- A liderança contemporânea exige uma postura de inquietação e aperfeiçoamento contínuo para enfrentar a complexidade e a rápida transformação dos mercados.
- Ferramentas tradicionais de gestão são insuficientes diante das crises de confiança, diversidade de stakeholders e dilemas éticos que desafiam as decisões dos líderes.
- Líderes devem integrar múltiplas perspectivas, promover diálogo e refletir sobre valores para equilibrar resultados financeiros e responsabilidade moral nas organizações.
“Sempre te desagrade o que já és se queres chegar àquilo que ainda não és. Pois onde te agradaste, aí paraste. E, se porém, disseres: ‘já basta’, aí também morreste. Aumenta sempre, avança sempre, aperfeiçoa sempre.” Esta exortação de Agostinho de Hipona, escrita há 16 séculos, permanece um espelho fiel para o executivo contemporâneo que sente o mundo mudar mais rápido do que sua capacidade de compreendê-lo. A inquietação que ele descreve não é uma simples fraqueza, mas algo central na experiência humana e um motor necessário para a evolução no topo das organizações.
Em meio à aceleração de todas as dimensões da existência, enfrentamos uma severa falta de silêncio e profundidade. A vida executiva, marcada por pressões constantes, faz emergir uma pergunta incômoda: que tipo de liderança temos exercido e que modelo de organização ela sustenta? Durante décadas, o ensino da administração focou em planos de negócios e ferramentas analíticas. Esse legado tem seu valor, mas o mundo que essas ferramentas deveriam mapear já não é o mesmo.
As transformações aceleradas na sociedade, os mercados em permanente reinvenção, as crises de confiança nas instituições, a complexidade dos comportamentos humanos em organizações, nada disso cabia, com a devida profundidade, nos currículos tradicionais. Muito menos as crises profissionais íntimas, aquelas que não aparecem nos relatórios, mas que corroem a capacidade de liderar por dentro. O amadurecimento do líder exige reflexão, diálogo e o atrito com ideias que incomodam, integrando novos marcos de sentido à prática cotidiana. Ampliar a capacidade para melhores decisões não se faz apenas com técnica, mas com escuta e exposição ao diferente.
Melhores decisões não acontecem em câmaras de eco corporativas, onde as únicas vozes que chegam ao topo apenas confirmam o que o líder já pensa ou decidiu. Tampouco ocorrem no silêncio sem interlocutores. Lideranças de alto nível são desafiadas diariamente por tensões inevitáveis: pressões por resultado versus demandas de responsabilidade; a urgência do curto prazo versus o olhar estratégico; e as cobranças de acionistas versus as expectativas das comunidades.
Navegar nesse campo exige múltiplas perspectivas e a capacidade de ouvir vozes dissonantes sem paralisar. A vida executiva pede mais do que comando e controle; pede o equilíbrio de expectativas em redes complexas de partes interessadas (stakeholders). Isso exige que o líder seja tão sensível à responsabilidade moral quanto à meta financeira.
Desenvolver uma responsabilidade mais ampla requer o exercício deliberado de múltiplas perspectivas: aprender a identificar e gerenciar dilemas éticos reais; compreender o contexto histórico, político, econômico, ecológico e cultural em que as organizações estão inseridas; e perceber que as melhores decisões não são apenas as que minimizam riscos ou protegem reputação. São as que guardam coerência com valores escolhidos e anunciados, que honram a confiança dada e recebida, e que assumem o impacto causado.
Para lidar com a pressão das incertezas paralisantes, é fundamental buscar espaços que permitam escapar das respostas prontas. Aos inquietos, que buscam não apenas gerir, mas evoluir com inteligência e serenidade, fica o chamado: aumenta sempre, avança sempre, aperfeiçoa sempre!
* Zeca de Mello é professor convidado da Fundação Dom Cabral e palestrante sobre liderança. É doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, mestre pela PUC-Rio e tem MBA executivo pela COPPEAD/UFRJ. Leciona em diversos programas da FDC, entre eles o Jornada de Desenvolvimento C-Level – composta por módulos que combinam a teoria com as melhores práticas e promove a reflexão e o networking, permitindo aos participantes aplicar os conhecimentos obtidos nas organizações onde atuam.