O Brasil tem nas mãos a oportunidade de se tornar protagonista em um dos mercados mais promissores da economia verde: o de carbono. Para isso, no entanto, o setor agropecuário precisa acelerar a transição para práticas de produção de baixo carbono, ampliar sua presença nas negociações internacionais e estruturar um sistema confiável de medição e verificação de emissões.

As constatações integram o projeto “Diálogos sobre o Mercado de Carbono”, desenvolvido em parceria entre o Instituto Clima e Sociedade (ICS) e a Fundação Dom Cabral (FDC). O material reúne contribuições de especialistas, representantes do setor público, empresas e líderes do agronegócio que, ao longo de 2025, participaram de encontros técnicos para debater o tema.

O documento delineia um roteiro estratégico para fortalecer a inserção competitiva do agro nacional no mercado de carbono e apoiar o cumprimento das metas brasileiras no Acordo de Paris.

Transparência e métricas confiáveis são prioridade

O ponto de partida para a valorização dos produtos agrícolas de baixo carbono é garantir transparência na medição, relato e verificação (MRV) de emissões e remoções de gases de efeito estufa. O modelo recomendado baseia-se em emissões líquidas no nível da propriedade rural, que consideram tanto a geração quanto a absorção de carbono.

Esse avanço exige capacitação técnica e o envolvimento de entidades como Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) – ligada ao Governo Federal – e Senar – entidade privada sem fins lucrativos, mantida pela classe patronal rural e vinculada à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para apoiar pequenos e médios produtores. Além disso, será necessário o desenvolvimento de soluções digitais, como sensores, plataformas de inteligência artificial e rastreabilidade geoespacial.

Padrões internacionais precisam reconhecer a agricultura tropical

Um desafio recorrente apontado nos debates é a necessidade de tropicalizar os padrões globais usados para medir emissões e definir créditos de carbono. Hoje, protocolos como o GHG Protocol (Greenhouse Gas Protocol, um conjunto de padrões internacionais utilizados para medir e gerenciar emissões de gases de efeito estufa em empresas e organizações) e iniciativas como a SBTi (Science Based Targets, um organismo global que ajuda as empresas a definirem metas para a redução de emissões, de acordo dados científicos) muitas vezes não consideram as especificidades dos sistemas produtivos tropicais.

A proposta é ocupar espaços técnicos nos comitês internacionais, ampliar a presença brasileira nas discussões multilaterais e fortalecer a comunicação do setor no exterior, destacando, por exemplo, os diferenciais do Código Florestal como ativo climático.

Pecuária de baixo carbono: produtividade com impacto ambiental positivo

Gados nelore de fazenda em um campo verde sob céu azul, representando práticas de pecuária de baixo carbono alinhadas ao mercado de carbono para sustentabilidade.
Foto: Marcus/ Adobe Stock

A descarbonização da pecuária aparece como uma das estratégias mais eficazes, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico. Entre as ações recomendadas estão a restauração de pastagens degradadas, a intensificação sustentável, o uso de aditivos para reduzir metano e a adoção de sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).

O documento também destaca a importância de valorizar a vegetação nativa preservada e o desmatamento evitado, reconhecendo o papel desses fatores na captura de carbono e na manutenção de serviços ecossistêmicos.

Políticas públicas e incentivos econômicos são essenciais

Plantio de mudas de soja para promover a sustentabilidade e o combate às mudanças climáticas no contexto do agro mercado de carbono.
Foto: Stock Media Seller/ Adobe Stock

Para que o agro avance na agenda climática, de acordo com os especialistas, será necessário reorientar incentivos econômicos, com foco em inovação e sustentabilidade. Uma das propostas é transferir subsídios atualmente destinados a combustíveis fósseis para tecnologias de baixo carbono, como biogás, energia renovável nas propriedades e insumos mais eficientes.

Além disso, o sistema financeiro pode atuar como catalisador da transição, por meio de:

  • Créditos rurais com condições diferenciadas para quem adota boas práticas ambientais.
  • Seguros indexados a práticas sustentáveis e monitorados por satélite.
  • Expansão do programa RenovaBio, incluindo novas fontes de remoção de carbono.

A regularização fundiária e a consolidação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) também são apontadas como prioridades para dar segurança jurídica aos investimentos e permitir o uso de instrumentos como a Cota de Reserva Ambiental (CRA).

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Participação em mercados regulados e voluntários ainda exige definições

No campo regulatório, o consenso é que o agronegócio não deve ser incluído diretamente no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), mas pode contribuir com projetos de remoção em cadeias verticalizadas. Para isso, é urgente definir metodologias claras, padronizar critérios e dar segurança aos agentes econômicos.

Outro ponto crítico é a falta de definição do Brasil sobre sua participação no Artigo 6 do Acordo de Paris, que fala sobre cooperação internacional e apoio financeiro aos países em desenvolvimento para o combate às mudanças climáticas. A ausência de uma Política Nacional de Ajustes Correspondentes dificulta o planejamento do setor privado e limita o acesso a oportunidades de financiamento.

Já no mercado voluntário, o caminho passa pela redução de custos de transação e pelo apoio a metodologias que reflitam a realidade brasileira. O país também pode explorar novas frentes, como créditos de biodiversidade e projetos de biogás agrícola.

Liderança climática exige ação coordenada e visão internacional

A proposta final do projeto é criar uma governança multissetorial permanente, como uma “Aliança Agro-Clima”, para coordenar a agenda de baixo carbono no campo, acompanhar os avanços e defender os interesses brasileiros em fóruns globais. O grupo envolveria academia, governo, cooperativas, bancos e empresas.

Com a COP 31 prevista para 2026, o Brasil tem uma janela de oportunidade para se posicionar como referência em produção agrícola sustentável. Mas isso exigirá velocidade nas definições regulatórias, investimento em ciência e inovação, e liderança empresarial comprometida com a transição climática.

Uma resposta natural da sociedade e organizações que estudam a pauta foi a criação da Rede de Inteligência pela Agro e Clima, formada pela FDC, FGV, Insper, Agroícone, Instituto Equilíbrio e Ipam.