Embora o Brasil consuma cerca de 100 milhões de litros de azeite anualmente, apenas 1% dessa demanda é atendida pelos produtores nacionais. A cadeia de valor brasileira, apesar da pouca participação de mercado, é bastante focada. Primeiro porque mira no consumidor mais maduro. E, segundo, porque prioriza a sustentabilidade.
O comprador médio está na faixa de 35 a 54 anos, com renda média a alta, e forte interesse em um estilo de vida saudável e gastronomia. Esse perfil foi detalhado no estudo Produção, Sustentabilidade e Consumo do Azeite Brasileiro: Uma investigação na cadeia de valor, elaborado pelos professores Paulo Renato de Sousa (Fundação Dom Cabral – FDC), Marcelo Werneck (Pontificia Universidad Catolica de Chile), Jéssica Lichy (Idrac Business School) e pela azeitóloga Ana Beloto.
Segundo eles, o Brasil consolidou-se como um dos maiores importadores e consumidores de azeite de oliva do mundo e vem apresentando um crescimento constante. No entanto, o problema é que o mercado brasileiro foi historicamente bombardeado por produtos internacionais de baixa qualidade. Esse cenário criou uma distorção preocupante: grande parte da população simplesmente não conhece o real sabor, aroma e textura de um azeite de qualidade.
Além disso, o estudo mostra que existe uma crença enraizada de que o produto importado é invariavelmente superior. Na verdade, aqueles estrangeiros que são geralmente comercializados no Brasil costumam apresentar qualidade inferior.
“Com foco na alta qualidade, práticas sustentáveis e na educação do consumidor, o Brasil pode não apenas aumentar sua produção, mas também se afirmar como um player relevante no mercado global de azeites, oferecendo produtos que refletem a riqueza e a diversidade de seus terroirs”, diz Sousa, da FDC.
“Ao elevar a percepção de um produto de qualidade, forma-se um ciclo positivo que exige que os azeites importados abasteçam os mercados com produtos de qualidade“
Paulo Renato de Sousa (Fundação Dom Cabral – FDC)
Rio Grande do Sul lidera produção
Por outro lado, a excelência do azeite nacional está intrinsecamente ligada à proximidade. A velocidade de envase e a agilidade na distribuição até o consumidor final são diferenciais na preservação das propriedades sensoriais do produto, algo que os produtores locais conseguem garantir.
Na avaliação dos especialistas, o produto brasileiro posiciona-se como um item premium, refletindo modos corretos e cuidadosos de manejo, em contraste com as práticas muitas vezes duvidosas de marcas estrangeiras de baixo custo.
No entanto, até mesmo o público comprador de renda média esbarra na barreira do preço. O azeite nacional é naturalmente ofertado a valores mais altos, devido aos custos atrelados a um processo produtivo rigoroso e cuidadoso.
Para os autores do relatório, o consumidor desavisado é frequentemente atraído por preços irrealistas. Eles destacam a necessidade de disseminar a informação de que são necessários, em média, 10 kg de azeitonas para produzir um litro de azeite, o que torna impossível a venda de produtos legítimos a preços ínfimos.
No caso brasileiro, a pesquisa mostrou ainda que os produtores locais focam na qualidade e não na escala industrial, frequentemente adotando práticas sustentáveis, como a reutilização de resíduos da poda e a ausência de agrotóxicos agressivos.
Um dos marcos da indústria brasileira foi a primeira extração experimental de azeite extravirgem no país, realizada em 2008, na cidade mineira de Maria da Fé. Hoje, o Rio Grande do Sul responde por 75% da produção e a Serra da Mantiqueira desponta como um polo promissor.

Outro dado importante é que os produtos nacionais têm conquistado prêmios internacionais, competindo de igual para igual com potências como Espanha e Itália. O grande obstáculo para o setor, no entanto, já não é a capacidade produtiva, mas sim a necessidade de educação do consumidor brasileiro.
Fraude dos importados
De acordo com eles, um dos reflexos dessa desinformação é a forma como o brasileiro escolhe o seu azeite nas prateleiras. A pesquisa revela que há uma desconexão total entre a percepção do consumidor e a realidade científica sobre a acidez do produto. Muitos associam erroneamente a acidez a fatores sensoriais, como frescor e sabor, desconhecendo que essa característica é apenas um índice químico que mede a quantidade de ácidos graxos livres, sendo imperceptível ao paladar.

No estudo, os profissionais destacam que um azeite classificado como extravirgem já possui, obrigatoriamente, uma acidez máxima de 0,8% e total ausência de defeitos sensoriais. A fixação nesse percentual demonstra que o público busca qualidade, mas utiliza o parâmetro errado para avaliá-la. A desinformação abre portas para um problema ainda mais grave: a fraude. O azeite de oliva é o segundo produto mais falsificado no mundo, ficando atrás apenas dos pescados.
Essa fraude geralmente envolve a mistura de azeites com óleos vegetais de menor qualidade ou a venda de azeite lampante, que é inadequado para consumo humano direto devido à alta acidez e defeitos, como se fosse extravirgem. Apenas no início de 2024, 38 marcas tiveram lotes proibidos no Brasil por adulteração ou falsificação.
Ainda de acordo com os quatro autores do relatório, a conscientização é o principal entrave para a expansão comercial do azeite brasileiro. A solução passa por uma educação estruturada. Especialistas, azeitólogos e os próprios produtores precisam liderar campanhas que ensinem o brasileiro a ler rótulos, verificar a data de fabricação, identificar a origem e desconfiar de ofertas milagrosas. Outra recomendação do estudo é ensinar os consumidores a dar preferência a cadeias de abastecimento curtas e produtores locais, valorizando o produto fresco.