. A transformação industrial, o desenvolvimento tecnológico, as marcas globais e os segmentos mais rentáveis ficaram, muitas vezes, em outros países.

A proposta apresentada em seu ensaio é utilizar essa base de recursos como ponto de partida para atividades mais sofisticadas.

O Brasil pode construir uma prosperidade sustentável e inclusiva a partir da industrialização de suas vantagens comparativas, transformando riqueza natural em produtividade, inovação e renda

Aldemir Drummond

Um novo mapa da produção

A oportunidade identificada pelo professor está relacionada às mudanças na economia mundial. Durante décadas, a organização das cadeias globais privilegiou principalmente a eficiência de custos, favorecendo regiões com mão de obra abundante e barata. Porém, choques logísticos, guerras, sanções, eventos climáticos e disputas entre grandes potências aumentaram o peso de critérios como segurança econômica, autonomia estratégica e resiliência. 

Ao mesmo tempo, energia limpa e recursos naturais ganharam relevância nas decisões de localização industrial. A eletrificação dos processos produtivos, a digitalização e a automação reduziram o peso relativo dos salários em algumas atividades, enquanto energia, restrições ambientais e segurança das cadeias passaram a influenciar mais as decisões de investimento. 

Nesse cenário, Drummond identifica uma combinação favorável ao Brasil: matriz elétrica majoritariamente renovável, recursos naturais e minerais críticos, território e mercado consumidor de grande escala, agricultura sofisticada, relativa estabilidade geopolítica e proximidade de mercados como América do Norte e Europa. 

Durante sua apresentação no evento Caminhos para Futuros Positivos, Drummond chamou atenção justamente para o caráter temporal dessa vantagem. Em sua avaliação, o país pode utilizar suas vantagens naturais como ponto de partida para desenvolver atividades mais sofisticadas.

“Quais escolhas vamos fazer hoje para que essa história não se repita?”, questionou, ao abordar a nova oportunidade que se abre para o país. Para Drummond, o Brasil precisa mudar a lógica que durante muito tempo tratou os recursos naturais como ponto de chegada. Em vez de apenas extrair, produzir e exportar, o país pode avançar nas cadeias nas quais já possui vantagens, incorporando tecnologia, conhecimento, serviços e inovação.

O ensaio reforça esse alerta ao observar que as decisões sobre localização de novas cadeias produtivas estão sendo tomadas rapidamente, com forte participação dos governos e políticas de reindustrialização em grandes economias. 

Industrializar o que o Brasil já faz bem

Energia limpa: vista aérea de um parque solar com fileiras de painéis fotovoltaicos em meio a campos verdes e um aerogerador ao fundo.
Industrialização pode reduzir a exposição do país às oscilações dos preços das commodities (Foto: Alexgo.photography)

A estratégia proposta por Drummond parte dos setores nos quais o país já possui vantagens. Em vez de tentar reproduzir modelos de industrialização de outros países, a ideia é avançar nas cadeias relacionadas a energia limpa, alimentos, biomassa, minerais, insumos naturais, biocombustíveis e biodiversidade, incorporando processamento, engenharia, serviços especializados, tecnologia e novos modelos de negócio. 

Na agropecuária, por exemplo, isso significa ampliar a participação de alimentos processados, ingredientes especiais e soluções tecnológicas. Na energia, a disponibilidade de fontes renováveis pode contribuir para atrair indústrias eletrointensivas de baixo carbono e desenvolver cadeias relacionadas a hidrogênio e combustíveis sustentáveis. Na biodiversidade, o conhecimento científico pode ser convertido em fármacos, cosméticos, biomateriais e outros insumos. Na mineração, a proposta é avançar para etapas mais sofisticadas das cadeias associadas à transição energética. 

A estratégia também pode reduzir a exposição do país às oscilações dos preços das commodities, ampliar a arrecadação e favorecer empregos urbanos de maior qualidade. Drummond ressalva, porém, que agregar valor não deve ser uma regra aplicada indiscriminadamente. Há segmentos em que custos, escala, tecnologia ou acesso aos mercados podem tornar a industrialização pouco competitiva. As escolhas, segundo o ensaio, precisam ser feitas a partir de análises econômicas criteriosas. 

Oportunidade exige coordenação

Transformar essas vantagens em prosperidade depende também de articulação entre governo, empresas, academia e terceiro setor. Entre os caminhos apresentados no ensaio estão uma estratégia nacional para industrializar vantagens comparativas, infraestrutura integrada a clusters produtivos, diplomacia econômica, qualificação profissional e maior conexão entre políticas industriais, energéticas, comerciais e de inovação. 

Ao setor privado, Drummond atribui o papel central na transformação produtiva, com maior internacionalização, investimento em inovação e tecnologia, integração às cadeias globais e incorporação da descarbonização à estratégia competitiva. O ensaio também destaca a importância de universidades, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil na produção de conhecimento, métricas e certificações e na articulação entre empresas, governo e territórios.

Há ainda um elemento de urgência. O professor observa que o Brasil já possui uma participação elevada de fontes renováveis na geração elétrica, enquanto outras grandes economias ainda perseguem essa transformação. Essa vantagem tende a diminuir à medida que outros países avançam na transição energética. 

Por isso, a discussão proposta pelo professor desloca a questão da disponibilidade de recursos para a capacidade de transformá-los. No ensaio publicado na DOM, Drummond sintetiza: “a riqueza natural brasileira já existe”. A prosperidade, acrescenta, “precisará ser construída”.