- O Brasil pode se tornar protagonista global na bioeconomia, gerando até US$ 140 bilhões por ano até 2032 com produtos sustentáveis baseados em biodiversidade e inovação.
- Estudo da ICC Brasil destaca que setores como alimentos, materiais biodegradáveis, agronegócio regenerativo, saúde e cosméticos sustentáveis possuem potencial bilionário, impulsionados pela maior biodiversidade do planeta.
- Apesar do potencial, entraves como baixa coordenação institucional, falta de metas climáticas em empresas e custos elevados dificultam a adoção ampla de práticas sustentáveis na bioeconomia brasileira.
O Brasil tem grande potencial para se destacar e lucrar com a bioeconomia, tornando-se um protagonista mundial na atividade. Estudo da ICC Brasil (International Chamber of Commerce – Comitê Brasileiro da Câmara de Comércio Internacional) estima que o país pode gerar entre US$ 100 bilhões e US$ 140 bilhões por ano até 2032 com o avanço da chamada bioeconomia do conhecimento — segmento que une biodiversidade, ciência e inovação para desenvolver produtos e soluções sustentáveis em áreas como alimentos, saúde, cosméticos e agronegócio.
Se conseguir avançar, o Brasil estará em linha com o que aponta outra pesquisa, do Fórum Econômico Mundial, a qual estima que, globalmente, a green economy já chega a US$ 5 trilhões por ano e deve alcançar US$ 7 trilhões até 2030. De acordo com o relatório, em média, as receitas verdes crescem ao dobro da velocidade das receitas convencionais; as empresas que atuam no segmento têm acesso a recursos mais baratos e costumam ser mais bem avaliadas no mercado de capitais.
Segundo matéria veiculada pela CNN Brasil, no setor de alimentos, por exemplo, o país reúne uma indústria exportadora robusta e uma diversidade de espécies endêmicas com valor nutricional e funcional. De acordo com o estudo da ICC Brasil, o potencial de receitas nesse segmento varia de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões por ano. Já o setor de materiais biodegradáveis e circulares pode movimentar de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões, enquanto o agronegócio baseado em soluções regenerativas, US$ 18 bilhões a US$ 25 bilhões. O estudo aponta, ainda, US$ 12 bilhões a US$ 20 bilhões em potencial no setor de saúde e US$ 8 bilhões a US$ 12 bilhões com cosméticos sustentáveis.
País tem a maior biodiversidade do planeta

O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta, com cerca de 57% das espécies endêmicas do mundo. Possui 24% dos peixes de água doce, 17% das aves, 13% dos anfíbios, 12% das plantas e 11% das formigas. Mas há entraves, como a baixa classificação: apenas 30% dos registros da fauna e flora possuem informações completas.
Dentre as condições positivas do Brasil que favorecem o fortalecimento da economia verde estão sua biodiversidade rica, matriz energética limpa, água e solo fértil. No agronegócio, o país é líder global na produção de soja, café, cana-de-açúcar, laranja, açaí e guaraná, além de estar entre os maiores produtores de milho, algodão, celulose e cacau. Esses setores podem ser plataforma para o desenvolvimento de produtos de alto valor baseado na biodiversidade.
Nas finanças, o movimento é nítido. Antes vistos como um nicho, os fundos ESG se tornaram uma força importante no mundo financeiro global, atraindo trilhões de dólares. Segundo a Fortune Business Insights, empresa de inteligência de mercado e consultoria, o mercado global de investimentos ESG foi avaliado em US$ 39 trilhões em 2025 e deve atingir US$ 125,17 trilhões até 2032, crescendo a uma taxa anual média composta de 18,1%.
Crescem empregos ligados à sustentabilidade

O avanço da bioeconomia também é um forte vetor para a geração de empregos, em especial na agricultura sustentável, energia renovável, reciclagem e saneamento. Atualmente, o Brasil contabiliza 6,8 milhões de empregos verdes com vínculo formal, o que representa 9% do total, dos quais 30% são jovens de 14 a 29 anos, segundo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre o assunto.
Na COP30, realizada em novembro de 2025, em Belém, os empregos verdes tiveram destaque, com a apresentação de projeções para os próximos anos. A pesquisa “Diversidade econômica, comercial, humana e financeira para a transformação ecológica do Brasil”, do Instituto Aya e Systemiq, estima que podem ser gerados até 10 milhões desses postos de trabalho, no país, até 2030.
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Bioindústria tem maior representatividade econômica
Conforme reportagem do portal Terra, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) calcula que o PIB da bioeconomia brasileira alcançou, em 2023, R$ 2,7 trilhões, o equivalente a um quarto do PIB do país. Entram no cálculo do PIB da bioeconomia as atividades de agricultura, pecuária, extrativismo vegetal, pesca e aquicultura, alimentos e bebidas, celulose e papel, têxteis, biocombustíveis, produtos do fumo, além de partes das indústrias de vestuário, calçados, madeira, farmoquímicos, borracha e plástico, móveis e energia elétrica.
“Dono de vastas riquezas naturais e de uma imensa biodiversidade, o Brasil tem tudo para ser um player importante na bioeconomia global, que tem crescente relevância econômica e é o futuro. As empresas que não tiverem a sustentabilidade como um eixo que atravessa de forma transversal o negócio perderão espaço”, afirmou José Roberto Colnaghi, presidente do Conselho de Administração da holding Colpar Brasil, que tem negócios na indústria, agropecuária e urbanismo.
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Problemas sistêmicos atrasam avanço
Apesar de reunir todas as condições para alavancar a economia verde, o Brasil ainda enfrenta problemas sistêmicos que retardam esse crescimento, conforme detalha relatório da Deloitte. Segundo o relatório, baseado em entrevistas feitas com o comando de grandes companhias e líderes de setores estratégicos de mercado, apenas 27% das empresas têm metas climáticas definidas e 70% ainda não possuem compromissos públicos de net zero. Os gestores reconhecem os ativos naturais e energéticos como vantagens competitivas, mas apontam “falta de coordenação institucional, pouca regulação, desafios culturais e econômicos e desconexão entre discurso e ação”.
Segundo os dados da pesquisa, os maiores desafios para a adoção de práticas sustentáveis pelas empresas participantes são: baixa percepção de valor econômico (74%); cultura organizacional (63%); custos elevados (41%); acesso a conhecimento e tecnologia (33%); falta de pressão regulatória (30%); e falta de incentivos (19%). Esse conjunto de fatores pode contribuir para que a prioridade climática enfrente desafios na execução em escala: quando não há retorno claro, podem surgir resistências internas, custos elevados que impactam a competitividade dos preços e sinais regulatórios considerados insuficientes, levando os projetos a permanecerem no estágio de planejamento.