Antonio Júnior, diretor-presidente da Acumuladores Moura (braço de manufatura da Baterias Moura), começou sua trajetória profissional aos 14 anos, trabalhando em serviços gerais em uma empresa de promoções artísticas, impulsionado pela necessidade de ajudar no sustento da família.

Após ingressar na Moura como estagiário há 26 anos, o executivo construiu sua carreira até chegar à presidência da empresa.

Hoje, a Acumuladores Moura atua no mercado nacional e internacional, com oito plantas industriais na América Latina, e posiciona-se como uma provedora completa de soluções em energia e não apenas como fabricante de baterias.

Em entrevista à série FDC Legacy Talks, da Fundação Dom Cabral (FDC), o executivo detalhou a transição tecnológica do seu mercado, a governança na sucessão da empresa e as operações para gerir e qualificar a mão de obra local.

Ambidestria tecnológica

Para guiar a empresa diante do que chama de “ebulição” no mercado global de energia, Antonio Júnior adota na gestão diária o conceito de ambidestria.

Ele divide seu foco entre garantir a excelência no presente, aprimorando as baterias de chumbo de 12 volts, que continuam sendo o coração da segurança até mesmo nos carros elétricos, e planejar o futuro, desenvolvendo soluções de tração e tecnologias em lítio. De acordo com o executivo, a Moura vem desenvolvendo baterias para eletrificação veicular há mais de dez anos e hoje atende diversos segmentos, como caminhões, empilhadeiras, telecomunicações e sistemas de armazenamento de energia, entre outros. 

Para sustentar essa estratégia, ele destaca que a Moura prospecta tendências e firma parcerias globais com companhias nos Estados Unidos e Europa, além de um acordo estratégico com a chinesa CATL, a maior fabricante de baterias de lítio do mundo, importando células para montagem no Brasil.

A companhia também adaptou seu modelo de negócios para além da venda de produtos industriais, criando uma linha de energia como serviço, na qual, entre outras atividades, loca gabinetes de energia para o setor de telecomunicações.

Desenvolvimento regional

Ao longo de seus 70 anos de história, a empresa optou por manter sua matriz e seis fábricas no município de Belo Jardim (PE), uma cidade de cerca de 60 mil habitantes no interior nordestino.

O crescimento do negócio demandou profissionais qualificados que a região não possuía nativamente. Para solucionar o gargalo de mão-de-obra e evitar a evasão de talentos, a gestão da companhia implementou o programa Moura Tech.

A iniciativa atrai universidades e escolas técnicas, criando parcerias, como a firmada com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), para formar engenheiros focados no desenvolvimento de baterias de lítio e suprir a escassez de especialistas em tecnologia da informação.

Como resultado da cultura de retenção, cerca de 80% das promoções recentes de liderança na organização vieram da própria casa. A magnitude dessa operação impacta diretamente a economia local, uma vez que os 4,5 mil colaboradores em Belo Jardim representam até 40% da mão de obra da cidade.

Comunicação direta, governança e sustentabilidade

Para evitar o distanciamento da rotina operacional, Antonio Júnior faz questão de ressaltar que mantém uma política de porta aberta e proximidade.

Guiado pelo autodesenvolvimento da equipe, ele mantém as tradicionais “cumbucas técnicas”, reuniões criadas pelo fundador da empresa, nais quais os funcionários são sorteados para dar aulas sobre livros e manuais complexos. 

Na área da governança e transição familiar, o processo da Moura já está maduro e estruturado. A terceira geração da família fundadora atua por meio de comitês e conselhos de administração externos, deixando o dia a dia e a presidência sob comando de executivos, o que garante estabilidade corporativa.

Na frente socioambiental, a sustentabilidade da Moura vai além da obrigatória logística reversa, política de coletar e reciclar uma unidade para cada nova bateria vendida no mercado.

Além disso, a empresa injetou, recentemente, cerca de R$ 850 milhões na construção de uma nova unidade de reciclagem metálica de alta tecnologia.

Outra iniciativa envolveu visitas globais da diretoria para importar e implementar fornos contínuos que garantam o menor índice de emissões possível, focando num padrão de sustentabilidade de classe mundial.

Em suas atividades fora da corporação, Antonio Júnior adianta que não é um consumidor frequente de séries, buscando sempre materiais mais ligados à estratégia.

Ele traz ensinamentos fortes de outras áreas, como da sua vivência universitária, para a base da resiliência e inteligência emocional. Uma frase que o marcou, na época de faculdade, ainda é um dos seus mantras durante as pressões do cargo: “no fim tudo vai dar certo. Se não der certo, é porque ainda não chegou ao fim”, destaca.

Indicação de leitura

“A caixa preta da governança”, obra de Sandra Guerra, que foca nos bastidores dos conselhos de administração e ajuda líderes a entenderem a dinâmica, a visão de investidores familiares e o papel dos conselheiros externos nas empresas.

Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify: