André Daré, presidente da Núclea, acumula 30 anos de carreira no setor financeiro, sendo 25 deles no Itaú, onde participou ativamente da criação dos primeiros internet bankings e do avanço das contas digitais no país. 

À frente da Núclea, o executivo lidera uma infraestrutura crítica de mercado que processa mais de 60 bilhões de transações e R$ 18 trilhões por ano, conectando bancos e instituições com alto padrão de segurança. 

Nessa entrevista à série Legacy Talks, o executivo relembrou sua trajetória desde os tempos de analista júnior no Itaú e explicou como a inteligência de dados, a cibersegurança e a educação representam os pilares da sua gestão e do seu legado.

Do cheque à bancarização digital

Com três décadas de atuação no mercado financeiro, André Daré acompanhou de perto as principais transformações tecnológicas do setor no Brasil. Ingressando no Itaú em 1997, viveu a transição das rotinas físicas e do uso de cheques, que levavam dias para serem compensados, para o desenvolvimento dos primeiros sistemas de internet banking e, posteriormente, dos aplicativos para celulares.

André Daré, presidente da Núclea, em entrevista sentado em estúdio, falando ao microfone com fundo colorido com elementos visuais tecnológicos.
André Daré, presidente da Núclea (Foto: Divulgação / Legacy Talks)

Durante essa jornada, o executivo participou das articulações regulatórias junto ao Banco Central e à Febraban, associação que reúne as instituições financeiras, para viabilizar a abertura de contas 100% digitais. 

Daré ressalta que a verificação digital trouxe parâmetros de segurança superiores aos do ambiente físico, incluindo recursos novos, como a geolocalização e identificação do dispositivo. Essa mudança reduziu o custo operacional das instituições, permitindo a inclusão financeira de milhões de brasileiros, por meio de contas gratuitas ou de baixo custo.

Engrenagem invisível movimenta R$ 18 trilhões

Em 2022, após presidir o Conselho de Administração da então Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), Daré assumiu a liderança do processo de desmutualização da instituição, que passou a se chamar Núclea. A mudança transformou a associação sem fins lucrativos em uma corporação com fins lucrativos, pronta para atrair investimentos e expandir seus serviços.

A Núclea opera como uma rede centralizada formada por 48 bancos sócios e milhares de participantes, eliminando a necessidade de conexões bilaterais. Atualmente, a empresa processa mais de 60 bilhões de transações e R$ 18 trilhões anualmente, cuidando da liquidação de cartões de crédito e débito, boletos, TEDs, cadastro positivo e portabilidade de crédito e salário. Por ser uma estrutura crítica de mercado, uma eventual interrupção em seus sistemas paralisaria o comércio, pagamentos e entregas em todo o país.

Evolução do boleto

Além de garantir a trafegabilidade segura de ativos, a Núclea iniciou uma nova fase focada na inteligência de dados. Ao analisar padrões de pagamento dentro do rigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e do sigilo bancário, a empresa ajuda o mercado a reduzir a assimetria de informação na concessão de crédito. Isso permite identificar bons pagadores, diminuir a inadimplência e, consequentemente, baratear as taxas de juros finais.

Contrariando projeções de que o Pix substituiria o boleto bancário, Daré destaca que o formato segue como um dos instrumentos mais democráticos e dinâmicos do país com taxa de crescimento anual contínuo. Atualmente, 6% dos boletos já trazem o QR Code do Pix embutido, reunindo agilidade e garantias jurídicas de cobrança. O executivo aponta ainda que o boleto desempenhará papel central no Split Payment da reforma tributária, recolhendo impostos automaticamente no ato da compra e no novo mercado de duplicatas escriturais, o que permitirá aos lojistas negociar seus recebíveis com qualquer instituição financeira em busca de menores taxas.

Prioridade da cibersegurança

Diante da responsabilidade de gerenciar dados sigilosos e cifras trilionárias, o presidente da Núclea aponta a cibersegurança como uma de suas prioridades diárias. A companhia conta com uma grande equipe dedicada exclusivamente à prevenção de ciberataques e proteção contra vazamento de informações.

Paralelamente, em um ambiente em que inovações tecnológicas se tornam obsoletas em questão de meses, Daré defende que o foco principal da liderança deve estar no cliente e na resolução de seus problemas. Para o executivo, as tecnologias mudam, mas as necessidades fundamentais permanecem; por isso, a adaptabilidade é o segredo para manter uma empresa relevante ao longo das décadas.

Legado em educação

Com 50 anos de idade recém-completados, Daré passou a dedicar atenção especial ao impacto social da sua trajetória. Vindo de uma família simples, na qual priorizar os estudos permitiu a mobilidade social, o executivo enxerga na educação a principal ferramenta de transformação do país.

A Núclea Associação (iniciativa com fins sociais da Núclea) trabalha com a oferta de conteúdo e capacitação gratuita em tecnologia e inovação, áreas que enfrentam um déficit de mais de 600 mil profissionais no Brasil. A iniciativa já atende mais de 55 mil alunos, com a meta de alcançar 100 mil no curto prazo e a ambição de formar 1 milhão de pessoas. Fora do setor financeiro, Daré também atua como sócio em projetos de construção civil no interior paulista, onde criou um instituto para ensinar noções de gestão, contabilidade e finanças a pequenos empreiteiros e mestres de obras.

Indicações de leitura de André Daré

O CEO da Núclea compartilhou três obras que marcaram sua visão de negócios e de vida:

  1. A estratégia do oceano azul, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne: leitura fundamental para empresários que buscam sair da competição destrutiva por preços (“mar vermelho”) e focar na criação de novos mercados (“mar azul”) que resolvam as reais necessidades dos clientes.
  2. Aprender a aprender, de Daniel Dal´Laqua: obra essencial para a era da transformação digital acelerada, ensinando métodos para manter o aprendizado contínuo e evitar a obsolescência profissional.
  3. Adestramento natural/adestramento positivo, de Tomás Szpigel: livro sobre a relação com animais de estimação que o executivo trouxe para sua filosofia de liderança, mostrando que o aprendizado e o engajamento acontecem de forma muito mais duradoura pelo reforço positivo do que pela punição ou comunicação violenta.

Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify: