– O webinar “Forecast 2026” da Fundação Dom Cabral, apresentado por Paulo Vicente Alves, analisa as transformações no ambiente de negócios, destacando causas como a nova Guerra Fria, revolução tecnológica e economia em recuperação.
– As tensões geopolíticas e a adoção de novas tecnologias estão alterando a dinâmica competitiva global, impulsionando movimentos como o near-shore, onde empresas buscam realocar suas produções para regiões mais próximas dos mercados consumidores e politicamente estáveis.
– Embora a robotização ameace certos empregos, Alves prevê que novas oportunidades surgirão, com a criação de mercados que exigem habilidades humanas, como criatividade e resolução de problemas.
Resumo supervisionado por jornalista.Antecipar tendências, principalmente em um cenário marcado por uma dinâmica geopolítica, tecnológica e econômica acentuada, do ponto de vista da transformação, pode proporcionar vantagem econômica tanto para governos quanto para organizações privadas. Nesse sentido, a Fundação Dom Cabral (FDC) promoveu o webinar “Forecast 2026 – Você está preparado para o que vem por aí?”, apresentado pelo professor Paulo Vicente Alves, com objetivo prever o ambiente de negócios nos próximos anos.
Para isso, Alves separou a análise entre causas e efeitos, sendo a primeira formada pela nova guerra fria, revolução tecnológica e economia em recuperação. Já os efeitos são compostos pelos tópicos de riscos geopolíticos, near-shore e novas tecnologias e o mercado de trabalho.
Causas

O ambiente de negócios que se desenha para os próximos anos é resultado de movimentações políticas, tecnológicas e econômicas. Tal qual um jogo, a compreensão do todo e a antecipação das jogadas dos participantes ajuda a elaborar a melhor estratégia. Da mesma forma, as decisões nacionais e corporativas devem considerar os variados aspectos que promovem mudanças no mercado. Pensando nisso, o doutor em administração de empresas destacou três causas de transformações mercadológicas, confira.
1. Nova Guerra Fria
Uma vez que os negócios são impactados por interferências externas, o especialista em estratégia, cenários e geopolítica se debruça sobre a pesquisa dos contextos político, tecnológico e econômico para antever as condições para o desenvolvimento do mercado no próximo e nos seguintes anos. Alves se baseia no conceito do economista Nikolai D. Kondratieff, “Ondas de Kondratieff”, para apresentar os cinco ciclos que datam desde 1770, com as guerras napoleônicas, e se estendem até 2030, quando seria o quinto ciclo, de acordo com a previsão do professor.
Mais que ciclos temporais marcados por crises ao final de cada período, cada etapa traz consigo um desenvolvimento tecnológico. Na conjuntura atual, a telemática (união entre telecomunicações e informática) é o principal vetor impulsionado. Desta vez, a guerra que ocasionou esse desenvolvimento é a chamada “Nova Guerra Fria”, organizada entre o ocidente (mesmo que geograficamente não seja a definição mais correta) e o “eixo ditatorial”. As nações que formam o grupo do ocidente envolvem os países da OTAN, Ucrânia, Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Austrália. Formam o “eixo ditatorial” a Rússia, a China, o Irã, a Coreia do Norte e a Bielorrússia. Além desses dois grupos, os pró-ocidente (México, Israel, Turquia, Filipinas, Indonésia) e os não alinhados (Índia, Brasil e Arábia Saudita) completam o quadro.
Em uma analogia ao jogo indiano Chaturaji, que, segundo o professor, o objetivo é ficar em um canto e esperar os outros jogadores se matarem para que seja possível ganhar no final, são definidos os quatros Rajis (reis) e os quatros Raos (duques). As grandes forças são Estados Unidos, União Europeia, Índia e China, e o Brasil, Rússia e Japão são os duques. Nessa configuração, o Brasil se encontra em uma posição vantajosa, afastada dos demais países, mas ainda precisa se desenvolver militar e tecnologicamente para ter sucesso.
2. Revolução tecnológica
Do ponto de vista tecnológico, há três rupturas em curso: (1) tecnologias verdes, (2) manufatura ou automação e (3) melhoria humana. A primeira tem como objetivo reduzir custos, energia e materiais. Já a segunda visa diminuir a necessidade de mão de obra, principalmente a não especializada. Por fim, a terceira pretende aumentar a longevidade e, portanto, a produtividade humana.
De maneira geral, as nações estão investindo em áreas como defesa, programa espacial, inteligência artificial, velocidade de processamento e terras raras. Os Estados Unidos, por exemplo, com o Innovation and Competition Act e o Chips and Science Act, destinaram cerca de US$ 530 bilhões para realocar cadeias produtivas para o território americano e avançar em P&D. Por sua vez, a Europa lançou o Readiness 2030, que destina 800 bilhões de euros à modernização de suas defesas e infraestrutura tecnológica.
3. Economia em recuperação
O terceiro motor dessa transformação é econômico e encontra um mundo que está em estado de desespero e prestes a enfrentar uma crise, de acordo com o modelo de ciclo de emoções trabalhado por Alves há quatro anos. A notícia positiva ao examinar o gráfico é que 2026 promete ser um ano bom, com a emoção saindo de depressão para alegria. O ponto mais alto, no entanto, está em meados de 2027, marcado pela euforia, que precede a oscilação para o desespero.
Apesar da expectativa de melhora, o professor mapeou como riscos a posição dos EUA entre uma recessão e uma inflação, o fim do hype de IA, a questão geopolítica e a desaceleração da China. Neste ano, a guerra tarifária também foi um vetor de transformação nas relações comerciais e se mantém como um ponto de atenção. Para essa questão, Alves aponta três caminhos: operar dentro do mercado americano; utilizar a técnica de transbordo, ou seja, enviar o produto para um destino x e, de lá, mandar para o destino final y; procurar novos mercados, ainda que seja difícil encontrar outro com o mesmo capital econômico dos EUA.
No que diz respeito às projeções futuras, a estimativa é de estagflação nos EUA em 2026, ou seja, um crescimento pequeno combinado com uma inflação relativamente alta. No horizonte de 2030, a China observa o crescimento diminuir, em um movimento normal, já que quanto mais se cresce, mais difícil fica manter os níveis de crescimento.
Efeitos
Se as causas delineiam o terreno da transformação, os efeitos traduzem suas consequências diretas sobre o mapa global de poder, produção e trabalho. O deslocamento das cadeias produtivas, as tensões entre potências e a adoção acelerada de novas tecnologias estão remodelando a lógica de competitividade entre países e empresas. É nesse contexto que surgem tanto oportunidades estratégicas quanto vulnerabilidades.
Riscos geopolíticos
As tensões geopolíticas deixaram de ser pano de fundo e tornaram-se o eixo central das decisões econômicas globais. Para o professor, os conflitos existentes ou que ainda podem tomar corpo, são capazes de redefinir cadeias produtivas, fluxos de capital e estratégias empresariais.
No caso da Europa, o prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia consolida uma situação de desgaste sem vitória clara. Alves vê, no longo prazo, a Rússia caminhando para uma guerra civil, que, consequentemente, provoca um enfraquecimento do poder central russo. Dessa forma, a possibilidade de fragmentação territorial ganha força. Paradoxalmente, isso poderia levar o Ocidente a intervir em sua defesa, para evitar que a China amplie sua influência sobre o território russo.
Já no Oriente médio, o temor é que o Irã avance com armas nucleares e isso desencadeie uma corrida por armas nucleares. Como decorrência de uma guerra regional nuclear, há uma transição energética forçada, além dos preços do petróleo subirem para US$ 200 ou US$ 300 por barril.
Diante desses riscos, “muitas empresas estão fugindo da Ásia, China e leste europeu para vir para o ‘near-shore. E essa é uma grande oportunidade para o Brasil’”.
Near-shore
A instabilidade geopolítica e a corrida tecnológica estão promovendo mudanças na forma como o mundo produz e distribui bens. A concentração de fábricas na Ásia, devido a países com mão de obra barata, começa a dar lugar a uma lógica de proximidade estratégica, o near-shore. Essa tendência revela, entre outros objetivos, a estratégia de empresas para reduzir riscos e aproximar a produção dos mercados consumidores.
Durante quatro décadas, a China foi o grande destino para indústrias como a de calçados e têxtil. Agora, o movimento é de retorno, não necessariamente para dentro dos países onde os negócios foram desenvolvidos, mas para regiões politicamente estáveis e com acesso logístico rápido, ainda que tenha que pagar mais caro pela mão de obra.
Nos Estados Unidos, o principal beneficiário desse movimento tem sido o México, que atrai indústrias automotivas, eletroeletrônicas e de linha branca interessadas em manter produção próxima ao mercado norte-americano.
A América Latina, embora o Brasil seja um dos destinos nesse redesenho produtivo, ainda enfrenta obstáculos internos que o colocam em alerta e longe de ser a primeira opção da região.
“A sexta opção [na América Latina] era o Brasil, mas o país vem perdendo essa posição, principalmente por risco tributário. A percepção é de que não há uma estabilidade na lei trabalhista e na lei tributária. Não se consegue fazer um plano de negócios para 10 anos por conta de diversos fatores aqui”, explicou o professor da FDC.
Novas tecnologias e o mercado de trabalho
A terceira transformação está relacionada ao impacto das novas tecnologias sobre o trabalho humano. Com uma robotização extrema, a tendência é de que muitos empregos desapareçam, especialmente aqueles pautados em tarefas simples, repetitivas e perigosas. Assim, o trabalho dos humanos vai ser voltado para atividades que as máquinas não fazem, pelo menos não tão bem quanto as pessoas, que são lidar com outras pessoas, resolver problemas e usar a criatividade.
Mas, ao contrário do discurso fatalista, Alves vê mais criação do que destruição de empregos. Isso se deve a destruição criativa e a criação de novos mercados, estimulados por tecnologias viabilizadoras. Nesse ponto, o desafio deixa de ser a falta de trabalho e passa a ser a falta de qualificação.
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