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  • Pequenos agricultores no Brasil enfrentam dilemas críticos entre investir em práticas sustentáveis a longo prazo ou adotar soluções imediatas para sobrevivência, agravados pelas mudanças climáticas.
  • Estudo revela que essa urgência tem levado muitos a entrar em “armadilhas climáticas”, em que medidas paliativas como o desmatamento e a pecuária, deterioram o meio ambiente e intensificam a vulnerabilidade futura.
  • Para mitigar esses riscos, é essencial implementar práticas adaptativas, como restauração florestal e manejo sustentável da água, mas a falta de recursos e assistência técnica dificulta essa transição.
Resumo supervisionado por jornalista.

Apesar dos efeitos das mudanças climáticas, cada vez mais intensos e prolongados, afetarem o setor agrícola brasileiro como um todo, a disponibilidade de recursos determina como cada produtor reage a eles. Entre os pequenos agricultores, a resposta tem sido marcada pela urgência da sobrevivência. À medida que secas e ondas de calor se intensificam, esses produtores enfrentam o dilema de investir em práticas sustentáveis de longo prazo ou recorrer a medidas imediatas que garantam o sustento de curto prazo.

De acordo com estudo publicado no Strategic Management Journal, esse impasse tem empurrado milhares de famílias rurais para “armadilhas climáticas”. O termo se refere a ciclos viciosos e paradoxais nos quais os produtores impactados pelas mudanças climáticas optam por soluções paliativas, aumentam a degradação ambiental e, portanto, contribuem para o aquecimento global.

O levantamento, conduzido por universidades do Brasil, Reino Unido e Espanha, analisou o comportamento de mais de 3 mil produtores rurais durante quatro anos. O estudo revela que, quanto mais intensamente os agricultores vivenciam os efeitos das mudanças climáticas, maior a probabilidade de adotarem respostas inadequadas.

A poucos dias da Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas 2025 (COP30), o tema acende o debate sobre estratégias de adaptação. Nesse sentido, tornar o segmento mais resiliente também significa fortalecer a segurança alimentar, em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A lógica do “morrer de fome agora ou de sede depois”

Jovem planta crescendo em solo rachado e seco, ilustrando os efeitos de uma armadilha climática, que causa desertificação e ameaça o meio ambiente.
Foto: batuhan toker/ Adobe Stock

O título do estudo, “Die now of hunger or later of thirst” (Morrer agora de fome ou depois de sede, na tradução para o português), sintetiza o dilema vivido por agricultores que lidam com escassez de água e renda. Quando confrontados por secas severas, como a de 2015, que devastou o sul da Bahia e matou cerca de 40 milhões de pés de cacau (15% do total), muitos produtores optam por alternativas imediatas como vender madeira, abrir pastos e substituir o cacau por gado. Essas escolhas aliviam temporariamente o aperto financeiro, mas degradam o solo, reduzem a capacidade de retenção hídrica e expõem o gado e as plantações ao calor extremo.

Embora a pesquisa tenha constatado que a adaptação maladaptativa (aumento da pastagem) teve uma porcentagem menor que as respostas adaptativas (aumento da área florestal), a questão ainda é relevante para agenda de descarbonização brasileira. Ao contrário do cenário global, no qual o setor energético é o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE), o desmatamento é o maior vilão no Brasil. Assim, ao priorizar o presente, os produtores acabam agravando as condições que os colocam em risco no futuro. 

O professor de ciências agrícolas e ambientais da Universidade Estadual de Santa Cruz, Jorge Chiapetti, avalia que “quando os produtores enfrentam constantemente desafios climáticos fora de seu controle, eles perdem a esperança e acreditam que qualquer tentativa de adaptação será inútil, reduzindo, em última análise, suas respostas adaptativas”. Ou seja, a experiência direta de perdas acarreta um estado emocional fragilizado, que distorce a percepção de risco e leva à crença de que as soluções sustentáveis são inviáveis ou lentas demais.

No final, a “armadilha climática” é uma retroalimentação negativa no ecossistema. O desmatamento, por exemplo, reduz a umidade do solo e aumenta a evaporação, o que agrava a seca e compromete novas colheitas. O gado, por sua vez, compacta o solo e acelera a erosão, dificultando a recuperação da vegetação.

O que seria uma resposta realmente adaptativa

Sistema de irrigação agrícola em um campo de milho, com aspersores espalhando água sobre as plantas verdes sob um céu claro, promovendo a eficiência na irrigação e o crescimento das culturas.
Foto: Jess_Ivanova/ Adobe Stock

As alternativas de adaptação eficazes já são conhecidas e envolvem a restauração florestal, a adoção de práticas agroflorestais e o manejo sustentável da água para reduzir a vulnerabilidade climática. No entanto, sua implementação depende de tempo, crédito e apoio técnico, recursos escassos entre os pequenos produtores baianos. O estudo aponta que apenas 5% recebem assistência técnica e apenas 37% têm acesso a crédito.

Organizações locais ajudam a reverter esse quadro, com doação de mudas e orientação sobre práticas de reflorestamento, mas o retorno é lento. Árvores levam anos para crescer, e novas secas podem destruir o esforço antes que ele dê frutos. 

Para apoiar a estratégia adaptativa, a professora assistente no Departamento de Ciências Sociais da ESADE Business School, Maja Tampe, sugere que os resultados do estudo sejam utilizados para “orientar a tomada de decisões nas cadeias de suprimentos globais, ajudar os formuladores de políticas a criar intervenções que abordem as barreiras psicológicas à adaptação e apoiar efetivamente pequenas organizações em contextos vulneráveis”.