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– O agronegócio brasileiro está em um momento de transição, buscando se tornar um protagonista na mitigação das mudanças climáticas através da combinação de soluções naturais e inovações tecnológicas, conforme destacam especialistas do setor.

– A preservação das florestas e a adoção de práticas regenerativas são fundamentais para garantir a disponibilidade hídrica e reduzir os riscos de secas, que afetam diretamente o setor agrícola, além de impactarem a reputação e custo de capital do Brasil.

– Há um chamado para financiar a transição, especialmente para pequenos produtores, com a utilização de instrumentos financeiros como empréstimos verdes e modelos de negócios que conectem ciência e finanças, promovendo práticas agrícolas sustentáveis.

Resumo supervisionado por jornalista.

O agronegócio brasileiro está numa transição importante, podendo deixar de ser um “vilão climático” para ocupar um lugar de protagonista no cinturão tropical do mundo. A transformação do agro, importante emissor de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, passa pela combinação de soluções baseadas na natureza com inovações científicas.

Para três especialistas no tema, os professores Guilherme DePaula (Iowa University), Ludmila Ratis (Fundação Dom Cabral – FDC) e Taciano Custódio, head de sustentabilidade do Rabobank, o Brasil possui desafios únicos, mas também grandes oportunidades.

Uma delas é a preservação e restauração, especialmente ao usar a tecnologia e a regulação para separar o crescimento da produção da expansão territorial. Ou seja, produzir mais, sem avançar na fronteira agrícola, por meio de uma expansão vertical, com adoção de tecnologia.

DePaula argumenta que a mitigação climática para o agro brasileiro está intimamente ligada à adaptação climática, pois conservar florestas é essencial para preservar a água das chuvas e dos rios. Ele defende que mitigar traz benefícios privados, o que faz do produtor agrícola um dos maiores interessados no processo.

Ludmila reforçou que o desmatamento, que é a origem primária das emissões brasileiras, causa uma disrupção do ciclo da água e um aumento da temperatura. Ela lembrou que as florestas são vitais para a ciclagem da água, garantindo maior disponibilidade hídrica, especialmente em anos secos.

Perigo das secas

Imagem aérea mostrando floresta destruída por desmatamento no Brasil, evidenciando a devastação ambiental e o impacto na biodiversidade.
Foto: Mark Gusev / Shuttertstock

Os especialistas também concordaram que o risco para o setor agrícola brasileiro está aumentando dramaticamente. Um deles é o aumento da frequência das secas projetadas para o Centro-Oeste brasileiro, elevando o perigo para o agronegócio.

Custódio, do Rabobank, destacou que o desmatamento também eleva o risco reputacional do Brasil, o que impacta diretamente o custo de capital, o que torna o dinheiro internacional mais caro. O especialista lembrou o movimento do Banco Central em tornar a análise de riscos sociais, ambientais e climáticos (RSAC) compulsória até 2026. Ele ressaltou que as regras estão sendo adaptadas para pesar esses riscos na análise de crédito.

Outro movimento importante é o uso de plataformas, como Adapta Brasil e Map Biomas, pelas instituições financeiras, para análise geográfica e avaliação de clientes contra listas de áreas embargadas.

Por outro lado, Custódio enfatizou a importância de capitalizar o produtor rural para que ele possa realizar a transição, especialmente os pequenos produtores, que compõem 90% da cadeia.

O trio de especialistas também destacou a transição para a agricultura regenerativa, que pode ser entendida como a atualização do sistema de seguro agrícola.

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Em vez de apenas pagar um prêmio (custo) para se proteger contra secas e riscos, o produtor investe em tecnologia e natureza (práticas regenerativas) que, de acordo com o modelo de negócios, reduzem ativamente o risco de perda (aumentando a estabilidade) e, consequentemente, atraem capital financeiro mais barato e competitivo.

De acordo com Ludmila, o desmatamento, ilegal ou não, provoca a disrupção do ciclo da água e aumento do aquecimento, e a biofísica “não se ajusta às nossas leis”. A solução regenerativa, segundo ela, busca manter a umidade no sistema, aproveitando a posição favorável do Brasil, que recebe umidade do oceano para irrigar grande parte da América.

Agricultura regenerativa

Floresta densa ao lado de um rio, demonstrando o ciclo da água na natureza, com árvores verdes e águas calmas, evidenciando as florestas com ciclagem de água.
Foto: Irkhabar / Shutterstock

“As florestas promovem a ciclagem da água, retirando-a das camadas mais profundas do solo e levando-a para a atmosfera, um benefício que não é possível somente com a agricultura”, detalhou.

A especialista também defendeu a criação de modelos de negócios para acelerar a transição para a agricultura regenerativa. O objetivo desse movimento seria a conexão da ciência às finanças, transformando variáveis ecológicas, como os corredores que atraem polinizadores, em métricas financeiras, traduzidas em estabilidade de produção e rentabilidade.

Custódio reforçou a visão da professora da FDC, ao listar instrumentos financeiros específicos, como os empréstimos verdes (green loans), que podem ser liberados para investimentos específicos, com exemplos como sistemas de biodigestor, maquinário que reduza o uso de fertilizantes, ou fábricas de biológicos.

Outra vertente envolve instrumentos vinculados à sustentabilidade, situação em que o desempenho financeiro está ligado a metas mais amplas, como ampliar o volume de hectares utilizando insumos biológicos.

A integra do debate entre os três especialistas pode ser vista no webinar Adaptação climática e agro: conectando ciência, produção e finanças, organizado pela Fundação Dom Cabral e que faz parte de uma iniciativa conjunta com Instituto Clima e Sociedade (ICS).